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O poder, o pântano e os crocodilos

por Carlos Neves, em 25.07.21

Imagine que você herdou um terreno e pretende cultivá-lo, mas porque é um terreno pantanoso terá primeiro que o drenar para poder cultivar. Inicia então os trabalhos de drenagem e descobre que o pântano está infestado com crocodilos. Compra uma caçadeira, aprende a disparar. Começa então a lutar contra os crocodilos para os exterminar, mas a luta não é fácil. A certa altura, você está tão empenhado a matar crocodilos que se esqueceu do seu objetivo inicial que era cultivar o terreno...

Desconheço o autor desta pequena história, que li há muitos anos. Recordo-me dela muitas vezes. É útil para refletir sobre a nossa atitude perante a vida. Por exemplo, no que toca ao trabalho e qualidade de vida, o objetivo de qualquer pessoa é ter uma vida confortável e ser feliz. Por isso trabalhamos. Mas algumas pessoas envolvem-se tanto no trabalho que acabam por viver para o trabalho e se esquecem do descanso, do conforto e da família.
O mesmo acontece com o poder, tanto o poder autárquico que vai a votos entretanto como o poder nas organizações agrícolas. Os dirigentes começam por se candidatar (creio eu) com o objetivo de servir as organizações e os colegas agricultores, mas com o tempo podem acomodar-se aos lugares e esquecer-se dos objetivos iniciais. Quanto mais tempo no poder, pior, por isso sou favorável à limitação de mandatos. Claro que nem sempre é fácil substituir as pessoas, mas nenhum de nós é insubstituível. Na verdade, só cá estamos na terra de passagem, mais cedo ou mais tarde havemos de partir e a vida continua sem nós.
Convém lembrar que a vida das organizações agrícolas não se joga apenas nas eleições. Anualmente, há assembleias gerais para analisar as contas do ano que passou e planear as atividades do ano que se segue. Os sócios podem e devem participar com sugestões, críticas ou pedidos de esclarecimento. Compreendo que, mesmo participando, muitos fiquem em silêncio por receio de falar em público. Mesmo esses podem e devem comentar com os colegas que estejam dispostos a falar ou então podem dirigir-se pessoalmente ao presidente ou outro elemento da direção e dizer a sua opinião, criticar, dar uma ideia. Muitas vezes, uma sugestão feita desta maneira dá mais resultados que uma crítica em voz alta feita na assembleia pela “oposição”, porque quem está no poder costuma ter receio de “dar o braço a torcer” publicamente. E, mesmo que a nossa ideia seja rejeitada no imediato, pode ficar a “semente” na cabeça de quem nos ouviu e dar frutos mais tarde. Isto é válido para todas as organizações, agrícolas ou não. É importante participar na gestão daquilo que é nosso.
Não é errado ter ambição de chegar ao poder. É preciso lutar para o alcançar e manter. Para “poder mudar” o que estiver mal ou para “poder fazer” o que falta é preciso ter “poder”. Mas é importante haver sempre “massa crítica” à volta do poder para o chamar à terra e não deixar esquecer os objetivos iniciais do bem comum de todos.
(adaptado a partir de um meu texto de 2005)
#carlosnevesagricultor

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publicado às 09:49

Dia de apanhar batatas

por Carlos Neves, em 24.07.21

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A manhã de hoje, fresca e nublada, mas sem o chuvisco dos últimos dias, foi o momento escolhido para arrancar e apanhar as batatas que plantámos a 15 de fevereiro. Temos máquina para arrancar a batata da terra, um arrancador “zaga”. É mais velho do que eu, nem sei a origem, creio que foi máquina de sociedade com outros agricultores. Gastei 300 euros a repará-lo há alguns anos e fiquei a pensar que só esse dinheiro daria para comprar batata para muito tempo… Mas assim temos o gosto de comer o que plantámos e dar ou vender alguma.

Ontem cortámos a rama da batata que ainda restava e a erva que cresceu por falha da monda química (tempo muito seco na altura da aplicação). Ainda fizemos uma sacha manual que deixou as batatas crescer, mas no final as ervas daninhas avançaram. Faz parte da “vida das batatas”.
Não tenho saudades das memórias de infância com a apanha da batata. Arrepiava-me o barulho da mão a deslizar na pele da batata e foi por isso que comecei a usar luvas, o que me ajudou a proteger os dedos noutras tarefas. Custava-me puxar as ervas daninhas que encravavam o arrancador. Era pesado o trabalho de encher os sacos no campo, carregar o reboque, despejar em casa, depois escolher, encher, pesar os sacos, atar, carregar de novo no reboque e levar ao “supermercado Januário” ou a casa dos clientes habituais, ao fim da tarde, quando eles chegavam da praia e se queixavam do preço da batata. Antigamente eram vários dias nisto, tínhamos de contratar “jornaleiros” para ajudar, hoje é pouca quantidade e despachamos depressa. Mas faz bem o exercício, dá para esquecer os outros problemas e temos o gosto de ver a terra livre e o “monte” das batatas recolhidas.
Não era habitual vender ao intermediário, o “negociante”. Tenho apenas uma vaga memória de isso ter acontecido uma ou outra vez, há muito tempo, mas sei que agricultores vizinhos e familiares massacraram a coluna com esse esforço, enquanto o meu pai foi passando a batata para atividade residual e especializando-se na produção de leite. Hoje há colegas que são profissionais na produção de batata e outros que deixaram completamente de cultivar e compram as batatas que precisam. Também há quem tenha apenas um vaso ou um pequeno espaço no quintal. Qualquer que seja a dimensão, espero que tenham boas colheitas… e bom apetite!
#carlosnevesagricultor

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publicado às 15:00

Senhor Ministro, andar a 200 km/h não será pior para o ambiente do que comer um bife?

por Carlos Neves, em 16.07.21

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O ministro Matos Fernandes foi filmado dentro de um carro a 200 km/h na autoestrada. Confrontado com a situação, o ministro disse que não se apercebeu, que se aconteceu foi um erro e que tomaria providências para não voltar a acontecer.

Acontece que Matos Fernandes não é “apenas” ministro, é o Super-ministro do ambiente e ação climática, cujo ministério captou ao Ministério da Agricultura as florestas e o bem-estar animal que estava na DGAV, Direção Geral de Veterinária.
Acontece que, por ironia do destino, o carro que ia a 200 km/h parece ser um carro a gasóleo com matrícula deste ano. Ora foi este ministro que em 2018 avisou que não devíamos comprar carros a gasóleo porque em 4 ou 5 anos iam deixar de ter valor. Afinal precisa de um carro desses…
Acontece que este é também o ministro que apoiou a proibição da carne de vaca na Universidade de Coimbra e por diversas vezes defendeu a redução do número de vacas por causa das emissões de gazes dos efeitos de Estufa (GEE).
Sucede que os transportes representam 24% das emissões de GEE em Portugal, 5 vezes mais do que todo os bovinos (4,5%) – Estou convencido que as vacas leiteiras representam 1%.
Mais importante, o carbono que as vacas libertam foi captado pelas pastagens e forragens cultivadas pelos agricultores, ao passo que o dióxido de carbono emitido por um carro estava armazenado em profundidade há milhares de anos sob a forma de petróleo – são balanços completamente diferentes.
E, para concluir, um carro a 200 km/h costuma gastar mais combustível e libertar mais gazes por km do que um carro a 90 ou 120 km/h.
#carlosnevesagricultor

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publicado às 23:24

Caro Richard Branson: O que é pior, um foguetão ou um bife?

por Carlos Neves, em 15.07.21

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Lembram-se do milionário Richard Branson, que foi dar uma voltinha ao espaço por estes dias e vai abrir uma empresa de turismo espacial? Deve ter gasto uns litros de gasolina com algumas emissões de carbono… Pois parece que tinha deixado de comer bifes para salvar o planeta (faz lembrar um certa pessoa que passa os dias a queimar pneus e gasolina). Encontrei sobre isso um texto da Brandi Buzzard, agricultora americana, e achei útil traduzir:

“Lembro-me, quando criança, de pensar em como seria fixe ser lançada no espaço sideral e explorar o nosso sistema solar. O espaço é um lugar misterioso que, em geral, não foi descoberto e não foi testado. Mas os meus objetivos de explorar o espaço diminuíram conforme fiquei mais velha e descobri 1) tornar-me astronauta é extremamente difícil e requer habilidades matemáticas além da minha compreensão, 2) o espaço está muito longe e temos que deixar a família por meses ou anos, de cada vez e 3) Quero estar aqui na Terra com meus cavalos e vacas, onde não estou tão propensa hiperventilar de claustrofobia. Foi demais para os meus sonhos.
No entanto, se eu fosse Richard Branson, dono da Virgin Media e alguém com tanto dinheiro que pode literalmente queimá-lo, poderia simplesmente embarcar no meu próprio avião-foguete e lançar-me ao espaço. Quem se preocupa com o meio ambiente, combustível de foguete, camada de ozono ou mudanças climáticas, certo?
Bem, claramente Sir Richard não, ao lançar seu foguete da Virgin Galactic no espaço para uma missão de 1,5 hora que lhe permitiu ver o horizonte da Terra e experimentar a ausência de peso. Honestamente, isso parece muito divertido. Mas esperem, esse é o mesmo Richard Branson que declarou publicamente, inúmeras vezes, que desistiu de comer carne bovina por razões ambientais. Não vou repetir a sua desinformação aqui, mas parece fora deste mundo hipócrita que alguém que supostamente se preocupa com o meio ambiente o suficiente para desistir desnecessariamente de uma proteína saudável, sustentável e rica em nutrientes para, em seguida, lançar um avião-foguete na atmosfera apenas para se divertir.
Factos reais: de acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos EUA, o gado é responsável por apenas 2% das emissões de gases de efeito estufa e a agricultura americana, como um todo, é responsável por apenas cerca de 10%.
É um número muito pequeno para um segmento do PIB que alimenta e veste a nossa sociedade. Embora não contribuam muito em termos de GEE, as vacas contribuem para o sequestro de carbono pastando em terras que não são adequadas para a produção de alimentos humanos, consumindo subprodutos da produção de alimentos não comestíveis (farelo de abacaxi, casca de amendoim, polpa cítrica, grãos secos de destilaria, etc.) e fornecendo uma proteína densa em nutrientes que é saudável para pessoas de todas as idades, desde bebés até idosos.
Mas vamos falar sobre aquele avião-foguete, certo? O turismo espacial não é ecologicamente correto e foi exatamente isso que ele fez - um tour pela atmosfera. Ele não estava conduzindo pesquisas ou melhorando nosso planeta com uma descoberta até então desconhecida. Ele tinha dinheiro para ir para o espaço, então o fez. Bravo! Esse é o tipo de atitude que geralmente apoio 100% - viva sua vida! No entanto, esses tipos de ações hipócritas são simplesmente terríveis. Segundo a Aerospace Corporation, os foguetes largam produtos da combustão na estratosfera, afetam o ozono e, com isso, contribuem para as alterações que determinam o clima global. Não é preciso ser um cientista de foguetes para saber que foguetes são grandes contribuintes de emissões. De acordo com o E&E News, o voo de Branson tem uma pegada de carbono semelhante a um jato comercial voando de Londres a Singapura, mas os voos internacionais geralmente transportam centenas de passageiros ao seu destino.
Para ser justo, Sir Richard não está sozinho. Os bilionários Jeff Bezos e Elon Musk também estão promovendo o turismo espacial e as indústrias espaciais comerciais, ao mesmo tempo que expressam preocupação com o aquecimento global. Não acho que três erros façam um acerto, mas aparentemente até os bilionários sentem a pressão de acompanhar os vizinhos.
Então, aqui está o ponto principal: estou farta de bilionários espalhando desinformações sobre carne e meio ambiente enquanto voam em aviões particulares para ilhas particulares, ah, e agora também a PASSEAR NO ESPAÇO PARA SE DIVERTIR.
Se você deseja fazer um progresso real contra a mudança climática, aqui está o que você pode fazer:
Reduza o desperdício de alimentos - Você sabia que nos EUA desperdiçamos quase 40% dos alimentos que compramos no supermercado? Isso não é exagero. Imagine a última viagem ao supermercado que você fez - um carrinho cheio de proteínas, frutas, laticínios e salgadinhos. Em seguida, chegue em casa e jogue fora quase metade - história verdadeira. Se você quer causar impacto através da comida, pare de jogá-la fora! O planeamento das refeições, utilizando as sobras e sabendo a diferença entre as datas de validade e validade são formas de diminuir sua pegada de carbono por meio dos alimentos sem alterar sua dieta.
Reduza sua dependência de plásticos descartáveis. O plástico é problemático. E eu entendo - é conveniente e está em qualquer lugar. Mas você pode dar pequenos passos para parar de alimentar a produção de um produto residual tão prejudicial - os plásticos entopem nossos cursos de água, oceanos e aterros sanitários e não são biodegradáveis! Portanto, para começar, pegue uma jarra de água ou garrafa térmica de sua escolha e elimine a dependência de água engarrafada. Em segundo lugar, você pode obter sacolas de lanche reutilizáveis para não deitar fora um monte de saquinhos de plástico depois de cada piquenique, (…)
Estacione o carro e caminhe (ou use o transporte público) - Obviamente, temos que viajar, mas há maneiras de ir do ponto A ao B sem encher o ar com CO2. Eu moro no interior, mas até eu posso reduzir meu uso de combustível - vou a pé até a agência dos correios e ao café local quando o tempo permite. Quando visitamos novas cidades, usamos transporte público em vez de alugar um carro. Você também pode fazer essas coisas - é tão simples quanto viajar de carro para o trabalho ou tentar fazer suas tarefas em um dia específico por semana, ao invés de sempre que você pensar nelas. Essas mudanças são convenientes? Nem sempre, mas estou mais do que disposto a caminhar do que nunca para ter um verão ameno ou um inverno ameno novamente em minha vida.
Não tenho todas as respostas sobre mudanças climáticas, nem perto disso. Mas eu sei, sem dúvida, que criar empreendimentos de turismo espacial e permitir que as pessoas viajem para o espaço sideral enquanto vomitam fumaça de foguete na atmosfera não vai mudar o rumo do das alterações climáticas. Mais uma vez, não sou um cientista, mas acredito mais em cientistas do que em bilionários.”
Brandi Buzzard é uma agricultora e escritora do Kansas. Podem acompanhar o trabalho dela em BuzzardsBeat.com

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publicado às 23:46

Três litros de leite por meio litro de água?

por Carlos Neves, em 13.07.21

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Na semana passada, fui com o meu filho Pedro e com o Hugo, nosso funcionário, “montar a rega” no “campo da mangueira furada”  😊 (a explicação para o nome está num texto anterior),  que fica alguns quilómetros afastado de casa. “Montar a rega” significa colocar o motor no poço e fazer as ligações elétricas e de “canalização”, o que implica puxar mangueiras que quase sempre estão na bordadura dos campos, presas no meio das ervas que cresceram durante o inverno e primavera.

Não estava muito calor mas estava um tempo abafado, por isso fui comprar água a um café próximo. Quando voltei, na pequena pausa para refrescar, comentei: “Tive de vender três litros de leite para pagar cada uma destas garrafas de meio litro de água!  Perante o seu ar de espanto (vosso também?), lembrei que vendemos o leite a 30 cêntimos e que paguei 90 cêntimos por cada garrafa.

Não digo que seja caro pagar 90 cêntimos por uma água num café. Percebo que num café ou restaurante não estamos a pagar apenas a água mas também o serviço. Com o consumo daquela água eu podia ter-me sentado à mesa e passar lá o dia a ver televisão, aproveitar o aquecimento ou ar condicionado e usar a casa de banho. Curiosamente, se pedisse meia de leite ou um galão, com outro valor nutritivo e que dá mais trabalho a preparar, pagaria um valor aproximado.

O problema aqui é o preço do leite, que ficou congelado (o que significa desvalorização tendo em conta a inflação) ao longo dos últimos 30 anos, tanto para o consumidor como para o produtor. Com efeito, desde que Portugal aderiu à União Europeia, se o preço do leite tivesse atualizado ao nível da inflação, o consumidor pagaria hoje 1,20€ por litro de leite, mas só se paga isso por “leites especiais”. As marcas brancas andam quase todas entre 40-50 cêntimos e as marcas próprias à volta dos 60 cêntimos e há sempre várias marcas em promoções, de modo que às vezes pode-se comprar leite UHT abaixo de 40 cêntimos por litro, mas as pessoas não bebem mais leite por causa disso. Os consumidores limitam-se a mudar de loja ou de marca para comprar a promoção dessa semana, ou comprar e armazenar o leite preferido quando está em promoção. Alguma coisa correu mal para chegarmos a esta “desvalorização do leite” que não acompanhou a evolução do preço do café, do pão e até da água engarrafada, mesmo aquela que é comprada no supermercado, naturalmente mais barata do que num café.

A desvalorização do leite UHT em Portugal não justifica tudo, mas é uma parte do problema que é preciso analisar e resolver. Para além do custo do leite ao produtor, há o custo dos transportes  entre vacaria – fábrica – armazém – supermercado, o custo da embalagem, da pasteurização e do restante processamento conforme o caso. Mas de uma fábrica ou de um supermercado saem também produtos lácteos, alguns bem valorizados. É com os “produtos de valor acrescentado” que as indústrias e os supermercados equilibram as suas contas e compensam a margem nula das marcas brancas de primeiro preço que usam como isco para o consumidor… e que apresentam como justificação para o baixo preço ao produtor. Além disso, o leite entra na fábrica com um teor de gordura médio de 3,7%, e para fazer “leite magro” e  “leite meio gordo” retira-se muita nata que tem um valor elevado no mercado.

Nota: Com exceção desta retirada de gordura, não há qualquer “desdobramento do leite”, como já me perguntaram. Um litro de leite crú que entra na fábrica para transformar dá um litro de leite UHT ou pasteurizado ou aproximadamente 1 kg de iogurte; E são precisos 10 litros de leite inteiro para fazer um kg de queijo. Sobra o soro e, se for queijo magro, sobra também a nata. Uma das melhores manteigas do mundo é feita no litoral minhoto a partir da nata retirada ao leite para fazer queijo magro…

#carlosnevesagricultor

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publicado às 23:41

O preço do leite e a parábola da mangueira furada

por Carlos Neves, em 10.07.21

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Ontem publiquei a foto de uma fuga de água num acessório de rega – para os entendidos, um engate “Bauer” em ferro galvanizado. Quem olhou com atenção percebeu que numa peça de metal que devia ter a cor cinza da galvanização havia pontos de ferrugem e quem tem experiência com estas peças sabe que enferrujam de dentro para fora (onde passa a água) e, portanto, em breve haverá mais fugas e terei de trocar a peça em causa, que deve ter 10 ou 15 anos. É trabalho normal dos primeiros dias de rega. Também é normal nas mangueiras flexíveis aparecerem fugas, ao fim de alguns anos de uso. Em 2017, escrevi um texto sobre isso, então publicado no “Terras do Ave”, que vem a propósito recordar, por ser um problema na ordem do dia.
«Comecei a cultivar um terreno o ano passado. Levei para lá uma maquina de rega de fabrico artesanal, uma “geringonça” conhecida por “bicicleta”, por causa da sistema que a faz mover arrastando uma mangueira flexível como as que usam os bombeiros (preferia usar uma máquina melhor, mas com o preço que recebemos pelo leite nos últimos anos…) Essas mangueiras flexíveis e que se “espalmam” são mais fáceis de arrumar que os tubos pretos rígidos mas são mais caras e degradam-se ao fim de uns anos, começando a surgir furos que aumentam cada vez mais. O ano passado coloquei alguns remendos, foi perdendo água mas lá fui regando. Com mais um ano em cima, os furos aumentaram. E eu, pacientemente, levei fita-cola e fios de fardo para reutilizar e lá passei uma boa meia hora a fazer remendos ao longo da mangueira. E outra meia hora noutro dia. O problema é que a gente tapa num lado e abre noutro. E eu pensei no preço do leite que é baixo e é preciso conter as despesas, adiar os investimentos, e lá deixei a rega com a mangueira furada, mais um mês e já acabava… e perdendo metade da água pelo caminho, a correr para a parte de baixo que nem precisava de rega… até ao dia em que vi o milho à sede e percebi que o jato de água do aspersor já não atingia os metros suficientes para regar todo o terreno… e perdi o amor ao dinheiro, fui à cooperativa e comprei uma mangueira nova…
Em pouco mais de uma hora ficou a mangueira no sítio, foi só trocar os acessórios de engate e bem… a rega ficou completamente diferente. Agora o aspersor atira tão longe que até dá para regar o milho do vizinho (e ele merece, porque me deixa passar pelo terreno dele quando preciso), a água dura muito mais tempo, rego mais depressa toda a parcela, com mais eficiência, pois gasto menos água, menos eletricidade e fica melhor regado o milho. Olhando para isto tudo, fiquei a pensar nos milhões que o consumidor paga pelo leite, pela manteiga, pelos queijos, iogurtes e outros produtos lácteos e no valor que se perde pelo caminho até chegar ao produtor. E nós, produtores, andamos tão ocupados a trabalhar que não tiramos um bocado de tempo para fazer perguntas, para ler relatórios e ver onde estão as fugas de valor… às vezes pode ser um pequeno remendo a resolver a situação, outras vezes pode ser precisa uma mudança geral. Há que tirar tempo, avaliar bem e não ter medo de mudar o que for preciso.»
#carlosnevesagricultor
#preçojustoparaaproduçãodeleite

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publicado às 08:44

Agricultura perdida, águas perdidas, paisagem perdida

por Carlos Neves, em 08.07.21

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Faltavam 15 minutos para o final do jogo em que a seleção nacional de futebol deslizou para fora do Campeonato Europeu, quando toneladas de terra deslizaram 100 metros encosta abaixo na famosa aldeia de Sistelo, em Arcos de Valdevez. Ninguém ficou ferido, mas 30 pessoas foram evacuadas por precaução nessa noite (voltando a casa no dia seguinte) e os restantes habitantes da aldeia não ganharam para o susto causado por um barulho que “parecia um comboio”.

Na altura, achei estranho o que aconteceu: regra geral, estes desabamentos acontecem quando há enxurradas causadas por grandes chuvas, mas o tempo estava seco. No Jornal de Notícias de 30 de junho, falava-se de “acumulação de água” como causa possível. Noutro dia, outra notícia, creio que também do mesmo jornal, que vou citar de cor, esclarecia um pouco mais, falando de “águas perdidas” e terrenos abandonados”. Olhei para a foto do terreno que deslizou e reparei que fica mesmo abaixo do “tanque de lavar”, com água corrente, que fica atrás dos famosos espigueiros de Sistelo, muito bem recuperados e onde estive há poucos meses. Não sei se a água que causou o deslizamento de terras era dessa ou de outra nascente, mas é fácil de acreditar nessa causa provável: águas que eram usadas para regar os campos, em terrenos limpos e cultivados, só quando eram precisas, quando se acumularam num terreno por cultivar, num socalco atrás de uma parede de pedra solta, causaram um reservatório de lama que depois levou tudo à frente nos socalcos inferiores.
Já sabíamos que o abandono da agricultura à volta de aldeias secas aumenta o risco de incêndios. Sabemos agora que nas aldeias com muita água esse risco é menor, mas podem ocorrer desabamentos.
Visitei a aldeia de Sistelo, numa tarde primaveril ainda quase sem turistas. Estávamos curiosos para conhecer o “Tibete português” e confirmo que ao vivo a paisagem é impressionante como nas fotografias. Mas é uma paisagem humanizada, construída pelo homem. Aqueles socalcos que compõem uma paisagem que é agora monumento nacional foram usados centenas de anos numa agricultura de subsistência que tem vindo a decair, provavelmente ao mesmo ritmo que a população de Sistelo: segundo dados disponíveis na Wikipédia, em 100 anos, de 1911 até 2011, passaram de 840 para 270 habitantes. Em 2011, mais de metade dessa população já tinha mais de 65 anos.
Não vale a pena “culpar” a PAC ou o progresso. A gente que falta naquela e nas outras terras foi-se embora à procura de uma vida melhor e não devemos culpá-los por isso. Se não estivem melhor noutro lugar tinham voltado. Vista das cidades, para passar um fim de semana, aquela serra é muito bonita, mas viver lá todo o ano e em noites de tempestade, é duro.
Em 2011 o Sistelo era uma aldeia desconhecida. Talvez agora o turismo ajude a equilibrar as contas e fixar população. Ou podem viver em cidades de média dimensão com mais serviços e qualidade de vida, como talvez seja Arcos de Valdevez, a sede do concelho, e ir lá trabalhar durante o dia. Mas o turismo precisa de uma agricultura viva a cultivar os campos e a conservar os socalcos. E os jovens e adultos de agora já não se contentam com a agricultura de subsistência que lá se praticou e que, como o nome indica, só dá para sobreviver, não dá para viver com dignidade. A PAC, ainda bem, dá umas ajudas para a criação das raças autócnes, no caso vacas Barrosãs e Cachenas, mas não basta, é preciso que a carne desses animais e os produtos agrícolas sejam valorizados. Fica o meu alerta para pensarmos nisto e o desafio para que vão percorrer a “ecovia do rio Vez” e descobrir os encantos de Sistelo e dos outros “Sistelos” que temos no nosso país. #carlosnevesagricultor

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publicado às 22:44

Visita à nossa quinta de produção de leite - em vídeo

por Carlos Neves, em 04.07.21

Nos primeiros dias de Março, quando as escolas estavam fechadas e os miúdos com ensino à distância, pediram - me uma "visita de estudo" via zoom para uma turma de miúdos de 6 anos. Era para mostrar umas fotos, mas quando vi um vitelo recém - nascido comecei a gravar... Sem guião, sem edição, deu isto: A vida numa quinta de produção de leite, por #carlosnevesagricultor (com a participação especial do aprendiz 😁):

Para ver vídeo (9 minutos) clicar aqui: https://youtu.be/TbKNudg0L6g

 

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publicado às 15:44


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