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Os tostões da agricultura e os milhões da CEE

por Carlos Neves, em 18.11.23

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Antigamente todos eram agricultores ou vizinhos de agricultores. Hoje os consumidores estão cada vez mais distantes dos agricultores e nós, agricultores, temos de comunicar com eles para mostrar como cultivamos a terra e criamos os animais para produzir os alimentos que eles precisam de comprar e nós precisamos de vender. Precisamos uns dos outros.
Mostrar o trabalho na agricultura implica mostrar máquinas e tratores. Os vídeos com as máquinas em funcionamento despertam atenção e a mecanização da agricultura tem já uma longa história de que nos podemos orgulhar e que devemos mostrar. Para apresentar um exemplo dessa evolução, divulguei um pequeno vídeo com os tratores da minha empresa agrícola: Uma relíquia de 1963, um clássico de 1980 e os quatro tratores mais recentes de 1998, 2004, 2017(usado de 2010) e 2022 (usado de 2019).
Entre muitas reações positivas, tive uma questão em jeito de provocação: “Esses tratores foi você que comprou ou foi a CEE?” E eu lá respondi que os dois mais velhos foram comprados pelo meu pai antes de Portugal aderir à CEE, para o terceiro recebi um apoio de 25% dois anos após a minha instalação como jovem agricultor e os últimos três (sendo os dois últimos em segunda mão) foram comprados sem apoios ao investimento. As pessoas ouvem falar de muitos milhões e depois pensam que isto é tudo oferecido.
Num mundo ideal os agricultores recebiam sempre um preço justo pelos produtos capaz de cobrir os custos de produção e remunerar o trabalho e o capital investido de modo a permitir novos investimentos. No mundo ideal também não havia guerras, fome, seca ou inundações.
No mundo real, houve fome na Europa depois da segunda guerra mundial. Por isso foi criada a União Europeia e a Política agrícola comum com apoios à produção para acabar com a fome. Quando a PAC (a única política verdadeira europeia que se sobrepõem às políticas nacionais) permitiu à Europa trocar a fome pela fartura, foi necessário controlar a produção, apoiar as perdas de rendimento dos agricultores e incentivar os jovens a investir e fixar-se na agricultura. Hoje as ajudas da União Europeia estão orientadas para manter a agricultura protegendo o ambiente e evitando as alterações climáticas.
Sempre que há problemas no setor, naturalmente os agricultores queixam-se e os governos anunciam “milhões” para ajudar e anunciam várias vezes esses “milhões”: Quando decidem a ajuda, quando publicam a lei, quando abrem as candidaturas e quando entregam as ajudas. E os cidadãos europeus, com a “barriga cheia” de comida barata que a PAC permite, revoltam-se e invejam os “milhões” dos agricultores. Esquecem-se que também os avós deles foram agricultores ou descendentes de agricultores, mas deixaram o setor porque era duro e dava pouco rendimento, foram à procura de uma vida melhor na cidade ou no estrangeiro e os “milhões” não são suficientes para fazer os netos voltar para a “aldeia” e para a “lavoura”.
Os “milhões” da CEE, agora UE, União Europeia, não ficam no bolso dos agricultores. Servem para pagar os fatores de produção e as despesas com colheitas e sementeiras. Quando sobra algum, ou mesmo quando não sobra mas tem que ser, servem para ajudar a comprar os tratores e máquinas de que o agricultor precisa. Ou as reparações das máquinas. Ou as obras nos estábulos para melhorar o bem-estar animal, ou os novos equipamentos de rega ou qualquer outro equipamento. O “dinheiro da agricultura” vai para a economia rural, para pagar os braços que ajudam os agricultores de hoje a produzir mais do que produziam os antigos com muito mais gente disponível. Quando esse dinheiro falta ou se atrasa, falta para todos.
A cada sete anos, a Europa faz uma revisão da PAC, arrastam-se as negociações e a nova PAC que resulta nunca é o desejado mas costuma ser um pouco melhor do que a proposta inicial. Devemos um agradecimento a todos os que trabalham ao longo dos anos nessas difíceis negociações.
A PAC evoluiu e tem agora um conjunto de eco-regimes para proteger o ambiente. A intenção era boa, mas o resultado foi complicado de colocar no sistema informático onde se fazem as candidaturas. Veremos como será a implantação no terreno. Uma dificuldade que se começa a notar são os terrenos sem contrato de arrendamento ou mesmo contrato de comodato, mesmo sem renda declarada. Por diversos motivos, por questões familiares, por medo de perder a terra, muitos proprietários tem medo de assinar papeis a declarar a cedência da terra e assim não é possível cumprir as regras dos ecorregimes ou receber a ajuda direta por milho grão ou milho silagem. A produção de leite, de milho e em geral todas as produções agrícolas são negócios de “tostões” sujeitos a muitos imponderáveis do clima e do mercado e não podemos desperdiçar as ajudas que tanto trabalho deram a negociar. Ficamos com a fama dos “milhões” e sem o proveito.
(escrito para a edição anual da Revista Agrotejo nº 33 - Novembro 2023)

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publicado às 21:34

Produzir leite com robô - reportagem para TV Agro - Colombia

por Carlos Neves, em 10.11.23

 

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Nos primeiros dias de abril dei uma entrevista a um canal de televisão da Colômbia que veio à Europa, a TV AGRO Te acerca al campo, mostrando a produção de leite. É uma espécie de "TV Rural" da América Latina no século XXI. As imagens com drone estão muito boas e o resultado é uma boa síntese da mensagem que eu queria passar. O vídeo completo, com 25 minutos, está disponível aqui: 

https://www.youtube.com/watch?v=BnpELuH1VLk&t=293s

"Senhores telespectadores, despeço-me com amizade"... Até à próxima publicação.

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publicado às 19:35

Desviar o olhar do objectivo inicial

por Carlos Neves, em 05.11.23

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Na edição 41 da Revista Vaca pinta, Xabier Iraola Arrigezabala escreve um artigo de opinião que todos os agricultores e responsáveis cooperativos e associativos deviam ler e meditar, para melhorar, sem receio de que seja uma “boca” dirigida a si ou um texto de alguém com ambição de ocupar algum cargo em Portugal. Vou partilhar aqui um resumo. O texto completo e original de “Desviar la mirada” está disponível online na “portada” da Vaca Pinta.

Xabier diz-nos: “Li com espanto o relatório sobre as perspetivas do efetivo pecuário para 2031, elaborado pelo Conselho das Câmaras de Agricultura de França, que prevê uma diminuição assustadora do número de bovinos. Segundo o relatório, o efetivo de vacas em aleitamento (…) vai reduzir 33% e o rebanho leiteiro 22%.
(…) Haverá quem pense que a queda do número de cabeças será compensada pelo melhoramento genético. Na minha opinião, até eles sabem que nem o melhoramento genético, que é necessário, compensará o desaparecimento das explorações agrícolas nem a redução drástica do efetivo pecuário.
Receio, no entanto, que os responsáveis pelas estruturas cooperativas, comerciais e industriais, em vez de se preocuparem com o futuro dos criadores de gado, estejam, de facto, alarmados com o seu próprio futuro.” (…)
Xabier considera que a situação em Espanha é igual, tendo em conta o envelhecimento do setor agrícola. E eu acrescento que Portugal está igual ou pior. Continua Xabier: “O alarme está a soar nos gabinetes de algumas destas estruturas e algumas consideram, como as grandes empresas alimentares, que, para manter as suas instalações de produção no máximo rendimento e o seu pessoal intacto, devem descer ao campo, comprar explorações agrícolas e/ou estábulos e contratar mão de obra, o mais barato possível, a fim de obterem as matérias-primas com que podem manter a sua estrutura e os seus compromissos comerciais com os seus clientes e, em particular, com as grandes cadeias de distribuição.
Neste momento, mais do que um de vós pode perguntar-se por que razão chegámos a este ponto em que temos uma rede agroalimentar cooperativa, comercial e industrial que funciona, enquanto a rede produtiva constituída por milhares de agricultores e criadores de gado que fornecem as cooperativas, as empresas comerciais e industriais está a diminuir gradualmente, mas sem parar, e, o que é pior, ninguém consegue ver uma saída para a situação.

A razão para tal, na minha modesta opinião, (…) é que os objetivos fundadores de muitas estruturas, de criar valor acrescentado para o produto e, assim, transmiti-lo aos produtores que dão sentido à cadeia, passaram para segundo plano e, por isso, atualmente, o que prevalece são os interesses e as prioridades dos funcionários e dos gestores destas estruturas e não os interesses dos criadores de gado, os compromissos com os clientes prevalecem sobre os compromissos com os fornecedores que são os seus agricultores, a saúde financeira das estruturas prevalece sobre a microeconomia das explorações e a manutenção do pessoal das estruturas prevalece, mesmo que seja à custa da redução drástica do sector pecuário.
Em suma, o que está a acontecer é porque desviámos o olhar do objetivo inicial e porque, ano após ano, ignorámos o produtor. É tempo de olhar os agricultores nos olhos."

https://vacapinta.com/es/opinion/desviar-la-mirada.html

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publicado às 11:01


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