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Ministério da Agricultura desaparece aos bocados

por Carlos Neves, em 27.01.23

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Escrever sobre política não é meu objetivo para esta página, mas há exceções. Comecei este blog em 2019 com um “Poste político - queremos um Ministério da Agricultura em Lisboa”, quando, após as eleições, se receava que o ministério desse lugar a uma secretaria de estado dependente de outro ministério.
O Ministério da Agricultura não desapareceu, mas foi desaparecendo. Em 2019 perdeu as florestas para o Ministério do Ambiente. Depois perdeu a tutela dos animais de companhia. No mês passado foi anunciada a integração das Direções Regionais de Agricultura nas CCDR - comissões de coordenação de Desenvolvimento Regional.
Estava eu a preparar-me para escrever sobre isso e dar o meu apoio aos colegas que ontem se manifestaram em Mirandela, convocados pela CAP contra a extinção das Direções Regionais de Agricultura e entretanto juntou-se mais uma acha para esta fogueira.
Aguardávamos há 3 semanas pela nomeação de alguém para a Secretaria de Estado da Agricultura após a demissão da última titular. Ficámos hoje a saber que a Secretaria de Estado da Agricultura “desapareceu” da lei orgânica do governo. O governo disse entretanto que isto é só o “retrato” do momento, mas fica muito mal na fotografia.
Ao longo dos últimos 20 anos, no trabalho associativo com jovens agricultores e produtores de leite, contactei com os vários diretores regionais de agricultura da minha região, primeiro do Entre Douro e Minho, depois do Norte. Fui sempre bem recebido e sentia que os problemas apresentados seriam resolvidos a nível local ou levados diretamente ao Ministério.
De igual forma contactei com os vários secretários de Estado da Agricultura ao longo dos últimos doze anos. Tendo os ministros um papel sobretudo político e global, são os Secretários de Estado, em geral técnicos com um profundo conhecimento do setor, que tem tempo para nos atender para apresentarmos as questões, problemas e soluções concretas.
Tudo isto é mau sinal. É falta de atenção e de respeito por uma agricultura cada vez menos importante para as elites que nos governam.

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publicado às 22:35

O custo do leite

por Carlos Neves, em 20.01.23

 

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A jornalista Fernanda Câncio decretou (twetou) que “está oficialmente tudo doido” porque encontrou leite à venda a 4,99€ e o assunto “viralizou”. Acontece que não se tratava de leite de vaca, o que subentendemos quando escrevemos apenas “leite”, mas neste caso era “leite de cabra biológico” importado.

Fiquei curioso e fiz uma pequena pesquisa na net. Não encontrei à venda de origem nacional, mas podem comprar leite de cabra a 2,35 ou 2,55 nos hipermercados de referência, leite francês ou espanhol de marca do fabricante. Entretanto, um colega que é criador de cabras explicou-me que o leite nacional, usado para produzir queijo, é vendido pelos produtores entre 90 cêntimos e 1€ por litro.

Em relação ao leite de vaca, é possível encontrar o leite meio gordo UHT a 86 cêntimos nas marcas brancas e na casa dos 90 cêntimos nas marcas do fabricante. O leite meio gordo UHT é o leite mais vendido e tem o melhor preço. Os leites especiais (com cálcio, sem lactose, leite fresco, etc) estão quase todos acima de 1 euro. Em setembro de 2021 ainda era normal encontrar leite meio gordo a 43/44 cêntimos e às vezes a 39. O que se passou?

O custo do leite aumentou ao longo dos últimos anos, em particular nos últimos dois anos, mesmo antes da guerra na Ucrânia. Aumentou o custo das rações, dos adubos e dos combustíveis, por causa do arranque da economia mundial pós-pandemia e por causa de grandes compras da China, que pareceu “adivinhar” o que vinha aí. Apesar disso, o leite continuou a ser usado como produto-isco para atrair os consumidores aos supermercados. Estava sempre em promoção, tanto em Portugal como na Espanha. Tivemos o pior preço aos produtores em toda a Europa nos últimos anos, apesar do aumento de custos e seca severa. Chegou a ser possível comprar mais barato leite UHT embalado num supermercado português do que leite cru vendido por um agricultor holandês à sua cooperativa. Os produtores foram abatendo animais, foram desistindo, encerrando vacarias, a indústria e a distribuição começaram a sentir falta de leite no mercado e a situação tornou-se evidente no verão de 2022, quando compradores espanhóis vieram comprar leite aos maiores agricultores portugueses. Surgiram aumentos significativos aos produtores portugueses e espanhóis entre setembro e novembro, de modo que preço médio do leite ao produtor em Portugal subiu para 54,4 cts/ kg, em novembro, um aumento de 72% face a 2021 (dados da EU), apesar de ainda ficar abaixo da média comunitária, que em setembro era 57,8 cts/kg de leite cru. Esses 54 cts são a média de um preço de 50,4 cts nos Açores e 56,7 cts no continente. Com 6% de Iva vai quase para 60 cts, mas o agricultor entrega o Iva do leite ao Estado.

Desde 1 de novembro não houve aumentos aos produtores e penso que o preço deverá manter-se estável nos próximos meses, mas é muito difícil fazer previsões.

P. S. - Para além dos custos de produção, também aumentaram os custos de transporte, pasteurizaçao e embalagem.

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publicado às 00:16

Análises de terra 2023

por Carlos Neves, em 15.01.23

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No início do ano costumo colher amostras de terra para analisar o solo preparando as culturas de Primavera. O tempo incerto com chuva frequente obrigou - me a aproveitar algumas abertas enquanto os miúdos estavam na escola mas este fim de semana pudemos finalmente colher as últimas amostras em conjunto.

Recordando o que já contei noutros anos, colher amostras de terra é uma tarefa relativamente leve, sem riscos e que nos permite caminhar, conhecer os campos, apresentar as árvores e contactar com a natureza enquanto fazemos algo útil.

Em cada parcela de terreno, caminhamos em zig-zag, levando uma sonda com um tubo metálico que se espeta no solo até 20 cm, se roda e retira para colher uma pequena amostra. As amostras dos vários pontos juntam-se no balde e depois são colocadas num saco, devidamente etiquetado, que os técnicos da cooperativa encaminham para o laboratório de solos.

Repito as análises a cada dois anos, para saber como evolui o pH do solo, o teor de matéria orgânica e dois macronutrientes, fósforo e potássio. Não se analisa o azoto porque ele é facilmente arrastado pelas águas e não permanece no solo da mesma maneira.

As análises regulares ao solo permitem-me poupar dinheiro, por não aplicar adubo desnecessário, proteger o ambiente, porque esse excesso de adubo iria causar poluição, corrigir o PH com adição de calcário se for preciso e e aplicar a dose correta de cada nutriente para ter a melhor produção possível em qualidade e quantidade.

Com o resultado das análises, vou depois recorrer ao aconselhamento dos engenheiros agrónomos da cooperativa e das empresas de sementes e fertilizantes, valorizando também o chorume ou estume aplicado na terra, para fazer uma correta gestão dos nutrientes do solo.

#carlosnevesagricultor

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publicado às 13:21

Vacas “queimadas”

por Carlos Neves, em 13.01.23

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O Avelino Rego, um colega agricultor e criador destas vacas maronesas na Serra do Alvão, contou-nos ontem a seguinte história:
«Uma altura recebia aqui na exploração um grupo de pessoas e a dada altura, de passagem por este lameiro com estas mesmas vacas a pastar, alguém pára, faz uma pausa para observar tudo em redor e comenta para todos ouvirem:
- “Esta paisagem é mesmo linda!”
E remata:
- “Só é pena as vacas…”
Conto este pequeno episódio para dar conta de como é difícil interpretar a paisagem, nomeadamente as relações causais que nos levam por um ou outro caminho.»
A pessoa em causa, explicou depois o Avelino, tinha a firme convicção de que as vacas estavam ali “a poluir o ambiente”. Após uma longa conversa, terá ficado “pensativa”. Não sei mais detalhes, mas posso imaginar que Avelino lhe tenha explicado que aquela paisagem só existe assim porque estão ali as vacas a pastar e o carbono que aquelas vacas libertam é o carbono que foi captado pela erva que cresceu fertilizada pelos excrementos das vacas. Há ali um ciclo bastante equilibrado, ao contrário do carbono libertado pelo petróleo usado nos transportes e produção de energia. Não sei se a pastagem leva alguma adubação ou se as vacas comem alguma ração, mas posso imaginar que sejam pequenas quantidades e devo lembrar que as rações são essencialmente feitas com “subprodutos” da alimentação humana (bagaço de soja, polpa de citrinos, polpa de beterraba, etc) que doutra forma seriam descartados.
O problema é que muitas pessoas tem um forte preconceito contra as vacas que foi espalhado de diversas formas, nomeadamente através de um documentário que acusava as vacas de serem responsáveis por 50% dos gases de efeito de estufa ao nível do Planeta. Mais tarde os autores foram obrigados a rever os números para que o documentário não fosse retirado da plataforma que o promoveu, mas a mensagem simplista vai passando: “O que podemos mudar na nossa vida para reduzir as emissões que causam as alterações climáticas? Comer menos carne (de vaca)”.
Entretanto, as pessoas queram salvar o planeta mas gostam de bifes. Por sorte, exatamente quando se acusam as vacas, aparecem alternativas para substituir o seu leite ou carne, como bebidas vegetais, “hamburgers” vegetais e “carne de laboratório”. Qual será a pegada ecológica e quais serão as emissões na produção e transporte destes produtos a longa distância?
Ovelhas e cabras também são ruminantes e libertam metano, mas por serem mais pequenas, existirem em menor número ou não haver ainda “produtos alternativos”, ainda não foram “queimadas” na fogueira da opinião pública como as vacas. Curiosamente, no antigo testamento as cabras levavam com as culpas, mais concretamente o “bode expiatório” que era apedrejado e afugentado em representação dos pecados cometidos. Hoje são as vacas e os seus criadores.
Nos países ocidentais, como Portugal, a agricultura representa cerca de 10% das emissões de gazes com efeito de estufa e as vacas de carne e leite menos de metade, cerca de 4,5%. É isso que andamos a discutir apaixonadamente enquanto esquecemos o desperdício alimentar, os transportes, a energia e todos os confortos da vida moderna que representam 90% das emissões.
Foto de Avelino Rego. Link para a publicação original de Avelino Rego aqui. 

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publicado às 23:24


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