Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Sobre a falta de fertilizantes, exposição ao Ministro da Agricultura em 1934

por Carlos Neves, em 22.03.22

A notícia de que o governo vai procurar substitutos orgânicos para os adubos químicos fez-me lembrar um texto de 1934, escrito por João Vasconcelos e Sá, avô do fadista António Pinto Basto, recitado num jantar de carnaval ao Ministro da Agricultura de então:

 



"Ao Excelentíssimo Senhor

Ministro da Agricultura

.

Exposição

.

.

Porque julgamos digno de registro

A nossa exposição, Senhor Ministro,

Erguemos até vós, humildemente,

Uma toada unissona e plangente,

Em que evitamos o menor deslise,

E em que damos razão da nossa crise.

.

Senhor! em vão esta provincia inteira,

Desmoita, lavra, atalha a sementeira,

Suando até à fralda da camisa.

Mas falta-nos a matéria orgânica precisa,

Na terra que é delgada e sempre fraca.

A matéria em questão, chama-se CACA.

.

Precisamos de merda, senhor Soisa!

E nunca precisamos de outra coisa.

.

Se os membros desse ilustre Ministério,

Querem tomar o nosso caso bem a sério,

Se é nobre o sentimento que os anima,

Mandem cagar-nos toda a gente em cima,

Dos maninhos torrões de cada herdade!

... E mijem-nos também por caridade!

.

O Senhor Oliveira Salazar

Quando tiver vontade de cagar,

Venha até nós!...

.

Solícito, calado,

Busque um terreno que estiver lavrado,

Deite a calças a baixo, com sossego,

Ageite o cu bem apontado ao rego,

E, ... como Prisidente do Conselho,

Queira espremêr-se até ficar vermelho!

.

A nação confiou-lhe os seus destinos? ...

Então, comprima, aperte os intestinos;

E... se lhe escapar um traque, não se importe,

... Quem sabe se o cheirá-lo não dará sorte?

Quantos porão as suas esperanças

Num traque do Ministro das Finanças?...

E também quem viver afito, e sem recursos,

Já não distingue os traques dos discursos.

.

Não precisa falar!... Tenha a certeza,

Que a nossa maior fonte de riqueza,

Desde as grandes herdades às courélas,

Provém da merda, que juntar-mos nelas.

.

Precisamos de merda, senhor Soisa!

E nunca precisamos de outra coisa.

.

Adubos de potassa?... Cal?... Azote?...

Tragam-nos merda pura do bispote!

E todos os penicos portugueses,

Durante, pelo menos, uns seis meses,

Sobre o montado sobre a terra campa,

Continuamente, eles nos despejem trama!

.

Ah, terras Alentejanas, terras nuas,

Desespêros de arados e charruas,

Quem os compra ou arenda ou quem as herda,

Sente a paixão nostálgica da merda...

.

Precisamos de merda senhor Soisa!

E nunca precisamos de outra coisa.

.

Ah!... Merda grossa e fina!

Merda boa, das inúteis retretes de Lisboa!...

Como é triste saber que todos vós,

Andais cagando sem pensar em nós??

Se querem fomentar a agricultura,

Mandem vir muita gente com soltura.

Nós darêmos o trigo em larga escala,

Pois até nos faz conta a merda rala.

.

Ah, venham todas as merdas à vontade,

Não faremos questão da qualidade.

Formas normais ou formas esquisitas,

E, desde o cagalhão às caganitas,

Desde a pequena põia à grande bósta,

De tudo o que vier, a gente gosta!

.

Precisamos de merda, senhor Soisa!

E nunca precisamos de outra coisa.

.

.

Évora, 13 de Fevereiro de 1934

.

Pela Junta Corporativa dos Sindicatos Reunidos do Norte, Centro e Sul do Alentejo.

.

O Presidente

Dom Tancredo / O Lavrador»

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:31



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2023
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2022
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2021
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2020
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2019
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D