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Na agricultura há lugar para todos

por Carlos Neves, em 24.05.24

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Os “pequenos” e os “grandes”.
Os que cultivam um pequeno canteiro ou uma grande herdade.
Os que estão no interior rural profundo ou no litoral urbanizado.
Os que comunicam com “pronuncia do Norte”, com sotaque alentejano, de S. Miguel dos Açores ou de qualquer outro lugar.
Há lugar para os jovens que se instalam cheios de sonhos e para os idosos que persistem apesar do cansaço.
Para os que fazem “agricultura de subsistência”, para os que ocupam o tempo livre, para os que tem uma pequena empresa agrícola, uma média empresa ou uma grande empresa.
Há agricultores que recorrem às mais avançadas tecnologias, aos mais modernos equipamentos e há quem ainda use carroças e “carros de vacas”. E mesmo assim cultivam a terra, criam animais e produzem alimentos .
Não há nenhum motivo para ter vergonha da pequena dimensão da nossa agricultura, das nossas parcelas de terra ou dos pequenos tratores, alfaias e ferramentas. Um “pequeno agricultor” é tão digno como um “agricultor grande”.
Pode até acontecer que uma pequena parcela de terra, cultivada de forma intensiva, com uma estufa, ou com horticultura ao ar livre, seja mais produtiva ou mais rentável do que uma grande propriedade sem água de rega. E, porque tudo é relativo, um pequeno agricultor numa região pode ser grande face a outra região onde sejam todos ainda mais pequenos.
Somos cada vez menos agricultores em Portugal. Isso pode ser mau, mas não tem de ser mau.
Pode ser mau se ficarem os campos abandonados, as aldeias vazias e as florestas e campos abandonados com mato a crescer para ser pasto dos incêndios.
Pode ser bom se aqueles que saem da agricultura encontrarem uma vida melhor, com mais conforto e com mais qualidade de vida.
Pode ser bom se aqueles que ficam na agricultura puderem cultivar os campos e criar os animais que os outros deixaram livres e assim ganharem dimensão para também eles, permanecendo na agricultura, terem um rendimento que lhes permita conforto e qualidade de vida.
Ao longo dos últimos anos, das últimas décadas, a dimensão média das empresas agrícolas é cada vez maior. Se no passado os pais foram repartindo os campos entre os filhos e “parcelando”, dividindo as parcelas de terreno até ficarem tão pequenas que se tornou quase impossível cultivá-las, hoje os agricultores vão fazendo o emparcelamento possível com as parcelas que vão arrendando.
Crescer, aumentar a dimensão da “quinta”, da “casa de lavoura”, da “herdade”, pode ser uma necessidade de sobrevivência. Quem não tem uma dimensão mínima, em cada atividade, não tira rendimento para alimentar a sua família e para todos os gastos necessários a uma vida digna e confortável.
Nas últimas décadas, regra geral, os produtos agrícolas tornaram-se mais baratos e foi preciso produzir mais para ganhar o mesmo.
A cada ano, a cada década, a cada geração, tornou-se “obrigatório” aumentar a dimensão das empresas agrícolas. Quem ficou parado, quem não aumentou a dimensão, a produtividade, a qualidade, ou se diferenciou, dificilmente consegue assegurar a sucessão na empresa agrícola.
Mesmo que a empresa agrícola já tenha uma boa dimensão, não é “pecado” ter ambição de crescer, de melhorar, desde que isso não seja feito “passando por cima” das regras e dos outros.
Curiosamente, há um “paradoxo de tamanho” na agricultura. Somos “obrigados” a crescer para sobreviver, temos de continuar a crescer para que a nossa empresa sobreviva e perdure no tempo, mas depois os “grandes” são vistos como os “maus da fita”.
É certo que para além dos agricultores “tradicionais”, grandes ou pequenos, também há “fundos de investimento” e outras novidades que compram terrenos e investem na atividade agrícola ou florestal. Há que ter alguma atenção, há que vigiar, aplicar as regras existentes ou criar novas regras, porque essas empresas, por definição, não são como o agricultor ou a família que tem uma visão de longo prazo porque “não herdou a terra dos seus pais, recebeu-a emprestada dos filhos”.
É compreensível que os mais pequenos e mais pobres, sejam mais apoiados na agricultura ou em qualquer atividade económica. Mas quem cresceu, quem se tornou grande, ou deu continuidade ao trabalho das gerações que antecederam, não tem de ser mal visto por causa disso. Ser grande não é ser mau, por definição. Não há uma linha vermelha, uma fronteira, que separe claramente os “simpáticos pequenos agricultores” dos “grandes e maus”. Há muita terra para cultivar e muita gente para alimentar. Na agricultura há lugar para todos. Todos, todos…
(escrito para o "Mundo Rural" de Maio / Junho de 2024)

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publicado às 20:25



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