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Uma vaca especial

por Carlos Neves, em 28.10.23

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Em conversa, há alguns dias, alguém me sugeriu a hipótese de lançar novas bebidas com leite e a propósito disso eu lembrei-me de uma velha história😀:

Num convento, a madre superiora, já muito velhinha, estava doente, acamada e deixou de se alimentar.
Numa noite em que estava pior e todas as freiras já estavam à sua volta, uma irmã levou-lhe um chá mas ela nada bebeu. No regresso à cozinha, essa irmã lembrou-se de uma bebida (não sei se era bagaço ou vinho do Porto) que o pai lavrador lhe tinha mandado, aqueceu um copo de leite, juntou a bebida e levou à doente. Deu-lhe a provar, primeiro umas gotas, depois uma colher... A doente abriu os olhos, sentou-se no leito como não fazia há muito tempo, bebeu tudo consolada e mostrou vontade de falar. As irmãs prestaram muita atenção àquelas que podiam ser as últimas palavras:
- Minhas filhas, nunca vendam esta vaca!!!😅😅😅

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publicado às 10:45

Botas d' água

por Carlos Neves, em 26.10.23

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As galochas são um acessório essencial para o trabalho diário na vacaria e o trabalho agrícola em tempo de chuva. Aqui em casa chamávamos "Botas d' água".


Descalçar e arrumar estas botas cheias de lama sem molhar as meias ou sujar o chão é uma tarefa que pode ser facilitada com o sistema que vi hoje de manhã na página Farming Uk. Fica aqui a partilha, para quem quiser fazer ou comprar igual.


Antigamente só podíamos escolher entre galochas baratas da feira ou as "Pinta Amarela", resistentes e pesadas. Um dia, em visita ao SIMA, feira agrícola de Paris, encontrei umas galochas com tecnologia inovadora, com ar dentro da borracha, que pensavam menos um kg e eram mais quentes e confortáveis. Tinham um importador para Portugal.


Fui de propósito a Águeda comprar botas e trouxe a mala cheia para mim e para alguns colegas. Mais tarde essas botas passaram a estar disponíveis no balcão da nossa cooperativa e hoje o seu uso está vulgarizado, para bem da nossa coluna e das nossas articulações.

Invistam em bom calçado e meias confortáveis. É meio caminho andado para terem saúde e boa disposição.

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publicado às 19:46

Tiro às vacas

por Carlos Neves, em 22.10.23

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Algures na década de oitenta, quando não havia redes sociais, nem Internet, nem televisões privadas, passou no canal 1 da RTP a primeira novela de que me recordo: “O bem-amado”. Não se lembram? Eu também já tinha esquecido o nome, mas bastou-me pesquisar o nome do personagem principal: “Zeca Diabo”, interpretado por Lima Duarte, mais tarde consagrado como “Sinhozinho Malta” no “Roque Santeiro”.

Ainda recordo as primeiras imagens: Dois homens carregam um defunto num enxerga. Não havia cemitério naquela pobre terra. Paulo Gracindo, o “Coronel Odorico”, candidatou-se a prefeito (presidente da câmara). “Povo de Sucupira…”, começavam assim os discursos. Prometeu construir um cemitério. Ganhou as eleições e fez o cemitério, mas ninguém morria e não o conseguia inaugurar. Desesperado, conseguiu que Zeca Diabo, um perigoso pistoleiro, voltasse à terra e foi tentando arranjar sarilhos para morrer alguém e inaugurar o cemitério, tendo a oposição da “Delegada”, mulher do Delegado que estava paralítico, de um médico com problemas de bebida e de mais gente que compunha a trama e não faz agora aqui falta para o que quero explicar.

Lembro-me desta história muitas vezes para ilustrar coisas que começam com boa intenção e depois fogem ao controlo e à intenção inicial. Por exemplo, alguém decide lançar uma bebida vegetal alternativa ao leite, porque há pessoas que são intolerantes ou alérgicas. Ou lançar uma “carne artificial”, feita em laboratório, porque lhes dizem que isso vai emitir menos carbono. Ou, muito simplesmente, porque é um investimento que vai dar dinheiro (o que é legítimo). Mas depois é preciso vender. E para vender um novo produto, ou para aumentar as vendas de um produto com pouca saída, há um truque velho que se usa na política, em todas as sociedades e até entre as crianças desde a idade escolar: puxar os outros para baixo para tentar subir. Por exemplo, dizer que o leite faz mal. Dizer que as vacas libertam carbono e, estrategicamente, esconder que a erva que elas comem, que fertilizam com os seus excrementos, que o agricultor semeou, foi quem captou esse carbono. 

Agora imaginem que quem investiu nesses novos “produtos alternativos” foram pessoas com muito dinheiro, atores e realizadores de filmes, capazes de fazer ou financiar documentários a deitar a culpa para as vacas de modo a que as pessoas troquem a carne e o leite pelas alternativas que as empresas querem vender… E pelo meio disto há uns “Zecas Diabos”, que agora não são pistoleiros mas “ativistas”, muitas vezes com até com a melhor das intenções, mas a quem deram informação deturpada para os fazerem “atirar”, (atacar, criticar) as vacas que foram domesticadas e vivem em harmonia com os humanos há 10.000 anos… Agora são as vacas, entretanto serão as galinhas para alavancar os ovos artificiais e por aí fora... 

Não quero agora aqui abrir um tiroteio contra os ativistas que, como disse, agem muitas vezes com a melhor das intenções. Quero apenas apelar ao bom senso e sentido crítico de todos, todos... em relação às mensagens que nos chegam pela comunicação social ou pelas redes sociais. Pensem nisto. 

#carlosnevesagricultor

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publicado às 12:32

Nasceu uma vitela

por Carlos Neves, em 17.10.23

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Nasceu a noite passada.

- Parece um dálmata!

Pois fica batizada Dálmata. Tem o número de casa 741 e o número oficial a terminar em 9204. Já tem brinco e está registada porque hoje era o dia de contraste (controlo) leiteiro e o Sr. Maia, contrastador, é também agente identificador. Antigamente o Sr Maia teria uma trabalheira a desenhar todas aquelas pintas (cada vaca holstein tem um desenho diferente, como se fosse impressão digital). Agora tem uma aplicação no telemóvel e tira uma foto e em pouco tempo o animal está registado na base de dados do SNIRA - Sistema Nacional de identificação e registo animal.

Esta vitela nasceu sem precisar de ajuda. 70% dos partos aqui na vacaria não precisam de ajuda. Sorte? Tive um professor que escrevia sempre no fim dos testes: "Boa sorte. A sorte sorri aos que estudam". É preciso muito trabalho para não abusar da sorte.

Antigamente os partos das vacas eram mais difíceis. Hoje, graças à inseminação artificial, ao trabalho do Sr. Maia e de muitos como ele em todo o mundo, podemos utilizar na reprodução das vacas "touros de parto fácil", isto é, cujas crias são mais pequenas ao nascer. Isso é o resultado da recolha e registo de dados para ir melhorando a raça escolhendo os melhores exemplares de geração em geração.

Além disso, na inseminação artificial podemos usar "sémen sexado", com 90% de hipótese de nascer fêmea, e as fêmeas são quase sempre mais pequenas e de parto mais fácil.

Pelo contrário, ter um touro de cobrição numa vacaria seria perigoso para vacas e para os tratadores. Se os animais estiverem em regime extensivo, sempre em pastagem, pode ser diferente e ser o esse o método mais indicado, mas para a produção de leite a inseminação artificial foi um grande avanço, que se vulgarizou talvez há 50 anos.

Lembro-me de ter quatro ou cinco anos quando veio do Porto, com o vidro do carro partido (por isso me lembro) o inseminador dos serviços oficiais num volkswagen carocha azul. Hoje os inseminadores são os produtores ou funcionários de empresas privadas ou cooperativas. Um avanço na melhoria genética dos animais, na produção, no bem-estar animal e no bem-estar dos criadores.

#carlosnevesagricultor

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publicado às 22:23

60 anos do nosso trator Fordson

por Carlos Neves, em 15.10.23

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15 de Outubro. Dia da mulher rural, dia em que terminei as sementeiras, dia em que veio chuva... Tudo motivos para celebrar, mas o que me fez ir para a cozinha fazer um bolo como não fazia há muito tempo foram os 60 anos do nosso Trator Fordson Super Dexta 45. O primeiro trator da nossa casa. Imagino a alegria que deve ter sido conseguir comprar o primeiro trator. O meu pai já tinha um motocultivador (que aparece na segunda foto, num cortejo etnográfico em Vila do Conde, a demonstrar a cultura do trigo) mas os vizinhos que ainda lavravam com bois riam-se dele.
Não sei porque escolheu esta marca, não há outro igual na nossa terra, mas venderam-se bastantes em Vila do Conde e alguns ainda trabalham.
Depois lavrou o meu pai alguns anos para fora, para outros agricultores, até porque a "casa de lavoura" era pequena. Já no meu tempo, "acartou" e calcou muita silagem (com embraiagem simples, não estou a ver funcionar com a máquina de ensilar). Em 2008, quando subiu o preço do leite, teve direito a reparação do motor e pintura pelo Sr Afonso, mecânico em Rio Mau (que penso que já o tinha reparado em 1980). Em 2009, quando o preço caiu a pique, levei o trator à manifestação na Póvoa.
Não celebramos uma máquina, celebramos a nossa história e de todos os que trabalharam e trabalham pelo desenvolvimento da agricultura.
#carlosnevesagricultor
#fordson

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publicado às 21:51

Última sementeira

por Carlos Neves, em 15.10.23

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Hoje nesta manhã de domingo, recebi um telefonema da minha esposa:
- Onde estás?
- A passar em frente à igreja.
- Foste ao pão?
- Fui semear o pão. Espera um bocadinho…

Não, não havia missa a essa hora e também não dão pão na nossa igreja (mas para quem tiver interesse, às vezes dão o pão de S. António no fim da missa da igreja de S. Donato, aos domingos às 16, no antigo convento franciscano da Azurara).
O que se passa é que costumo ir buscar pão ao domingo de manhã e há uma padaria em frente à igreja de Árvore.
Mas hoje, em vez de ir ao pão, despachei a alimentação das vacas e dos vitelos, pedi aos meus primos um bocado de semente como quem pede um raminho de salsa à vizinha e fui semear o cabeceira da ultima sementeira de erva deste ano.
Semeei debaixo das primeiras gotas de chuva e dos últimos kg de pó. Agora "Deus ponha a virtude porque eu já fiz o que pude".
Costuma dizer-se por aqui que "os lavradores tem os bens ao luar", pensando nas bouças que podem arder ou ser roubada alguma madeira, mas também as nossas sementeiras estão dependentes do tempo. O ano passado começou a chover a 16 de Outubro e só parou em Fevereiro. Houve terrenos que não consegui semear ou semeei tarde e a produzir pouco. Este ano preveni-me e andei mais cedo, mas também estou a arriscar. Em Ponte de Lima ou mesmo aqui noutras freguesias de Vila do Conde, como Arcos, já houve enxurradas a destruir sementeiras. Não há como fugir, o risco faz parte da nossa atividade, mesmo que a gente use "cinto e suspensórios". S. Pedro, manda lá a chuva de mansinho, se faz favor!
#carlosnevesagricultor

 

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publicado às 12:42

As castanhas da Bouça Aberta

por Carlos Neves, em 14.10.23

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Tinha previsto semear este campo, a "Bouça Aberta" , apenas no fim do mês, mas este sábado de sol e a previsão de 10 dias com muita chuva fizeram-me antecipar os planos. Ao chegar ao campo, percebi que precisava de mais uma passagem de grade antes da sementeira. Liguei ao Hugo para vir ao campo fazer esse trabalho e, enquanto esperava, recuei quase 40 anos e fiz o que fazia enquanto esperava pelo meu pai com o reboque cheio de silagem: fui apanhar castanhas. Os castanheiros da bordadura dos campos já não são os mesmos, porque alguns secaram e outros foram cortados porque davam mais prejuízo com a sombra sobre o milho do que vantagem com as poucas castanhas que nos tocavam, mas, entretanto, das cepas dos velhos castanheiros, das castanhas que caíram e de alguns que plantei, há novos castanheiros e novas castanhas que havemos de assar e comer amanhã, depois de terminadas as sementeiras. A vida renova-se e continua.

#carlosnevesagricultor

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publicado às 07:36

Sentir agricultura

por Carlos Neves, em 13.10.23

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A Luísa Maia pediu-me opinião sobre a visita de Luís Montenegro a Vila do Conde no âmbito da iniciativa "Sentir Portugal". Como podem adivinhar, sugeri a visita a uma vacaria. A minha sugestão foi aceite pelo PSD a nível local e nacional mas não foi possível concretizar no local que sugeri. Tocou-me a mim e foi com muito gosto que aceitei o desafio de receber a comitiva com o presidente do PSD, os deputados Paulo Ramalho, Afonso Oliveira, Sofia Matos e Andreia Neto bem como  outros responsáveis a nível local e nacional.
Pude mostrar e falar da nossa agricultura e da forma com cultivamos os campos e criamos os animais para produzir alimentos.
Em Vila do Conde produzimos cerca de 200 milhões de litros de leite por ano, o que é mais de 10% da produção nacional.
A agricultura não é importante apenas pela produção de alimentos, ocupação do território, modelação da paisagem ou proteção de incêndios (onde há vacas há menos incêndios). É a atividade económica motor do meio rural e muita gente trabalha antes dos agricultores. Por exemplo, estive a fazer contas e aqui em Vila do Conde temos cerca de 100 pessoas a trabalhar nas empresas que vendem e são assistência aos tratores e máquinas agrícolas. É toda essa economia que depende do preço do leite e das ajudas que a Europa dá para compensar os agricultores pela perda de rendimentos.
A comunicação social presente destacou os assuntos que estão na ordem do dia deixando a agricultura para segundo plano, mas um texto da agência Lusa reproduzido em vários meios referiu:
"Numa das mais importantes bacias leiteiras do país, o dirigente do Partido Social Democrata reiterou críticas ao governo, nomeadamente à ministra da agricultura, que acusou de estar “de costas voltadas” para o setor.
“A agricultura tem sido um parente pobre da política deste governo. Temos uma ministra que vive de costas voltadas para os agricultores, e ninguém no setor consegue ter um diálogo permanente com ela. Há grandes constrangimentos, excessos de burocracia e atrasos nos pagamentos dos apoios”, afirmou.
O presidente dos social-democratas lembrou que a “pandemia e as guerras trouxeram um aumento dos preços dos fatores de produção”, afirmando que o setor “necessita de políticas públicas que lhe dê sustentabilidade”.
“Apesar de todos estes problemas, fico satisfeito termos agricultores que tentam contrariar estas dificuldade. É um muito importante para a nossa economia, tanto na criação de riqueza, como na ocupação do territorial e na contribuição para nossa soberania alimentar”, concluiu Luís Montenegro.“
Obrigado a todos os que proporcionaram esta oportunidade de comunicar agricultura e a quem ajudou a preparar esta visita em tempo de sementeiras, em particular à minha esposa Carina.
#carlosnevesagricultor 
(fotos de Carina Ribeiro, Júlio Gonçalves, PSD Vila do Conde (Inês Silva) e PSD Nacional) 

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publicado às 22:58

Na Igreja, na agricultura e na vida há coisas que só conseguimos em grupo

por Carlos Neves, em 29.09.23

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A foto da alegria do Lourenço, em cadeira de rodas, a ser levantado pelos amigos para ver o Papa Francisco na Jornada Mundial da Juventude tornou-se viral e fica na memória desta JMJ. Vemos um jovem feliz porque os outros jovens à sua volta, seguindo o lema “Maria levantou-se apressadamente e partiu” (para cuidar de Isabel), também se levantaram, não para registar o papa no seu telemóvel, mas para erguer Lourenço. Um exemplo de alegria de viver, da alegria de servir, daquilo que nós devíamos ser e gostávamos de ser todos os dias.

Eu cresci no seio de uma família religiosa, mas durante a infância, para além da catequese a minha fé era vivida através da reza diária do terço em família depois do jantar, “botado” pela avó Esperança, e pela ida à missa de domingo, na igreja matriz de Vila do Conde ou na “Igreja do Barco” (Senhor dos Navegantes) nas Caxinas. Antigamente, muito lá para trás, os lavradores iam à primeira missa da manhã na sua paróquia. Porém, nas últimas décadas, aqui na zona, com a produção de leite, surgiu a rotina de levantar, fazer a ordenha, “arrumam o gado” e só depois tomar o pequeno-almoço e ao fim da manhã ir à missa. Além dessa dificuldade, havia outra que levava a minha família a ir a missas fora da paróquia. O padre, já idoso, tinha mau relacionamento com a minha família porque tinha medo de que o meu tio Padre Carlos, missionário comboniano em África, voltasse para padre diocesano e lhe tirasse o lugar, não o deixava celebrar missa aqui na terra quando vinha de férias e terá dito que só o deixaria fazer o funeral da minha avó. Depois vieram outros padres e a igreja tornou-se mais acolhedora.

Nos anos em que estava em Portugal, o “Tio padre” passava as férias de verão em nossa casa, o que me permitia fazer férias na praia “a sério” ao acompanhá-lo e também me ajudou a crescer na fé. Uma vez, estávamos no terraço, perguntei ao meu tio quantas ordens religiosas e movimentos existiam na igreja. Com um sorriso nos lábios e um apurado sentido de humor, respondeu-me “Olha, Carlos, são tantos que se diz que nem Deus sabe…”

Quando fiz 15 anos, num fim de semana de outono, o meu pai levou-me a um curso de animadores de jovens de um desses movimentos, a Acção Católica Rural (ACR). Tanto o meu pai como a minha mãe tinham feito parte da Juventude Agrária Católica nas freguesias de origem até se casarem.

Passados alguns meses após o curso, comecei um grupo de jovens na paróquia e integrei depois a Equipa Diocesana da ACR e a Equipa Nacional. Nunca fui a uma jornada mundial da juventude, mas durante cerca de 15 anos, em equipa, organizei acampamentos, Campos de férias, viagens, por exemplo à Expo98, convívios e momentos de oração e formação. A formação podia ser pontual ou organizada em encontros mensais na Escola Diocesana de Animadores da ACR, dinamizada pela Glória Costa, da qual recordo uma frase: “Sem um grupo és um órfão!”

Com o passar dos anos reduzi a minha participação ativa na ACR e envolvi-me em diversas associações agrícolas, para onde levei muito do que aprendi na ACR. Em grupo, tomámos posições, fizemos manifestações, organizamos viagens e momentos de formação.

Voltando às jornadas da juventude, todos os momentos extraordinários que vivemos e assistimos só foram possíveis com o trabalho de preparação e execução de milhares de grupos, nos países de origem dos peregrinos e em todas as dioceses de Portugal incluindo o grupo de amigos que levou o Lourenço e o levantou do chão para ver o papa. Sozinho, nenhum dos amigos o conseguiria levantar. São membros de um GRUPO, curiosamente chamado “Tudo à pressa” que organiza atividades e campos de férias.

A propósito da JMJ, da igreja e da religião, há muita gente que se afirma crente em Deus, mas vive a sua fé em privado e individualmente. É uma decisão livre que devo respeitar sem qualquer tipo de censura ou “olhar de cima”, mas tenho a obrigação de explicar, pelo meu testemunho, que em grupo organizado vamos mais longe, fazemos mais coisas e sentimo-nos mais apoiados. Na Igreja, no caminho de Fátima ou Santigado de Compostela, na atividade agrícola e na vida em geral, os grupos informais, associações, cooperativas exigem de nós um esforço de participação, um contributo com as nossas capacidades e a aceitação das opiniões dos outros, mas permitem-nos fazer mais, dar mais e receber mais. “Sozinhos vamos mais rápido, juntos vamos mais longe”.

Na Igreja há lugar para todos e há muitas opções diferentes, muitos grupos diferentes entre as ordens religiosas e movimentos de leigos que “são tantos que nem Deus sabe”. Há muitas opções para quem se quiser integrar. Em grupo a fé cresce mais. Em grupo temos oportunidade imediata de colocar em prática o “amor ao próximo”, o perdão e a ajuda. Há coisas que só alcançamos em grupo.

Escrito para o Mundo Rural de Setembro / Outubro de 2023



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publicado às 07:59

As minhas aventuras na produção de milho grão

por Carlos Neves, em 17.09.23

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Chove lá fora. Seria uma “bela” tarde de domingo se não houvesse ainda milho, uvas e outras colheitas para guardar, mas vou aproveitar este tempo livre para vos contar umas coisas, porque o milho deste ano dava um filme! O texto ficou mais comprido do que o costume, mas como hoje é domingo eu tive mais tempo para escrever e vocês tem mais tempo para ler.
Fiz as primeiras sementeiras das parcelas destinadas a milho grão entre 17 e 18 de abril, com um milho “ciclo 400” que permite uma produção razoável mas relativamente precoce. Esteve bom tempo. O milho nasceu bem e cresceu sem os ataques dos insetos do solo (roscas e alfinetes) que atacaram outras parcelas do milho para silagem semeado no início de maio.
Deixei para trás o “Campo da Bouça” (herdado do lado da minha mãe) que fica em Rio Mau, a 12 Km de distância. A estrada é boa e, se não houver engarrafamentos a passar Vila do Conde, a viagem faz-se em pouco mais de 20 minutos. Fui semear essa parcela na manhã de 28 de abril, antes de partir para a Ovibeja. Levei o semeador com um trator que tinha chegado da oficina poucos dias antes. Cheguei ao campo, liguei a tomada de força e desligou-se por erro no sensor de movimento. Tentei várias vezes. Tinha funcionado bem no dia anterior. Tentei o truque dos informáticos: desliguei o trator, esperei uns segundos e voltei a ligar. Igual. Liguei para o mecânico chefe da oficina. Ao contrário do habitual, não atendeu. Era quase meio-dia. Fui pedir emprestado um trator dos meus primos que habitam a casa dos meus avós maternos que fica ao lado do campo. Emprestaram-me o trator e ofereceram-me almoço, de que recordo umas entradas com alheira de javali, um queijo especial e uma sobremesa de salada de fruta com gelado (repeti a receita da sobremesa nos meses seguintes, sabe bem mas engorda…). Dias mais tarde, deixei o trator na oficina para reparar a avaria. Ligaram-me ao fim de 10 minutos. Problema resolvido, era só a ficha do sensor que tinha ficado mal ligada na reparação anterior e saiu com a vibração da viagem.
Fiz a sementeira no meio do pó mas cumpri um desejo de infância: conduzir um Massey Fergusson da série 300. Nós tínhamos e ainda temos um MF265 (sem sensores de movimento na tomada de força!!!). Ainda me lembro do cheiro a novo na garagem em dezembro de 1980, na altura era a marca mais vendida em Portugal e ainda me lembro quando foi lançada a nova série 300 e como sonhei que o meu pai comprasse um trator desses ou da série 3000, com cabine e ar condicionado. Quem está de fora não imagina como os miúdos filhos dos “lavradores” gostam da marca de tratores como se fosse o clube de futebol e sonham com um trator novo do último modelo. E os mais velhos também, porque a gente cresce (ou nunca cresce) e os brinquedos (tratores) também…
Metade dessa sementeira cresceu bem, a segunda metade correu mal, não por causa do almoço mas por causa de ter usado um saco de semente que sobrou do ano passado e já tinha menos capacidade de germinação. Noutros anos e com outras variedades correu bem, mas fica para aprender. Adiante. Semanas mais tarde, nesse e nos outros campos mais próximos fiz a “monda química” com herbicida, depois fiz a sacha com adubação, deixei a rega da maior parte desses terrenos por conta de S. Pedro (vantagem de semear cedo) e fiz rega gota a gota numa parcela arenosa que nada produz se não regar. Regularmente fui visitando os campos porque “o olho do dono engorda o boi”.
Tinha previsto fazer a colheita no final de setembro, como habitual, mas, com o milho silagem já guardado, fui ver os campos com mais atenção e apercebi-me que as espigas de milho grão no campo da “Bouça Aberta” já estavam dobradas para baixo. Colhi algumas espigas e liguei aos técnicos da União de Cooperativas. Estava com 18% de humidade. Noutras parcelas, 23%. Para conservar ou ser usado nas rações o milho deve estar a 14% de humidade, mas a colheita deve ser feita à volta dos 20%, para melhor rendimento da máquina sem desperdício de milho. Falei com os responsáveis do secador e agendei com o prestador de serviços a colheita para esta quinta-feira que passou, prevendo fazer o transporte com 2 tratores e reboques. No dia anterior fico a saber que a máquina tinha uma avaria impossível de reparar a tempo. Tínhamos dois dias de bom tempo pela frente antes da chuva prevista para sábado e do temporal deste domingo. Teimei. Foi quando publiquei um desenho sobre “Nunca se render”. Procurei uma segunda alternativa, não estava disponível. Procurei uma terceira opção, pessoa impecável e disponível que consegue atender o telefone numa debulhadora sem cabine mas o trabalho e as avarias não correram como o desejado. Falo com outra pessoa, tem a máquina avariada mas indica-me outro que poderá ter uma vaga. Não atendeu mas devolveu a chamada mais tarde. Bato a outra porta. Indicam-me outra pessoa. Não, afinal vendeu a máquina. Mas há outra possibilidade. Quinta-feira já estava perdida mas para sexta-feira consegui então duas máquinas que vinham fazer serviços próximos no início da manhã e podiam fazer-me o “jeito” a seguir. Que lhes ligasse às 10h, disseram-me. Preparei-me para ter duas máquinas a colher em simultâneo. Procurei transportadores com trator e reboque. Como seria de prever, estavam todos ocupados com silagens já marcadas. Pedi reboques emprestados aos amigos que não estavam a ensilar. O plano era colher de manhã e levar de tarde ao secador os reboques que ficassem cheios no outro campo. As máquinas atrasaram-se, como é normal nestas alturas. Enquanto esperava, fui tirando fotografias e incendiando as redes sociais com discussões sobre os reboques mais bonitos. Até parecia que os tinha comprado ou que estava a experimentar. Não, foram emprestados por amigos a quem fico eternamente grato.
A primeira máquina chegou finalmente por volta das 15h00. Às 15h10 avariou. Coisa simples, partiu o elo de ligação de uma corrente. Fomos à procura desse peça simples e barata (10 euros!) mas essencial. Na primeira oficina tinham quase igual, mas não servia. Encontrámos na segunda oficina (felizmente há aqui perto um lugar onde se vendem e reparam tratores e máquinas como se vende leitão na Bairrada, porta sim, porta sim). Voltámos ao trabalho. A segunda máquina chegou às 17h00 e começou a colher noutro campo. Levei o primeiro reboque ao secador ao fim da tarde. Uma máquina trabalhou até às 20h00 e ainda foi para outro lado continuar, a outra máquina andou até às 21h30. Não é fácil colher milho grão de noite com o orvalho.
Era meia-noite quando eu e o Hugo saímos da “Bouça Aberta” com os últimos reboques. Chegámos ao secador à uma da manhã, após uma viagem com o máximo cuidado nas rotunda e descidas e a velocidade possível nas subidas. Saímos meia hora depois com os reboques vazios, outro colega ainda na fila atrás de nós para descarregar e noticias de outra máquina ainda a colher no campo (ou a terminar uma reparação de avaria na oficina). Fizemos a viagem de regresso (40 minutos com o reboque vazio) debaixo da chuva que começou a cair, mais suave do que o previsto mas talvez suficiente para forçar os meus colegas a parar e descansar. O pessoal do secador trabalhou de “direta” até às 8h00.
Falta-me colher o campo que semeei mais tarde, mas consegui colher o milho que podia cair com o vento por estar demasiado maduro e outro que estava num campo ao pé do rio e a que só tinha acesso passando por outros campos que também são “lameiros” onde não podemos passar depois de chover muito.
Parece-vos extraordinário o que vos contei? São as peripécias normais da colheita do milho. É a vida normal de qualquer agricultor da minha dimensão e da minha região. Eu sou apenas um agricultor normal de tamanho médio, que procura seguir os melhores. Só me distingo por tirar umas fotos, fazer uns vídeos e gostar de escrever umas coisas, para que saibam como fazemos chegar a comida do prado ao prato e como dependemos do trabalho e boa vontade dos colegas, dos prestadores de serviços, dos mecânicos e de toda a gente que noite e dia põem o campo a mexer. Estou cansado. Foi uma semana do caraças!
#carlosnevesagricultor #milho #milhogrão

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publicado às 16:42


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