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Porque é que deixamos o milho esquecido nos campos?

por Carlos Neves, em 26.09.22

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“Se as rações estão mais caras, qual o motivo pelo qual vejo imensos campos de milho que não foi apanhado e acabou por secar? Os agricultores não precisam desse milho para alimentar os animais?”

Boa pergunta. Para os agricultores a resposta é óbvia, mas para quem não é agricultor é uma pergunta que faz sentido e à qual tenho todo o gosto em responder, tal como os meus colegas “agro-escritores” norte-americanos já fizeram. 

A resposta é simples: quando o objetivo é conservar o milho através de silagem, a colheita é feita com a planta verde, com cerca de 35% de matéria seca. Toda a planta é cortada / picada e a presença de humidade é importante para uma correta fermentação e conservação da silagem. Se o milho estiver muito seco, acima dos 40% de matéria seca, é mais difícil a compactação para expulsão do ar, a fermentação, a conservação da silagem e a digestão pelos animais. 

Se o objetivo for apenas colher os grãos de milho, para utilizar nas rações para animais, no fabrico de broa de milho ou até para fazer cerveja ( sim, o gritz de milho é utilizado no fabrico da cerveja), nesse caso os agricultores deixam o milho a secar nos campos para colher quando tiver aproximadamente 20% de humidade no grão. 

Tradicionalmente, as espigas de milho eram guardadas nos espigueiros e secas pelo vento que os atravessavam ao longo dos meses e o milho debulhado (retirado da espiga) era seco ao sol na eira. O milho só pode ser armazenado e utilizado nas rações se tiver 14% de humidade (acimda disso pode ganhar bolor), portanto depois de colhido vai ao secador, que funciona a gaz, cujo preço é mais um motivo para deixar o milho secar bem no campo antes de colher. 

Há também um processo intermédio de conservar o milho que é o “Pastone”, que é uma silagem feita apenas com grão ou espiga quase seca.

Mas porque é que se vêem hoje mais campos de milho seco do que há alguns anos atrás? De facto, aqui na minha região, ao longo dos últimos 50 anos, o milho foi quase todo colhido para silagem para alimentar as vacas leiteiras, à medida que a produção de leite se generalizou. Nos últimos anos, muitos agricultores abandonaram a produção de leite mas continuaram a cultivar os campos ou arrendaram a terra a outros agricultores, como é o meu caso. Em parte da terra que aluguei cultivo milho para silagem para alimentar os meus animais, noutros terrenos cultivo milho que deixo secar para grão que vai ser vendido para fazer rações para as várias espécies pecuárias.

O facto do haver falta de milho no mercado mundial, de ter melhor preço atualmente e de haver alguns secadores privados e um grande secador cooperativo agora a funcionar na região explica porque se vêem este ano mais campos de milho “seco” do que se via antigamente. Infelizmente houve ainda algumas situações em que a falta de água não permitiu a produção de milho e não há sequer milho para colher. Espero que sejam situações pontuais, mas sei que houve muitos casos de menor produção e menor qualidade, em que se fez “silagem sem espiga", para aproveitar o pouco que cresceu.

#carlosnevesagricultor

#milho

#milhogrão

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publicado às 22:02

Órfaos e viúvas das colheitas

por Carlos Neves, em 24.09.22

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O tempo de colheitas é talvez o tempo de maior alegria para os agricultores mas é também o tempo de maior exigência. Para os agricultores e produtores de leite como nós significa adicionar ao trabalho de rotina com os animais uma longa jornada extra de trabalho no campo, jornada que às vezes se prolonga pela noite dentro. Colheita que é igualmente exigente no caso do milho grão, das vindimas, da fruta ou qualquer outra cultura.
Colheita que exige a dedicação dos agricultores, dos prestadores de serviços que conduzem as máquinas e tratores contratados para a colheita, dos mecânicos que asseguram rápidas reparações a qualquer hora para o funcionamento permanente, necessário para aproveitar as janelas de bom tempo.
É também um tempo exigente para os que se sentem "órfãos" ou "viúvas" das colheitas, filhos e esposas que deixam de ver pais e maridos durante semanas. Não inventei esta expressão, fui buscá-la a "agro-escritores" americanos (outra palavra que aprendi), partilhada num texto da The Farmer's Daughter. Noutro registo, a Modern-day Farm Chick escreveu também esta semana sobre o desafio de segurar as pontas com dois gémeos bebés nos 15 dias de silagem. Agora, mais crescidos, já vão na cabine dos tratores e máquinas de ensilar a colecionar experiências e memórias. Bom trabalho, boas colheitas e não se esqueçam de comunicar com os mais próximos!
Para quem quiser seguir, coloco ligação para os dois textos que referi:

https://www.agdaily.com/insights/farm-season-when-many-become-harvest-orphans/ 

https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=pfbid02PV6ajcBw1wWjKfNjaUNHq92F1rBxVaiE7eGoXXDebBgfFzAzZy7rySStWJPmbkP9l&id=100044307825512

 

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publicado às 14:35

Biogás

por Carlos Neves, em 18.09.22

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“Em França não há gás mas há ideias”. Vi esta imagem há uma semana partilhada por Paul Aballea no grupo “La page des producteurs de lait” e recordei uma visita de estudo feita há mais de 30 anos com os colegas da Casa-Escola Agrícola Campo Verde, em S. Pedro de Rates, concelho da Póvoa de Varzim. A escola funcionava então na antiga casa da D. Laura, agora sede da junta de freguesia, a nascente da velha igreja romana que fica no caminho de Santiago.

Foi uma das viagens para visita mais curtas de sempre. Saímos da escola a pé e caminhamos pelas ruas da povoação até encontrarmos uma “casa de lavoura” com um arcaico sistema de biogás a funcionar. O senhor tirava uma pequena cisterna de 3000 ou 4000 litros de chorume (estrume líquido) da fossa das vacas e colocava numa outra fossa, circular, (feita com argolas de poço) e com dupla parede. Entre as duas paredes havia água que servia como vedação para o gás não escapar e havia também uma tampa oscilante, que subia ou descia consoante a presença do gás libertado e acumulado. Do centro dessa tampa uma mangueira conduzia o gás até um pequeno fogão a gás colocado no alpendre, à porta da cozinha (ficava cá fora por causa do cheiro).

Não sei se o senhor ainda vive e o sistema ainda funciona, provavelmente não. Sei que mais tarde, de autocarro, visitamos um complexo sistema de biogás na “Quinta dos Ingleses” em Lousada, que anos mais tarde foi desativado, antes da vacaria e aviário que também já fecharam. Sei de um outro sistema a funcionar atualmente numa vacaria em Monte Real (Leiria) e outras unidades que aproveitam o biogás libertado em aterros sanitários. Sei que antes de eu chegar à Escola agrícola o meu pai já tinha um dossier com informações sobre o biogás e sempre teve esperança de ver o sistema avançar. Sei que na França, na Alemanha e noutros países do norte da Europa há várias unidades de biogás, algumas inclusive produzindo biogás a partir da silagem de milho (sem passar pelos animais).

O princípio do biogás consiste em colocar matéria orgânica num “digestor” para libertar o gaz que depois vai ser acumulado e usado para aquecimento ou produção de energia. O efluente restante mantém as qualidades fertilizantes com menos mau cheiro. Ao longo dos anos, por diversas vezes prestei informação e colaboração a investigadores que tencionavam desenvolver um sistema “chave na mão”, para o aproveitamento do biogás para aquecimento ou produção de energia elétrica. Por razões que desconheço nunca chegaram a bom porto.

Mantenho uma dose elevada de ceticismo em relação ao biogás, porque se fala disto há muito tempo sem ver a tecnologia expandir-se. Regra geral, quando uma tecnologia funciona e é rentável, quando dá resultados, essa tecnologia é adotada sem precisar de grandes apoios. Admito que ainda falte alguma ou muita coisa. Certamente o gás russo era mais barato, mas agora as contas certamente mudaram. Talvez valha a pena olhar de novo e com mais atenção para esta tecnologia.

#carlosnevesagricultor

#biogás

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publicado às 23:43

Outras máquinas noutros tempos

por Carlos Neves, em 08.09.22

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Com o milho silagem guardado no silo, aproveitei o final da manhã de ontem para ir buscar uns rolos de erva (rolos de fenosilagem, plastificados) a um campo distante, a “Bouça Aberta”. Durante a viagem de quase 4 km, viajei também no tempo 40 anos e recordei a altura em que o meu pai comprou esse campo no meio de bouças. Nessa altura, estes tratores, o Massey Fergusson 265 e o Fordson 45 eram as máquinas disponíveis para fazer a silagem e tudo o resto.
O Massey Ferguson cortou silagem quase 20 anos, primeiro com uma máquina Krone, depois com uma Claas Jaguar 25. A referência dos modelos automotrizes da mesma marca que agora se usam já vão nas sérias 800 e 900. Cortam num dia aquilo que demorávamos um mês a ensilar. Só esse campo com 2 hectares levava uma semana. A partir dos 9 anos, ajudado pela minha mãe no primeiro ano, eu conduzia o trator a ensilar com máquina e reboque enquanto o meu pai transportava com o Fordson. Usávamos dois reboques com capacidade para 4000 kg cada (em 1990 passámos para 5000). Depois de ter o reboque cheio ainda tinha tempo de apanhar castanhas nos castanheiros das beiradas do campo, que guardava na caixa de ferramenta do trator, para depois assar nas noite seguintes no fogão a lenha. Debaixo dos castanheiros também almoçava o farnel ou comia a merenda, enquanto esperava que o meu pai voltasse da viagem do campo ao silo, demorada ainda pelo trabalho de espalhar a silagem ao gancho e calcar com o mesmo trator. Tratores que, não tendo tracção dupla, enterravam no silo com muita facilidade. O que a gente andou até aqui! O trabalho era mais duro, mais difícil e menos produtivo, mas mais bem pago e muito menos criticado.
#carlosnevesagricultor

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publicado às 08:15


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