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É possível produzir milho sem rega?

por Carlos Neves, em 12.02.22

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A chuva macia é capaz de regar profundamente, penetrar na terra e abastecer as reservas de água subterrâneas. Os aguaceiros pesados levantam pedras e causam enxurradas de entulho. Acontece o mesmo com as discussões sobre a seca e falta de água. Em tom de acusação, diz-se que a agricultura gasta 75% da água, tal como os outros países do sul da Europa, ao contrário dos países do Norte onde chove como nos Açores e não é preciso regar. Curiosamente, barragens como o Lindoso, focadas na produção de energia, estão vazias e a que está quase cheia é aquela que tem como objectivo principal o regadio (a barragem do Alqueva), mas os “especialistas” insistem que não se devia regar milho em agosto no Alentejo, porque a água não chega ao solo. Subentende-se que seja por causa da evaporação. Se for de noite, já podem regar?

E se não for preciso regar, já podemos semear milho sem ser preciso importar como Singapura? Cerca de 15% do milho cultivado em Portugal não é regado. 25% do milho que cultivei o ano passado não teve rega. Mas isso exige condições especiais e tem outros custos. Há terrenos frescos que praticamente dispensam rega e outros onde simplesmente não há água disponível. Os agricultores baseiam-se na sua experiência, no aconselhamento técnico e pesam prós e contras antes de tomar decisões.

Vou contar a história do nosso “campo do sol”. Era uma parcela de terreno retangular, voltada a sul (por isso apanha o sol todo o dia) com um hectare e meio de boa terra, solo franco. Uma herança de família que foi dividida em 5 lotes pelos 5 filhos dos meus avós paternos. Em 1980, quando comecei a ajudar o meu pai nas regas, apenas um lote estava construído e cultivávamos a área restante. A água para rega era captada numa ribeira a 500 metros de distância, bombeada com a bomba “Perrot” acoplada ao trator Fordson e a meio caminho, no jardim da nossa casa, um motor elétrico ajudava ao resto do transporte. A água dessa ribeira era tingida à cor da moda pela fábrica de confeções Nórdica. Depois a fábrica fechou e vieram os esgotos domésticos. Só há muito poucos anos ligaram o saneamento. Mais próximo da ribeira as mangueiras rebentavam devido à pressão. Nos últimos metros a mangueira ardia anualmente por causa de uma vizinha que queimava os “valos” (as sebes à volta do campo) em frente à casa para os limpar quando vinha de férias da Alemanha. Acabámos com essa rega e passámos a levar a água ao campo com trator e cisterna. Quando assumi a empresa agrícola, num curso de “agro-gestão” realizado na Leicar, fiz as contas às horas de amortização do trator, cisterna e mão de obra. Segui o exemplo de um vizinho próximo com dois terrenos sem água de rega que conseguia colher milho porque semeava mais cedo uma variedade de milho de “ciclo curto”. Esse milhos crescem menos, mas amadurecem rápido e precisam menos água. Nunca mais reguei esse campo. Entretanto o terreno agrícola encolheu. Nos lotes dos meus tios foram construídas casas e no lote do meu pai passou uma estrada. Do campo do sol restam dois quintais que ainda cultivo sem precisar de rega. Um tem luzerna em sequeiro, no outro semeio milho “ciclo 200”, o mais cedo possível, e conseguimos colher milho para as galinhas da família. É o sistema perfeito? É o sistema possível atendendo às limitações. Tem um custo zero em rega, mas dá apenas metade da produção possível para o mesmo custo com semente, adubo e trabalho de lavoura e sementeira. Para semear mais cedo, colho mais cedo a erva, com menos produção. Não é um sistema perfeito. Posso fazer isso porque tenho outros terrenos com área suficiente para os animais. Outros colegas agricultores têm que aproveitar ao máximo a pouca área disponível.

Cultivo outros terrenos que não precisam de rega por serem terrenos frescos e consigo boas produções, talvez apenas 10 ou 20% abaixo do que conseguiria com rega. Em sentido oposto, há outros terrenos que me fazem gastar milhares de euros com a sua rega, porque a água não nos fica “de graça”. Tivemos de pagar as captações (furos, poços e minas) e temos de pagar bem cara a eletricidade ou gasóleo dos motores de rega.

"Cada nova solução trará novos problemas", aprendi esta semana. A vida real é mais complicada do que mandar uns bitaites para o ar. Convém ter alguma calma na discussão e mais respeito pelos agricultores. 

#carlosnevesagricultor

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publicado às 13:07



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