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O que é que este gado vai comer hoje?

por Carlos Neves, em 22.09.21

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Na segunda-feira, estando vazio o corredor de alimentação das novilhas, o Hugo perguntou-me o que ia ser “a comida daquele gado”. Elas não estavam de estômago vazio, pois já tinham tomado os seus “cereais de pequeno almoço” (ração), mas faltava dar a forragem que enche a pança. No domingo à noite, tinha-lhes colocado na manjedoura a última parte do rolo de feno que comeram durante o fim de semana. Respondi que íamos buscar luzerna, porque tinha uma pequena parcela com essa erva já crescida e pronta a cortar, mas depois mudei de ideias. Entre os tratores que costumamos usar para cortar erva, um estava engatado à cisterna e o outro à grade de discos para fazer a incorporação imediata do chorume. Teria de desengatar o trator da grade, engatar a gadanheira, cortar a erva, depois ir buscar com outro trator, descarregar no corredor e depois dar a erva manualmente, com o gancho ou a forquilha, como habitualmente fazemos e tudo isso ia demorar tempo e no fim voltar a desengatar a gadanheira e engatar a grade de discos para colocar o chorume previsto em dois terrenos. Então mudei de ideias, dei silagem de erva às novilhas, muito mais rapidamente, fizemos o espalhamento e incorporação do chorume e deixei para hoje o trabalho com a erva verde.

Tudo isto fez-me lembrar uma conversa que tive há cerca de 25 anos com a Engª Ana Gomes, nutricionista da minha cooperativa, quando me instalei como jovem agricultor e comecei a tomar as rédeas do negócio agropecuário. Perguntei se devia dar erva verde às vacas leiteiras, como era tradicional, ou dar apenas a mistura de palha, silagem de milho, às vezes silagem de erva e ração, tudo misturado no unifeed, como faziam algumas vacarias, em geral as maiores e mais modernas. A resposta foi muito prática: “os seus colegas que não dão erva verde têm maior produção por vaca”. Segui esse conselho, mas isso causou muitas discussões com o meu pai, que queria continuar a dar erva fresca aos animais. Então, para fazer a vontade ao meu pai sem afetar a produção das vacas, passei a dar apenas erva às novilhas que ainda estão em crescimento, e que precisam de uma alimentação com mais proteína e menos energia.
Mas então a erva verde não é um bom alimento para as vacas? Sim, é excelente, mas tem dois defeitos: como expliquei, exige mais mão de obra e nem sempre temos erva disponível. No verão há pouca, em dias de chuva não podemos ir ao campo buscar e noutras ocasiões temos demais. No outono-inverno, quando as primeiras aveias cresciam, havia o risco da erva “melar” (acamar) e andávamos aflitos a cortar erva e dar como alimento em quantidades exageradas. Ora as vacas dão mais leite e com mais qualidade se tiverem uma alimentação regular, porque de cada vez que mudamos a alimentação alteramos a flora ruminal (as bactérias que a vaca tem no primeiro estômago e que são fundamentais para a digestão dos alimentos fibrosos).
Ainda há quem dê erva fresca às vacas leiteiras, mas em geral as vacarias que cresceram e ganharam dimensão para serem competitivas e resistir foram as que simplificaram a alimentação dos animais. A mão de obra é cara, escassa e temos de ser mais eficientes, fazer mais trabalho no mesmo tempo, ganhar dimensão e conseguir economia de escala. Iremos continuar nessa tendência ou voltaremos à erva diária para as vacas? Não sei. Vou manter a erva fresca para as novilhas alguns dias por semana? No imediato sim, mas vou reavaliar, ver outras experiências e repensar o assunto. E se algum colega quiser comentar, partilhar a sua experiência e dar a sua opinião, faça favor!
#carlosnevesagricultor

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publicado às 13:34

Cuidado com os tratores na rua!

por Carlos Neves, em 12.09.21

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Na semana passada, uma pessoa amiga viu 5 tratores e reboques juntos numa estrada nacional aqui perto e pensou tratar-se de mais uma manifestação. Não era. Tratava-se apenas de uma equipa preparada para ensilar um campo de milho. As grandes ceifeiras automotrizes exigem vários tratores e reboques de grande dimensão para o transporte da silagem do campo até ao silo situado geralmente junto à vacaria.

Com o outono quase a chegar, chegou a época das colheitas. Milho silagem, milho grão, tomate, frutas... e uvas para vinho, um pouco por todo o país. Para a colheita usamos tratores, reboques e máquinas de todas as idades e dimensões, conduzidos por gente de todas as idades, mas sobretudo idosos. Os idosos que mantém o mundo rural vivo e a terra cultivada mantendo-se ocupados para se manterem ativos e juntar algum sustento à sua reforma.
Sendo veículos de marcha lenta, para serem vistos na estrada os tratores devem ter pirilampo, triângulo de sinalização e o sistema de iluminação a funcionar. Quando são novos todos funcionam, mas com a idade, a ferrugem, o pó e as vibrações as luzes dos tratores e reboques deixam de funcionar. Às vezes basta dar uma volta apertada com o reboque para o fio da ligação rebentar e deixarmos de ter luzes a funcionar mas temos de voltar para casa do campo, ou acabar a colheita porque passadas umas horas virá a chuva que pode estragar a colheita.
Há 30 ou 40 anos atrás, o meu pai costumava pedir ajuda do irmão mais novo, o meu tio David, por altura da silagem ou do feno. Ele trabalhava por turnos, muitas vezes de noite, a conduzir o camião de recolha do lixo e a lavagem de contentores e arranjava algum tempo para nos ajudar. Uma vez veio carregar feno e voltávamos a casa com o reboque cheio de feno, eu em cima do reboque e ele a conduzir o velhinho trator Fordson super dexta. As luzes de pisca do reboque não funcionavam e ouvimos uma reclamação: “ se essa m**** não está em condições de andar na estrada, que fique no campo!”. Foi só uma “boca”, mas eu fiquei muito envergonhado por o meu tio vir ajudar-nos e ainda ter que ouvir reclamações, de modo que por isso, porque temos de fazer muita estrada e não queremos problemas com a polícia ou acidentes, procuro ter a iluminação dos tratores a funcionar minimamente… exceto quando não há tempo para consertar…
Mais tarde, já conduzia, ia atrás de um pequeno camião que deu pisca à esquerda e fui ultrapassado por uma moto de um inteligente que foi bater no camião… felizmente sem danos de maior, pelo que me pareceu na altura. Levava capacete e ficou sentado no chão. E já apanhei sustos semelhantes a conduzir trator, assinalar mudança de faixa à esquerda, o carro de trás vê e respeita mas vem outro apressado atrás a ultrapassar todos…
O meu pedido é que todos tenhamos cuidado e paciência: cuidado na iluminação e condução com tratores, cuidado e paciência ao circular de carro, mota ou camião em estradas com tratores. Para podermos colher em paz e segurança o trabalho de um ano inteiro e chegarmos todos a casa, inteiros, com saúde e sem despesas.
#carlosnevesagricultor

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publicado às 21:14


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