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Portugal, um país fidalgo

por Carlos Neves, em 20.03.23

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“Quando a preguiça morrer

Até o monte maninho

Até os fraguedos da serra

Darão rosas, pão e vinho”

(Do poema “A preguiça”, de António Correia de Oliveira)

 

Em março do ano passado, quando a guerra tornou difícil o acesso aos cereais da Rússia e Ucrânia, surgiram apelos para a sementeira imediata de trigo no Alentejo. Em resposta a esse apelo, através do meu artigo “Portugal não é um país agrícola”, expliquei, usando uma expressão que o meu pai citava muitas vezes, que “Portugal é um país pedrícola”. Temos muitas serras cheias de pedra, muitos montes onde é impossível fazer agricultura como nas planícies da Ucrânia, da Rússia ou da França. Também temos algumas planícies sem água e temos poucos terrenos bons para agricultura de cereais em grande dimensão com área, solo e água.

Descobri, entretanto, que eu estava em parte enganado, afinal as pedras podem dar pão, ou, pelo menos, davam no século passado. No livro “Das Pedras, Pão”, editado pelo Museu da Paisagem e profusamente ilustrado com fotografias de Duarte Belo, Henrique Pereira dos Santos, Arquiteto Paisagista, explica-nos como os rebanhos de cabras aproveitavam as ervas que cresciam nas “terras marginais”, nos terrenos limítrofes das aldeias do Nordeste de Portugal e ao regressar aos abrigos produziam estrume que era depois usado para fertilizar a terra onde se produzia o trigo ou centeio que davam o pão. O autor explica que “A função coproiética permite a introdução de matéria orgânica no solo para compensar a exportação de nutrientes que decorre da produção de cereais. (…) O sistema digestivo dos animais disponibiliza matéria orgânica já em fases adiantadas de decomposição, permitindo às plantas usar imediatamente os nutrientes que a estrumação devolve ao solo”. Fixem isto, decorem isto, para explicarmos às pessoas a importância das vacas, cabras e ovelhas na agricultura e na paisagem. 

Entretanto, os rebanhos quase desapareceram, mas não faltou trigo em Portugal. O trigo é importado, mas temos que nos importar também com o Portugal que vai ardendo todos os anos nos terrenos que eram limpos pelas cabras a pastar ou na floresta cujo mato era cortado para fazer as camas dos currais, para “astrar”, como aqui se dizia, a mesma floresta onde os pobres iam buscar lenha para se aquecer e cozinhar.

Henrique Pereira dos Santos tem defendido que comer cabrito ou chanfana é um contributo válido para evitar incêndios e tem defendido maiores apoios para usar rebanhos de cabras na limpeza da floresta. O problema é que as cabras bravias precisam de pastor, como explicou Avelino Rego, agricultor transmontano numa publicação recente:

“As cabras bravias são animais que precisam de andar muito e de um pastor que as acompanhe. Ao contrário das ovelhas por exemplo, que ficam felizes da vida com um prado de erva abundante, as cabras precisam de fazer quilómetros diariamente, precisam de correr, precisam de turrar umas nas outras, precisam de risco - percebe-se isso claramente quando optam por descer um penedo, com um carreiro alternativo ao lado. (…) A necessidade do pastor em permanência deve-se essencialmente a duas razões: lobo e optimização do percurso de pastoreio para garantir uma melhor alimentação.

A questão do lobo é fácil de compreender. Como percorrem áreas imensas, distantes dos povoados, ficam muito susceptíveis a ataques, a que as cabras não têm capacidade inata para resistir - ao contrário das vacas por exemplo, que para além do seu porte muito maior que é dissuasor, têm a capacidade inata de se organizem em grupo, para se defender dos ataques.

Quanto à optimização do percurso de pastoreio, refiro-me por exemplo à água. O pastor encaminha o rebanho para passar na água na altura do dia em que sabe que os animais vão estar com sede, cálculo que as cabras por si não fazem. O pastor faz também a leitura do dia, se vê trovoada no horizonte, garante que os seus animais vão estar numa encosta resguardada quando a chuva puxada a vento chegar.(…)”

 

O problema que eu vejo é que há cada vez menos pastores. Como diz o povo, estamos cada vez mais “fidalgos” e menos disponíveis para trabalhos duros na pesca, nas obras ou na agricultura. Somos cada vez menos gente, menos jovens no meio rural e na agricultura. E os poucos que somos, dentro dos limites da nossa atividade, também estamos mais “fidalgos”. Ordenhamos as cabras, ovelhas e vacas em salas de ordenha. Ordenhamos cada vez mais vacas com robô. Deixamos a cavadeira e lavramos a terra ou colhemos os frutos dentro da cabine de um trator com ar condicionado.

Não vale a pena ficar com pena do que já passou. Não vale a pena romantizar o passado e ter saudades do sacrifício, da pobreza e do trabalho duro. 

Henrique Pereira dos Santos tem sugerido pagar por esse serviço de “cabras sapadoras” e limpeza da floresta. Por mim tudo bem, já há apoios para criar cabras, cerca de 20 euros por animal, talvez não sejam suficientes, mas já agora, para dar apoio às cabras, não tirem as ajudas às vacas autóctones ou às vacas leiteiras.  “Não abram um buraco para tapar outro”. 

Outra coisa que vale a pena olhar a sério é o “fogo controlado”, uma técnica que consiste em usar o fogo no inverno para controlar a vegetação, os “combustíveis finos” por onde os incêndios lavram de forma descontrolada. Talvez o “fogo controlado”, que também já é usado há muito pelos pastores como forma de renovar as pastagens, talvez seja um sistema mais adaptado ao país de fidalgos em que nos tornámos.

Vale a pena ler “Das pedras, pão” e “ler” as suas paisagens, editado pelo “Museu da Paisagem”. Vale a pensar nisto. Vale a pena estudar isto. Vale a pena fazer alguma coisa, experimentar, para não termos cada vez mais incêndios mais incontroláveis. (Publicado no Mundo Rural de Março - Abril 2023)

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publicado às 20:29



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