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Receita para poupar no azoto - Bufar pouco e tapar depressa

por Carlos Neves, em 30.04.22

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Longos dias de lavoura são curtos para escrever, mas dão tempo para pensar e assuntos para contar. Esta semana tive o gosto de falar uns minutos com o Professor Henrique Trindade da UTAD, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, a propósito do programa Dairy4future, sobre o futuro da produção de leite. Falámos sobre o aumento dos custos de produção, nomeadamente dos adubos e recordei que foi noutro projeto do Professor Henrique Trindade que aprendi a tapar depressa o chorume (estrume líquido) que colocamos na terra. Procuro cumprir sempre esse conselho.

Valorizar de forma correta os efluentes pecuários (excrementos dos animais e águas de lavagem dos estábulos) para fertilizar a terra é ainda mais importante quando o adubo dobrou ou triplicou de preço, em particular os adubos azotados. Por cada hora que passa, o azoto do chorume espalhado na terra vai-se volatilizando, “evaporando”. O ideal era poder incorporar diretamente na terra com as cisternas, se tivesses discos ou bicos de escarificador, mas isso exige um enorme esforço de tração e máquinas enormes para os nossos campos pequenos e caminhos estreitos. Uma alternativa mais ligeira é a distribuição do chorume “em bandas”, com tubos junto ao solo, mas ainda assim é preciso uma barra enorme para colocar na cisterna e um distribuidor / destruidor dos sólidos para não entupir tudo. 

A propósito de “ideal”, o meu pai dizia muitas vezes que “o ótimo é inimigo do bom”. Com os equipamentos que temos, o que podemos fazer é reduzir a pressão da cisterna ao mínimo possível, para distribuir o chorume o mais baixo possível e lavrar de imediato. Além de se “guardar” o azoto na terra para as raízes das plantas, também acidifica menos o solo e, claro, reduz-se o mau cheiro, o que é importante para campos próximos das populações. Uma desvantagem deste procedimento é sujar o trator, mas “a água lava tudo menos a má lingua”. Boas lavouras e sementeiras!

#carlosnevesagricultor

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publicado às 13:19

Cuidado com os tratores na estrada!

por Carlos Neves, em 20.04.22

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Há dias, ao fim da tarde, tive que ir a um campo que fica do lado esquerdo da estrada. Após ligar o “pisca” do trator para virar à esquerda, fui ultrapassado por um casal numa motorizada, sem luz e sem capacetes. Felizmente o sol não me encandeou e tinha o vidro e o espelho suficientemente limpos para ver que estava a ser ultrapassado.

Estamos em época de colheitas e sementeiras que obrigam agricultores e prestadores de serviços a levar para a estrada máquinas e tratores de grandes dimensões e baixa velocidade em comparação com os automóveis. Às vezes estamos cansados, voltamos do campo com os vidros cheios de terra e a vibração do trator ou um ramo quebrou uma luz ou rebentou um fio da iluminação do reboque. 

citando Mary’s Farming Minute : 

 

“ A impaciência, a velocidade e a ultrapassagem durante uma curva à esquerda são as principais causas de muitos acidentes com motoristas/máquinas agrícolas.

 

Aqui estão algumas dicas para ajudar a manter todos seguros durante a época de sementeiras:

 

- Preste atenção na estrada.

- Tome tempo extra para chegar ao seu destino.

- Seja paciente.

- Não assuma que um tratorista está a encostar para deixar passar, pode estar a preparar para virar.

- Preste atenção aos sinais de direção e/ou mão.

- Passe com cautela se for seguro fazê-lo. 

- Lembre-se de que parar ou arrancar com um equipamento agrícola não é tão fácil como um carro ligeiro. Boas sementeiras!”

 

PS - Cuidado ao ultrapassar um trator que está a virar para sair da estrada, sobretudo se tiver uma alfaia engatada - quando a frente vira à direita, a traseira vai para a esquerda, e vice-versa.

 

PS II - Obrigado à pessoa gentil que às 20h40 de segunda-feira, apesar

da estrada deserta, parou para me deixar atravessar e poder ir jantar uns instantes mais cedo. Dava jeito encontrar mais pessoas dessas a meio da tarde, quando esperamos durante 5 minutos que alguém abrande um pouco e nos deixe atravessar. Sejam gentis na estrada , vão sentir-se melhor! 

#carlosnevesagricultor

(foto de Farm Life )

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publicado às 23:20

Tirar o IVA de adubos e rações não baixa o custo dos alimentos

por Carlos Neves, em 13.04.22

“O Primeiro-Ministro anunciou que o Governo vai aprovar medidas para conter os preços dos bens energéticos e agroalimentares, no discurso de apresentação do Programa do Governo, na Assembleia da República."

Entre as novidades está a «isenção temporária do IVA dos fertilizantes e das rações» (comunicado do governo a 7 de abril). 

Esta é uma boa medida, mas não é isto que vai baixar o custo dos alimentos que se compram no talho, na mercearia ou no supermercado.

O IVA, imposto de valor acrescentado, é essencialmente um imposto sobre o consumo final. Os agricultores, como todos os empresários, pagam IVA quando compram os fatores de produção e cobram IVA quando vendem. Quando um agricultor ou empresa agricola compra 100 euros de ração para os animais ou adubo para as plantas paga 6% de IVA, portanto paga um total de 106 euros. Ao comprar um trator ou maquina agrícola paga 13% e em alguns produtos 23 % de IVA. Quando vende 100 euros de leite, ovos, batatas ou qualquer produto agrícola, cobra mais 6 euros de IVA. O supermercado, o talho ou qualquer intermediário, pagam IVA quando compram e cobram IVA quando vendem. 

Cada trimestre, todas as empresas agrícolas, industriais ou comerciais que fazem contabilidade organizada são obrigadas a fazer as contas do IVA. Havendo IVA a dar ao Estado, têm de o entregar de imediato. Havendo IVA a receber, só podem pedir o "reembolso" quando atinge um certo valor e ficam sujeitas a fiscalização. Para as empresas o IVA é "neutro", tendo apenas efeitos temporários na tesouraria. 

Uma ração que custava 30 cêntimos por kg em 2021 passou a custar 40cts/kg antes da guerra começar e vai a caminho de custar 50cts/kg em Maio. Os adubos dobraram ou triplicaram o preço. Esta é a parte que dói e vai continuar a doer com ou sem IVA. 

Quando houver isenção, uma empresa agrícola que gaste 10.000 euros de ração ou adubo vai "poupar" 600 euros na ocasião da compra mas depois terá de entregar ao estado o IVA que cobrar na venda dos produtos produzidos. Esta medida, tal como a "flexibilização" (adiamento temporário) dos pagamentos fiscais ou de segurança social é apenas uma ajuda temporária de tesouraria, não reduz o custo dos alimentos ao produtor ou consumidor. Se o governo quiser reduzir o custo dos alimentos pode, por exemplo, isentar de IVA esses alimentos.

Esta medida agora anunciada é apenas útil para os pequenos agricultores que não podem deduzir o IVA e que compram um saco de adubo para o quintal ou um saco de ração para os pintos ou o porco que engordam em casa. Será uma medida positiva, "se" o intermédiario que lhe vende o adubo ou ração não aproveitar para subir a sua margem em vez do IVA. São milhares de pequenos agricultores que vão beneficiar disso e é bom. Mas não são esses pequenos agricultores que produzem 99% da comida que os portugueses compram no talho, na mercearia ou no supermercado. 

Se o governo quiser efetivamente ajudar os agricultores terá que dar ajudas concretas. Se quiser ajudar o consumidor tem que baixar o IVA dos alimentos. O que um governo não deve fazer é anunciar ajudas desta maneira, criando na opinião pública a ideia errada de estar a dar uma grande ajuda aos agricultores que não é real, lançando os consumidores contra quem lhe produz os alimentos com custos cada vez mais elevados. 

#carlosnevesagricultor

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publicado às 07:29

Três perguntas à Nestlé

por Carlos Neves, em 10.04.22

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Li um dia a história de um serviço de meteorologia americano que, por avaria de equipamento, decidiu basear as previsões na observação do comportamento dos índios. Se os índios guardavam lenha, então previam chuva. Depois de um acerto inicial, as previsões começaram a falhar. Foram ao terreno investigar e descobriram que os índios guardavam lenha quando havia previsão de chuva no serviço de meteorologia…

Lembrei-me desta “pescadinha de rabo na boca” quando ouvi Hans Jörg Deubel, da Nestlé, dizer, no congresso nacional do milho, que estavam a aumentar a aposta na “proteína vegetal” por ter menor pegada carbónica do que a proteína animal. Esta declaração coincide com a moda recente de diabolizar a produção animal, culpar as vacas pelo efeito de estufa e lançar no mercado imitações da carne e do leite. Por causa disso, na Europa, a Nestlé e outras multinacionais que cresceram e enriqueceram a transformar e vender produtos lácteos tem vindo a abandonar a recolha do leite a alguns produtores e a reconverter algumas fábricas para produzir as bebidas vegetais.
Pedi a palavra para colocar algumas questões mas não tive oportunidade de falar, o que me dá agora motivo para tornar públicas algumas questões:
- Onde estava a preocupação da Nestlé com a pegada de carbono e a sustentabilidade ambiental quando fechou as fábricas que produziam os seus iogurtes em Portugal, próximo dos consumidores, passando a importá-los de Espanha ou de outros países?
- Os estudos que mediram essa pegada de carbono tiveram em conta que os ruminantes, em particular as vacas, são capazes de digerir e aproveitar um enorme conjunto de subprodutos da alimentação humana, como polpa de citrino, polpa de beterraba, bagaço de soja, bagaço de colza e digerir a celulose da erva que é a única produção possível em muitos terrenos sem outro aproveitamento além da pastagem?
- Já repararam no aumento brutal do custo dos adubos? A guerra na Ucrânia veio agravar mais essa evolução. A produção vegetal, sem produção animal associada, precisa de muito mais adubo, porque os excrementos dos animais são um excelente fertilizante orgânico. Por causa disso, em todo o mundo aumentou a procura e o valor do estrume.
Sou totalmente a favor da investigação no sentido de agricultura mais sustentável na produção vegetal ou animal. Estou aberto a novos alimentos. Foi assim que a humanidade chegou a toda a variedade da alimentação atual, investigando e experimentando, de forma mais científica ou “amadora”. Os povos que provaram o leite e carne ganharam vantagem sobre os outros. Alguns indivíduos que provaram cogumelos venenosos não tiveram oportunidade de aprender, mas deram o exemplo.
O que me preocupa é reparar que depois do investimento de milhões de dólares em novos produtos, por exemplo a “carne de laboratório” ou as imitações de base vegetal, apareçam sucessivas notícias a diabolizar as alternativas que pretendem substituir, como a carne ou o leite.
O mundo mudou e já não caminha na mesma velocidade para a globalização como antes da pandemia e da guerra. A proximidade, a soberania e a segurança alimentar passaram a ter outro valor. A energia e o adubo têm outro custo. A produção vegetal sem animais tem outro custo. Convinha avaliar e repensar tudo isto antes de “abandonarem” a produção animal que sempre fez parte de um ciclo completo e equilibrado entre o homem, a terra e os animais.
#carlosnevesagricultor
(A imagem, que mostra como evoluíram os assuntos que interessam à população, é de Pedro Santos / Consulai, que interviu noutro painel do mesmo colóquio)

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publicado às 21:15

Guardei o feno com ajuda de um ucraniano

por Carlos Neves, em 08.04.22
Pode ser uma imagem de 1 pessoa e ao ar livre
Pode ser uma imagem de 1 pessoa, em pé e texto que diz "JD Torre Marco, SA 4 de abril às 20:52 o propósito de alimentar o mundo faz sempre mais sentido quando vemos o leite nacional a chegar Bucha, Ucrânia. Numa das páginas mais negras da história moderna europeia, leite nacional para dar algum conforto. São momentos destes que dão ainda mais significado ao suor de gerações que acompanha cada litro de leite produzido em Portugal. Um obrigado a todos os produtores de leite portugueses."
Mais uma vez, conseguimos guardar o feno para os vitelos com a nossa velhinha enfardadeira Welger e, caso raro, sem partir um fusível! O mais extraordinário é que há dois anos pensei que esta máquina estava arrumada quando se partiu uma roda dentada do mecanismo de atar os fardos. Procurei peças usadas e não encontrei. Ainda contactei o Sr. Francisco Moça (Francisco das enfardadeiras) que vendeu esta máquina ao meu pai há muitos anos e prestou assistência até se aposentar. Ainda tinha algumas peças em stock mas não tinha essa peça e não é fácil de encontrar pois já não se fabrica. Valeu-me um serralheiro ucraniano que reconstruiu a roda partida. Trabalha numa oficina aqui perto e diariamente repara as máquinas de que precisamos para cultivar os campos e alimentar os animais. Agora, ao olhar para esta máquina recordo-me destas três pessoas que referi.
É comovente perceber que algum do leite português que esta semana foi distribuído na Ucrânia pelo presidente Zelensky resulta do trabalho conjunto dos agricultores portugueses e de um imigrante ucraniano. O mundo é um lugar pequeno e às vezes acontecem estes “favores em cadeia”.
 

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publicado às 22:24

Breve história da nossa “silagem de erva”

por Carlos Neves, em 08.04.22
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O Luís chegou da escola mesmo a tempo de acompanhar a carga do último reboque da nossa silagem de erva deste ano. Falta fechar o silo.
Chamamos “silagem” ou “ensilagem” a um processo de conservar forragem (ervas ou milho) guardada com alguma humidade num ambiente anaeróbio (sem ar) para que ocorra uma fermentação que vai permitir a conservação da comida para os animais durante meses ou anos. Apesar de ser uma técnica já conhecida no antigo Egipto, só há cerca de 50 anos começou a ser usada pelos agricultores portugueses de forma regular.
No dia 25 de Abril de 1974, o meu pai andava a fazer silagem de erva. Alguns anos antes, ele tinha comprado na “Casa Catela”, em Vila do Conde, um corta-forragens “JF” e um reboque da mesma marca. Essa máquina JF, tal como as sucessoras “Taarup”, cortava recortava de forma grosseira e carregava diretamente a erva, mas não havendo uma pré-secagem a silagem ficava húmida e com um cheiro forte e pouco agradável, pelo que a prioridade era cortar a erva com a JF para o chão, mexer com um virador também “JF”, secar a erva e guardar sob a forma de feno.
Em 1986, seguindo o exemplo dos outros agricultores, começámos a fazer alguma silagem com o reboque forrageiro “Santini”, que só tinha 5 facas, pelo que o recorte era grosseiro e a silagem difícil de lidar na alimentação dos animais, de modo que continuámos a apostar no feno. 10 anos mais tarde, em 1996, comprámos o reboque autocarregante “Campeva”, já com 21 facas e outra capacidade de recorte e que já permitia usar o reboque unifeed para carregar essa erva no silo e dar aos animais de forma mecanizada. Pelo mundo fora e também por cá há quem prefira este sistema, com reboques maiores e mais perfeitos no trabalho.. Alguns anos mais tarde, pelo ano 2000, chegaram as enormes corta-forragens / “automotrizes”, como a que usamos hoje, que fazem um recorte mais preciso e permitem uma melhor conservação da erva no silo, porque quanto mais pequenos são os pedaços, melhor é a compactação da forragem, a expulsão do ar e a fermentação sem bolores ou podridão. Também surgiram as enfardadeiras e plastificadoras de rolo, que permitem fazer “fenosilagem”; É mais caro, por causa do plástico necessário, tem algum risco de conservação se o plástico for picado por animais, mas tem vantagem de ser prático e permite cortar cada parcela no momento certo.

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publicado às 00:21

É possível lutar sem violência?

por Carlos Neves, em 02.04.22

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Este texto é baseado na minha experiência no associativismo agrícola, mas partilho-o na expetativa que seja útil noutras lutas cívicas dos meus leitores.

Os custos de produção de leite aumentaram no último ano e o preço do leite ao produtor, na Europa, subiu acompanhando esse aumento. Subiu em todos os países? Não. A sul dos Pirinéus, na Península Ibérica, os produtores de leite de Portugal e Espanha sofrem com os piores preços da Europa.

Face a isto, em Portugal, a Associação de produtores de leite onde sou Secretário-geral, a APROLEP, publicou comunicados, cartas abertas, reuniu com governantes, organizou uma manifestação simbólica com 200 pares de botas no Porto (Fevereiro) e uma enorme manifestação na Trofa (Agosto), interpelou a ministra da Agricultura com seis tratores à Porta da Agros (Setembro), colocou fardos de palha à porta de Hipermercados, levou o Presidente da República a visitar uma vacaria em Maio e manteve os problemas do setor do leite na ordem do dia. Fizemos o máximo “barulho” possível sem violência e sem causar danos ou incómodos à sociedade. Há quem pense de maneira diferente.

Em Espanha, os “sindicatos agrícolas” demoraram a reagir mas nos últimos meses do ano 2021 organizaram intensas manifestações, primeiro junto das superfícies comerciais, depois junto das indústrias que pagam o leite a preço baixo. Manifestações que aumentaram de intensidade ao longo das semanas. No momento em que escrevo estas linhas, a meio de Janeiro, permanece um impasse sobre o futuro preço do leite, mas começam a chegar as “faturas” das ações mais violentas: um agricultor que atirou ovos à porta da sede da indústria Lactalis, em Madrid, recebeu uma multa de 600 euros para pagar. Cinco agricultores que enfrentaram com paus a polícia numa manifestação em Oviedo foram detidos para acusação e o processo seguirá para tribunal. Outras multas semelhantes chegaram… o preço do leite em Espanha subiu um pouco mas segue semelhante ao português, ambos ainda abaixo dos custos de produção que continuam a subir.

Prefiro pecar por excesso de prudência do que por excesso de risco. Ao longo da minha carreira “associativa”, colegas mais experientes avisaram-me sobre o excesso de voluntarismo nas nossas ações. Às vezes a gente vai à frente, entusiasma-se e quando olha para trás está sozinho. Nunca senti verdadeiramente isso, mas sempre procurei ser prudente para não me meter em sarilhos nem arranjar problemas para aqueles que me acompanharam. Gente que tem uma família em casa à espera, animais para cuidar, campos para tratar e não tem tempo para ir a tribunal responder por desacatos.

Comoveu-me a solidariedade manifestada pelos agricultores espanhóis que voluntariamente contribuíram para pagar a multa do colega que atirou ovos. Mas revolta-me que tenhamos que chegar a este ponto. Esta gente que se manifestou em Madrid e noutros pontos da Espanha ou Portugal, por causa do preço do leite, não são arruaceiros ou ativistas defensores da anarquia. Não são trabalhadores analfabetos, desesperados ou embrutecidos por uma vida de miséria. São pequenos e médios empresários, gente que herdou alguma coisa do trabalho dos antepassados e que trabalhou muito para comprar ou alugar mais um terreno, construir um novo estábulo e comprar um trator mais potente ou confortável. Gente que trabalha com a família e dá trabalho a outras famílias, que tem responsabilidades. Gente que, se vendesse tudo o que tem investido no negócio ao preço do mercado, podia ir especular para os mercados financeiros ou investir noutra área mais rentável. Gente que em muitos casos se organizou em cooperativas onde ao longo dos anos tudo comprou e vendeu, deixando em cada um dos sentidos uma margem mais ou menos significativa.

Muito falhou nas nossas cooperativas, nas nossas confederações e na nossa governação quando empresários tem que andar na rua a manifestar-se em desespero. Cada um procure identificar e corrigir as falhas nas suas organizações.

Há um caso na Europa, que é a França, onde as manifestações dos agricultores são “pesadas” e parecem ser toleradas pelas autoridades. Lá também houve os coletes amarelos, há uma escola de manifestações mais fortes. Há mais alguns casos, mas a maioria dos agricultores, na maioria dos países, não anda na rua a manifestar-se com violência.

Na minha opinião, num estado de direito, numa democracia, a violência deve ser reservada às autoridades (à polícia, por exemplo) e só devemos recorrer à violência em situações de legítima defesa ou de desespero total, em último recurso.

Como lutar, como fazer pressão, sem violência?

Podemos comunicar regularmente e claramente, de forma simples e consistente, através das redes sociais e dos meios de comunicação.  Repetir a mensagem para passar, em todas as oportunidades. Devemos ser persistentes como a viúva do Evangelho que reclamou com o juiz iníquo. Abordar os políticos e governantes nacionais e locais. Podemos ser irreverentes e ter iniciativas inovadoras que chamem a atenção. Devemos refletir em conjunto, ouvir outras opiniões e envolver o número máximo de pessoas focado num objetivo comum. A união faz a força. (texto concluído a 19 de fevereiro para o "mundo rural" de março / abril de 2022) 

 

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publicado às 23:09

Antigamente era melhor?

por Carlos Neves, em 01.04.22

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Nos últimos dias guardámos a erva do campo chamado “Bouça Aberta”, sob a forma de rolos plastificados com “fenosilagem”. Depois de termos cortado a erva e mexido algumas vezes para reduzir a humidade, uma tarde bastou para enrolar, plastificar e arrumar 23.000 metros quadrados de erva (2,3 hectares). Enquanto transportava os rolos dentro de um trator com ar condicionado (ao fim da tarde passei a a tarefa ao Hugo, na foto), fui recordando o que passávamos quando o meu pai comprou este campo há 42 anos. Depois de 3 km em boa estrada, havia 500 metros de um “caminho de cabras” que nos partia as costas, os tratores e os taipais dos reboques. Para levar a enfardadeira tínhamos de passar por outro caminho mais largo mas também cheio de buracos, pedras e silvas. As centenas de fardos pequenos feitos com um trator sem cabine e ar condicionado eram carregados à mão para reboques com a ajuda de família e trabalhadores eventuais. Apesar de amarrar sempre com cordas, era uma aventura chegar a casa sem caírem alguns fardos por causa dos ramos das árvores e buracos no caminho. A única coisa de que tenho saudade era a merenda com pão de ló torrado que tinha sobrado da Páscoa.

Há cerca de 25 anos passámos a guardar a erva sob a forma de silagem, com autocarregante. Experimentei fazer feno com fardos grandes mas é difícil nesta altura e os rolos plastificados foram a opção dos últimos anos. Não fazemos aqui silagem com automotriz porque fica longe e sendo estreito o caminho de acesso teria de passar pelos campos vizinhos que ainda têm erva. Entretanto, há cerca de 20 anos o velho caminho de cabras foi calcetado com verbas da CEE e os tratores que fomos comprando também são mais seguros, confortáveis e potentes. Fazemos mais trabalho com menos esforço.
Nem tudo são rosas. Antigamente tinham pena de nós por causa do trabalho duro ou admiração pela coragem de nos metermos na agricultura, depois passámos a ser alvo da raiva de alguns por causa de adubos, pesticidas e antibióticos. O facto é que somos menos agricultores e funcionários mas somos capazes de produzir mais, com melhor qualidade e mais segurança alimentar.
A propósito disto, queria deixar uma palavra de esperança a quem tem receio que venha a fome por causa da guerra. Estamos melhor preparados do que no passado. Temos máquinas, conhecimento e gente a trabalhar “do prado ao prato”, entre produção, transformação, embalamento e distribuição, para que a comida chegue ao consumidor. Pode faltar alguma coisa como óleo de girassol, mas há alternativas. Vai ficar tudo mais caro, porque também os adubos, a eletricidade, o gasóleo ou o plástico nos ficam mais caros. Poderá sobrar menos para outros confortos que foi possível pagar à medida que a comida ficou mais barata para todos. Poderá ficar curto o salário para quem já recebia pouco, mas o Estado tem de ajudar esses casos que vão aumentar. Antigamente era bom porque éramos mais novos, mas agora temos mais experiência. Pensamento positivo!
#carlosnevesagricultor

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publicado às 08:08


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