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O poder, o pântano e os crocodilos

por Carlos Neves, em 25.07.21

Imagine que você herdou um terreno e pretende cultivá-lo, mas porque é um terreno pantanoso terá primeiro que o drenar para poder cultivar. Inicia então os trabalhos de drenagem e descobre que o pântano está infestado com crocodilos. Compra uma caçadeira, aprende a disparar. Começa então a lutar contra os crocodilos para os exterminar, mas a luta não é fácil. A certa altura, você está tão empenhado a matar crocodilos que se esqueceu do seu objetivo inicial que era cultivar o terreno...

Desconheço o autor desta pequena história, que li há muitos anos. Recordo-me dela muitas vezes. É útil para refletir sobre a nossa atitude perante a vida. Por exemplo, no que toca ao trabalho e qualidade de vida, o objetivo de qualquer pessoa é ter uma vida confortável e ser feliz. Por isso trabalhamos. Mas algumas pessoas envolvem-se tanto no trabalho que acabam por viver para o trabalho e se esquecem do descanso, do conforto e da família.
O mesmo acontece com o poder, tanto o poder autárquico que vai a votos entretanto como o poder nas organizações agrícolas. Os dirigentes começam por se candidatar (creio eu) com o objetivo de servir as organizações e os colegas agricultores, mas com o tempo podem acomodar-se aos lugares e esquecer-se dos objetivos iniciais. Quanto mais tempo no poder, pior, por isso sou favorável à limitação de mandatos. Claro que nem sempre é fácil substituir as pessoas, mas nenhum de nós é insubstituível. Na verdade, só cá estamos na terra de passagem, mais cedo ou mais tarde havemos de partir e a vida continua sem nós.
Convém lembrar que a vida das organizações agrícolas não se joga apenas nas eleições. Anualmente, há assembleias gerais para analisar as contas do ano que passou e planear as atividades do ano que se segue. Os sócios podem e devem participar com sugestões, críticas ou pedidos de esclarecimento. Compreendo que, mesmo participando, muitos fiquem em silêncio por receio de falar em público. Mesmo esses podem e devem comentar com os colegas que estejam dispostos a falar ou então podem dirigir-se pessoalmente ao presidente ou outro elemento da direção e dizer a sua opinião, criticar, dar uma ideia. Muitas vezes, uma sugestão feita desta maneira dá mais resultados que uma crítica em voz alta feita na assembleia pela “oposição”, porque quem está no poder costuma ter receio de “dar o braço a torcer” publicamente. E, mesmo que a nossa ideia seja rejeitada no imediato, pode ficar a “semente” na cabeça de quem nos ouviu e dar frutos mais tarde. Isto é válido para todas as organizações, agrícolas ou não. É importante participar na gestão daquilo que é nosso.
Não é errado ter ambição de chegar ao poder. É preciso lutar para o alcançar e manter. Para “poder mudar” o que estiver mal ou para “poder fazer” o que falta é preciso ter “poder”. Mas é importante haver sempre “massa crítica” à volta do poder para o chamar à terra e não deixar esquecer os objetivos iniciais do bem comum de todos.
(adaptado a partir de um meu texto de 2005)
#carlosnevesagricultor

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publicado às 09:49



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