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Cigarras, formigas e silagens

por Carlos Neves, em 23.10.21

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Entre muitas fotos e vídeos de tratores e reboques a ensilar milho, alguém comentou: “Parecem formiguinhas a levar comida para casa! ” Entendi o comentário como elogio de alguém que conhece a história da cigarra que passou o verão a cantar e que não guardou reservas para o inverno, como a previdente formiga. Esta fábula terá sido escrita por Esopo, na Grécia, 600 anos antes de Cristo e foi recontada por Jean de La Fontaine há 400 anos. Ao longo dos séculos, serviu para ensinar a trabalhar e poupar.

No final do Século XX, nos anos 90, António Alçada-Baptista escreveu a “contra-fábula da cigarra e da formiga”. A formiga vivia então cheia de stress a trabalhar na bolsa de valores enquanto a cigarra era artista musical, mas, no fim do verão em que não tirou férias, a formiga descobriu que a cigarra tinha conseguido um contrato para passar o inverno a cantar em Paris. Disse-lhe então: “se lá encontrares um tal de La Fontaine manda-o para o raio que o parta, sim?” 😊 Percebe-se a moralidade sobre o excesso de trabalho, mas não se iludam com o exemplo dado. Para ter sucesso a cantar ou chutar uma bola também é preciso muito trabalho.
Chegámos aos anos 20 do século XXI e agora as cigarras são ativistas nas redes sociais e dedicam-se a criticar as formigas. As formigas já não são o modelo a seguir. Mais do que gozadas, são agora criticadas pela forma como trabalham e cada vez mais condicionadas pelas regras que as cigarras vão promovendo, por exemplo antes de votações do orçamento.
Focadas no trabalho, as “formigas-agricultores” não estão preparadas nem têm tempo e paciência para responder às cigarras no mesmo tom e juntam ao stress do trabalho o stress de serem criticadas e mal pagas. As voltas que este mundo deu!...
#carlosnevesagricultor

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publicado às 16:06

O milho não é todo igual

por Carlos Neves, em 17.10.21
Pode ser uma imagem de comida e milho
Pode ser uma imagem de ao ar livre
Ontem colhemos mais uma parcela de milho grão, poucas horas antes da chuva chegar. Desta vez, um milho diferente, com plantas mais baixas, espigas mais pequenas e grãos pequenos e redondos. Apesar do aspecto, não é milho para pipocas, mas apenas milho de grão redondo e pequeno, ideal para alimentação animal, por exemplo das galinhas. Tem a vantagem de ter um ciclo de vida mais curto, portanto amadurece mais rápido, podendo dispensar os banhos de sol na eira ou a ida ao secador. Sendo mais precoce e tendo menos crescimento, precisa de menos água, podendo ser cultivado em sequeiro se for semeado cedo para aproveitar as chuvas da primavera. Este “milho miúdo” para as galinhas é muito apreciado por ter uma cor intensa que torna as gemas dos ovos das galinhas mais amarelas. Tem ainda a vantagem de ser pago a um preço superior mas, porque não há bela sem senão, é muito menos produtivo que o milho de grão “dentado”, em forma de “cunha”, que usamos normalmente para produzir “milho silagem” ou “milho grão” para moer e fazer farinha também para alimentação animal.
E o milho vermelho, para que serve? Esta espiga é produção do nosso quintal a partir de outra espiga que pedimos a um agricultor vizinho há alguns anos atrás, quando levou um reboque cheio delas num cortejo de oferendas para a igreja. Hoje usamo-lo apenas para fazer arranjos, como adorno. Antigamente colocavam-se algumas espigas desse milho vermelho no monte das espigas a desfolhar na eira e quem tivesse a sorte de encontrar uma dessas espigas gritava “milho-rei” e tinha direito a dar abraços e beijinhos a todo o grupo que participava no convívio que era a desfolhada tradicional.
Dentro de cada um destes tipos de milho há imensas variedades que os nossos antepassados foram escolhendo e apurando, nomeadamente as variedades de "milho branco" usadas para fazer pão. Nas últimas dezenas de anos esse trabalho de selecção passou a ser feito por empresas que vão cruzando, experimentando e desenvolvendo. Depois, para fazer publicidade, colocam placas com o nome da empresa e da variedade de milho nos campos que estejam localizados próximo de estradas. São essas placas com nomes ou códigos que podem ver ainda nos campos de milho já colhido. Não se trata de qualquer aviso obrigatório sobre tratamentos com pesticidas ou algo equivalente, é apenas publicidade.
#carlosnevesagricultor

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publicado às 11:00

Desenrascado

por Carlos Neves, em 05.10.21

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Era manhã de dia feriado mas os animais precisavam de comer. Carreguei a mistura com silagem de erva para as novilhas, depois seguiu-se a silagem de milho para as vacas. Faltavam apenas 500 kgs para ter a carga completa quando ouvi “pfffffff…”, o que me alertou para qualquer coisa estranha. Sem que nada fizesse prever, tinha furado um dos tubos do óleo que faz funcionar o motor da “fresa” que carrega o milho. Por sorte, a avaria não afetava a mistura e distribuição da comida e assim pude completar a carga recorrendo ao trator com pá carregadora, enquanto pensava como resolver esta avaria num feriado. Por sorte e boa vontade de quem lá manda e trabalha, a oficina estava aberta. “Só estamos aqui meia dúzia, mas aparece que dá para desenrascar isso”, disse-me o patrão. Não era só meia dúzia. Quando cheguei, também encontrei meia dúzia de colegas agricultores, uns a chegar, outros a sair, outros à espera da reparação de dois reboques para transporte de silagem e uma retrofesa com semeador de erva.

A agricultura não pára porque não pode parar. Os animais têm de ser alimentados, cuidados e ordenhados. As sementeiras e colheitas tem que ser feitas nos dias e horas que sobram com bom tempo na janela temporal apropriada. A agricultura não pára porque os agricultores não páram e tem uma enorme equipa por trás que os apoia e acompanha.
Os agricultores são cada vez menos e para cultivar a terra precisam de máquinas e equipamentos cada vez maiores. Já não são apenas os veterinários que têm de estar de plantão para um parto difícil ou outra doença urgente. A máquina ou robô de ordenha, o tanque de refrigerar o leite, as máquinas de colher o milho, as uvas ou a fruta não podem parar muito tempo.
Ontem levei um trator à oficina para trocar uns parafusos mas a maior parte dos mecânicos andavam fora, nos campos, a dar assistência às máquinas. Ao fim da tarde, o eletricista veio resolver um problema com uma câmara de vídeo. Um colega agricultor e prestador de serviços dizia-me na semana passada: Na hora de comprar, eu não escolho apenas um trator, em primeiro lugar preciso de um serviço de assistência que funcione.
Com as silagens e vindimas na reta final e com outras colheitas ainda a decorrer, fica aqui a minha homenagem e agradecimento a todos os que fazem horas extra para nos “desenrascar”.
#carlosnevesagricultor

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publicado às 21:36


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