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A máquina impiedosa das mentiras

por Carlos Neves, em 28.02.21

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Sobre a polémica da semana (programa Linha da Frente, da passada quinta-feira, em jeito de manifesto animalista), penso que é muito util ler ou reler as palavras de João Villalobos, consultor de comunicação, na revista produtores de leite nº21 (março 2020):

"Há uma guerra já a suceder em nosso redor. Envolvendo-nos e impactando-nos, quer nós queiramos quer não. Uma guerra que não é fria nem surda, mas antes sanguínea e gritante entre realidade e falsidade, entre ciência e desinformação, envolvendo interesses e forças muitas vezes obscuras que surgem não apenas nas redes sociais mas também nas notícias dos media tradicionais, repetindo dados erróneos, imagens chocantes descontextualizadas e seguindo uma agenda que, de forma muitas vezes difusa, coloca em causa atividades económicas e sectores produtivos, independentemente da sua dimensão.
As "notícias falsas" atravessam a Internet de todas as formas e a agricultura e o sector de produção animal não só não são imunes a elas, como são um dos seus principais alvos. Em 2018, uma página do Facebook que surgia como estando sediada na Austrália era intitulada "Os animais também são pessoas". Dessa página, o que foi partilhado em todo o mundo foi um post intitulado "Triturador de Vacas", onde um bovino podia ser visto deitado de lado numa rampa de aparo de cascos. A legenda da foto dizia: “Trituradores de vacas projetados para esmagar vacas até a morte é uma coisa horrível, mas este é um nível totalmente novo de tortura para vacas! Este dispositivo LITERALMENTE esmaga o pobre animal enquanto o gira para cima, para baixo, de um lado para o outro num movimento rápido controlado por uma grande máquina de trator, agitando-o com HORROR! Este não é um parque temático! Esta pobre vaca não tinha esperança, o sangue teria corrido para a sua cabeça até ela desmaiar e quem sabe o que fizeram ao pobre animal depois disso. Tudo o que sei é que ela está morta agora e provavelmente está coberta de urina.»
Dado o sítio para onde escrevo, estou certo de que será desnecessário explicar a incongruência de tudo isto, assim como estou certo de que já leram, viram, se depararam, com idênticos se não mesmo piores exemplos de manipulação ou, como agora se diz e erradamente, “fake news”.
Na verdade, não são “news” de forma alguma. São ataques organizados, numa altura em que parece surgir a tempestade perfeita para os produtores, em especial em Portugal. O crescimento de um partido com uma agenda política difusa, anti o consumo de proteínas animais, anti isto e aquilo. O apoio pelo menos verbal do Governo para alinhar com essa agenda (vide a questão do IVA nas touradas) e o sentimento de uma geração que – formada pelas redes sociais e por notícias sem base científica - se manifesta identificando causas reais, como as modificações climáticas, com outras que carecem de verdade e de base.
Contra tudo isto, como tive oportunidade de dizer no Congresso Nacional do Leite (obrigado APROLEP e Carlos Neves), só se pode combater de forma igualmente profissional. Quer queiram quer não, vós produtores têm que se aperceber de uma coisa: Terão que alocar recursos a formas profissionais de comunicação que permitam – mais do que combater os ataques alheios – difundir os vossos conteúdos, a vossa verdade e os vossos valores acrescentados para os cidadãos de uma forma equiparada à dos vossos inimigos. Porque é isso mesmo que eles são.
Para tal, é necessário alinhar alguns fatores. Para começar, que estejam de acordo com as mensagens a transmitir. Depois, que saibam reunir os necessários recursos para veicular essas mesmas mensagens. E, principalmente, que compreendam que a razão, por si, só não serve. Que os conteúdos a difundir, as vossas histórias, precisam de recorrer à emoção, com uma positividade que ultrapasse e vença a negatividade comunicada pelos inimigos. Boas histórias, bem apresentadas, profissionalmente tratadas, que espelhem a vossa realidade como ela é mas de uma forma que, como dizia outrora na sua campanha a primeiro-ministro de Portugal o atual secretário-geral da ONU, juntem a razão e o coração. O tempo urge. E o que se passa afeta de forma profunda o vosso presente e o vosso futuro. Por cada dia que passa sem investirem na vossa comunicação, mais as vossas vacas são trituradas na máquina impiedosa das mentiras."

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publicado às 12:27

A história das minhas botas

por Carlos Neves, em 27.02.21

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Ao fim da tarde de quinta-feira, enquanto a família plantava morangos, eu preparava-me para a manifestação. Depois de lavar a vitela do musgo que o inverno deixou na fibra, carreguei a também a carrinha com as botas, minhas e de outros colegas. Algumas dessas botas já voltaram ao trabalho, mas pedimos sobretudo botas velhas que estivessem arrumadas, para não ter de as devolver no final e assim reduzir os contactos. Fui também buscar as botas de nossa casa, que o Hugo, nosso funcionário, tinha separado. Quando vi 4 pares de botas alinhados e de tamanhos diferentes, pensei que davam uma boa foto a representar a família. Teve razão quem pensou assim quando viu essa minha foto de quinta-feira, pois foi a minha intenção. Mas também tiveram razão aqueles que, com mais tempo, atenção ou um ecrã maior, repararam que faltava uso às botas (pudera, paradas há meses ou anos) e as mais pequenas pareciam grandes para o miúdo mais novo. Na verdade, eram todas botas velhas e não eram de toda a família. 

Aqui estão agora as atuais botas do Luís, do Pedro, da Carina, as minhas e do Hugo. Botas iguais às de outras famílias, de outras vacarias, dos veterinários, inseminadores, podólogos e outros técnicos que nos visitam ou trabalham connosco. Botas de trabalho para os mais velhos e de proteção para os mais novos quando passam o tempo na vacaria, no quintal ou no pomar. Botas dos mais novos, pelo futuro dos quais lutámos. Botas de quem resiste apesar das dificuldades que expressámos na manifestação. Preço do leite baixo, rações e outras despesas a subir, ajudas sob ameaça de enorme redução. 

Na manifestação, havia muito botas iguais às nossas. São confortáveis, leves e seguras. Vi estas botas na feira de Paris há mais de 20 anos e fiquei encantado. Devido a uma tecnologia que coloca ar no meio da borracha, são menos frias, pesam menos um kg e escorregam menos do que que as botas “Pinta Amarela” que então usávamos. Perguntei se vendiam para Portugal, deram-me o número de uma empresa de Águeda. Fui de Vila do Conde a Águeda, de propósito, comprar botas. Trouxe vários pares, para mim e para alguns colegas. Não me recordo se voltei lá, mas depois a marca espalhou-se e passei a comprá-las na minha cooperativa. 

Nesse tempo, recebia por um litro de leite 66$ (33 cêntimos), mais do que hoje, quando recebo menos de 32 cêntimos e temos um preço médio em Portugal de 30,4. Não é justo porque não paga os custos de produção nem o nosso trabalho. E isto tem de ser denunciado, teimado, batalhado, como a viúva da bíblia que insistiu até que o juiz lhe fez justiça.

#carlosnevesagricultor

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publicado às 07:30

O trator-pá e o nome da toura

por Carlos Neves, em 24.02.21

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Em 1981, eu: 

- Pai, quero uma escavadora de brincar!

- Tens ali a do trator! 

E tinha, mas não era de brincar. O Fordson Super Dexta, com direção "a broa" (os entendidos vão perceber) que o meu pai comprou em 1963 tinha um “carregador frontal”, que ainda funciona. Diz lá “hidraulic horn” - cornos hidráulicos :) Foi comprado usado esse carregador, numa sucata, tal como uma debulhadeira, que tinha sido de Bento Amorim, antigo Presidente da Câmara, abastado agricultor e proprietário vilacondenses do séc XX, dono de quintas em Macieira e Vairão, onde esteve o museu agrícola e onde está agora a Delegação da Direcção Regional de Agricultura, o polo da Universidade do Porto e, se não estou em erro, também o LNIV, Laboratório de investigação veterinária. 

Alguns anos depois o meu pai comprou um carregador melhor, da marca Galucho, também de ocasião, para o Ferguson 265, Trator que teve então direito a ir a Braga receber uma direção assistida, para deixar de funcional “a broa”. Mais tarde, em 1998, quando comprei o primeiro Jonh Deere, comprei também o primeiro carregador "a sério", que ainda está ao serviço. É o principal trabalho desse trator e por isso o Luís batizou-o de “Trator-pá”. O meu pai trabalhou muitas horas nele. Só nunca me comprou a escavadora de brincar… 

2021, o Luís:

- Pai, quero um trator de pedais, com pá, para brincar!

- Já tens um!

- Mas é pequeno e não tem pá, como eu vi num filme…

E isto durou umas semanas, e até houve uma passagem pela oficina dos tratores grandes, uma boleia para eu ir buscar um trator que esteve a reparar, e o Luís também foi atrás no carro e a pedir para parar o carro no lugar melhor para ver o trator de pedais na montra… "Mais para a frente… mais um bocadinho… Pára aí, mãe!” … Até que o pai do Luís se lembrou da escavadora que nunca teve em 1981 e a mãe concordou…

Ah, e o nome para a toura? Esteve quase para ficar "Toura", porque nenhum nome agradava ao Luís, mas o Pedro foi insistindo que tínhamos de escolher. Fui rever as sugestões e achámos bonita a ideia do Javier Garcia, das Astúrias: dar à toura um nome das vacas do avô, em sua homenagem. Fui buscar a agenda de 1981 e comecei a dizer os nomes. Princesa? Não. Rola? Não. Mimosa? Não. Janota? Não. "Estrela...?" “Sim, gosto de Estrela!" Pronto. Estrela. 

#carlosnevesagricultor

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publicado às 07:38

Parábolas de um rádio avariado

por Carlos Neves, em 21.02.21

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O auto-rádio é uma peça muito importante no trator. Mantém-nos acordados durante as lavouras ou outros trabalhos monótonos, permite-nos ouvir o relato do futebol, as últimas notícias ou as velhas músicas que nos fazem companhia na solidão da cabine. Pessoalmente, vou variando entre notícias e músicas ao meu gosto. No entanto, quando comprei a última máquina ( o unifeed, perdão, a bimbi :) ), sendo usada apenas meia hora por dia, não dei importância a ter o auto-rádio avariado. Só alguns dias após a compra me apercebi que acendia umas luzinhas. Perguntei a um vendedor de material agrícola se tinha disponível algum rádio barato e ouvi como resposta: “não aconselho rádios baratos, podem funcionar mal com os projetores Led”. Ele tem razão. O BARATO SAI CARO. Andamos muitas vezes a inventar, a tentar poupar e a perder dinheiro. É o resultado de receber pouco valor pelo leite e por outros produtos agrícolas…

Com a compra de um novo rádio posta de parte, alguns dias mais tarde resolvi dar uma nova oportunidade ao velho rádio. Ele funciona, só o visor é que está avariado. Quer dizer, não comunica. Acontece em muitas relações, quando alguém está amuado mas não diz porquê. É complicado, nestes tempos em que nos habituamos ao fácil e ao descartável. Não me refiro às luvas, máscaras ou louça descartável, para evitar as contaminações, ainda bem que existem, desde que as descartemos nos locais indicados. Refiro-me a descartar pessoas. NÃO PODEMOS DESISTIR OU EXPLODIR À PRIMEIRA DIFICULDADE, TEMOS DE TER PACIÊNCIA E HUMILDADE. Lembrei-me disto num momento em que esperava uns minutos para misturar a palha com a ração. Retirei a tampa do auto-rádio, encontrei o botão de “reset”, depois fui carregando nos botões que me pareciam servir para buscar emissoras, apareceu qualquer coisa baixinho e, com paciência, dando muitas voltas ao botão, lá consegui aumentar o volume do som para valores razoáveis. 

Animado, com o rádio a funcionar, saí da vacaria em direção ao silo exterior para carregar as silagens de erva e milho. Talvez por faltar uma parte da antena e não captar bem, ou por causa dos botões onde carreguei antes, o rádio mudou de emissora. Passado uns minutos mudou de novo. Algumas músicas ao meu gosto, outras estranhas ao meu ouvido. Mas isto também é bom nestes tempos em que os grupos de Whatsapp e o algoritmo do facebook só nos mostram o que queremos ouvir. FAZ-NOS FALTA A DIVERSIDADE DE OPINIÕES, A PACIÊNCIA E O RESPEITO PARA OUVIR O DIFERENTE. Depois temos a nossa formação, os nossos valores e o nosso discernimento para escolher. Por exemplo, no dia seguinte o rádio arrancou com música popular. Começou com “Graças a Deus o divórcio vai chegar” (credo!) e terminou com o grande Quim Barreiros a apelar ao consumo de lácteos: “Eu gosto de mamar nos peitos da cabritinha” . A essa achei piada, embora dispense o consumo de leite cru. Devemos sempre ferver ou pasteurizar primeiro! Por hoje é tudo, despeço-me com amizade!...

#carlosnevesagricultor

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publicado às 07:06

Qual é a cor do teu trator?🚜

por Carlos Neves, em 20.02.21

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“Os clientes podem escolher qualquer cor, desde que seja preto.” (Henry Ford, 1909)

Em 1989, depois do meu pai comprar o trator Lamborghini branco (agora é cinza) fui estudar para a Casa- Escola agrícola Campo Verde, localizada então na “Casa da D. Laura”, cedida pela junta de freguesia da Vila de S. Pedro de Rates e ao lado da velha igreja românica dessa localidade da Póvoa de Varzim. Nesse ano letivo, o principal tema de discussão entre os meus colegas eram as marcas de tratores. No ano seguinte foram as motas e no terceiro, os carros. :)
Ao lado da Escola, também à sombra da Igreja, em espaço provisório cedido pela paróquia, funcionava a Leicar, Associação de Produtores de Leite e Carne, nascida em 1986 e que teve um grande desenvolvimento com a formação profissional, nomeadamente com os cursos de “Operador de Máquinas Agrícolas” que permitiam obter a carta de condução de tratores.
Nós estávamos em regime de internato e alternância (uma semana na escola e duas em casa, a estagiar na empresa agrícola da família) e na escola, ao serão, os professores organizavam a “tertúlia” com a reza do terço, jogos, debates e convidados. Uma noite, o convidado foi um especialista em mecanização agrícola que estava a dar formação num dos primeiros cursos da Leicar e um colega mais afoito lá disparou a pergunta: “Qual é o melhor trator??” O senhor tentou contornar a resposta, dizer que todos eram bons, mas nós insistimos e ele acabou por dizer: “Um bom trator é o Jonh Deere”. E o meu colega exclamou: “Ui, tão feio!” E o senhor ripostou: “Porquê, vais para a cama com ele?” Rimo-nos todos e o serão acabou animado.
Na altura, os tratores “Jonh Deere” eram de facto diferentes no design (ainda não tinham lançado a série 6000) e estranhos aos nossos olhos, por haver poucos exemplares da marca na zona. Nem sei quem era o concessionário. A empresa que agora vende esses tratores verdes e amarelos vendia então os Renault, laranjas, marca entretanto comprada pela Claas, verde-clara. Dos tratores mais vendidos em Portugal, os vermelhos Massey-Ferguson, havia poucos exemplares porque o concessionário estava longe, em Paredes. Duas marcas pouco vendidas a nível nacional, as verdes Deutz e Fendt, tinham aqui muitos tratores devido ao bom trabalho dos concessionários locais. Isto tudo para dizer que o valor de um trator não depende apenas da sua tecnologia, preço e qualidade do material. Também depende muito da equipa de vendas, da confiança do vendedor (“levas e pagas quando puderes”), da prontidão da assistência e da proximidade.
Quem está fora da agricultura talvez não saiba que cada marca de trator tem uma cor, ao contrário dos carros, onde podemos escolher ao nosso gosto. Há apenas a exceção de uma marca, a Valtra / Valmet, que sempre deu opção de escolha das cores, e mais recentemente algumas marcas lançaram “edições especiais” a preto, como os modelo T do Henry Ford. Quem está fora do mundo agrícola também não faz ideia que cada marca de tratores tem os seus adeptos tão fanáticos como a politica ou futebol. Agora já não debatem na tertúlia e no recreio da escola agrícola, mas discutem da mesma forma apaixonada nos grupos de máquinas agrícolas do Facebook, que reúnem milhares de membros.
Oito anos depois da famosa tertúlia, em 1998 comprei o meu primeiro Jonh Deere (6210), depois um segundo em 2004 (5820), por troca do Lamborghini e este da foto (6534) há cerca de 4 anos. E vocês, se comprassem agora um trator, que cor preferiam?
#carlosnevesagricultor

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publicado às 07:38

Aceita um café?

por Carlos Neves, em 18.02.21

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Numa das "viagens da minha vida com vacas", ao Canadá, uma "genetics study tour by Semex", em cada vacaria que visitei havia café e bolinhos, e sabia muito bem, esse café quente com o frio que estava fora. 

Inspirei - me nesse exemplo para colocar uma máquina de café no escritório da vacaria e antes do covid já soube bem trocar duas palavras à volta de um café. 

Vendedores e visitas, nesta altura, só por mail ou telefone, mas quem venha fazer entregas ou algum trabalho tem café à disposição e à distância de segurança. Fica a dica para os colegas agricultores. As pessoas que andam na estrada para nos ajudar, que transportam o que compramos ou vendemos, precisam de continuar acordados 😉!

#carlosnevesagricultor

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publicado às 23:21

Duas histórias e um Lamborghini

por Carlos Neves, em 17.02.21

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Anda por aí a correr uma polémica porque Francisco Trincão, jovem português a jogar no FC Barcelona, comprou um “Lamborghini Huracan Evo”, um carro desportivo com 640 cv de potência e que terá custado 200.000 euros. Não se preocupem, parece que só gastou 3 meses de salário. Como escreveu o primeiro amigo que partilhou a notícia, o importante é que "não se espete”!

Este episódio lembrou-me que 10 anos antes do Trincão nascer e sem grandes polémicas, eu já conduzia um Lamborghini, com a diferença de ser o “674-70 DT”, ter apenas 70 cavalos e custar 5.000 contos. Por comparação, o nosso carro na altura era um “Ford Escort Laser” que custou 1.300 contos, mas o meu pai dizia que passava a semana toda a trabalhar no trator e só andava de carro ao domingo. Ainda hoje se critica o dinheiro que os agricultores gastam em tratores, mas conforto, segurança e tecnologia são fundamentais.

O nosso Lamborghini podia ser humilde e deu alguns problemas de mecânica (sobretudo a embraiagem, até a trocar pelo modelo de 90 cv), mas foi especial para nós e esteve ao nosso serviço 15 anos. Foi o nosso primeiro trator com tração às 4 rodas, cabine de segurança, ventilação e autorrádio. Estava dentro dele, a ensilar no “Campo da Bouça”, junto à fonte, quando os aviões enviados pelo Bin Laden atingiram as torres gémeas de Nova Iorque.

O mais extraordinário é que o negócio desse trator começou na Escola secundária José Régio, onde eu era colega de carteira do filho do então vendedor desses tratores. Nós pensávamos comprar o terceiro Massey Ferguson, o MF355 (Já tínhamos o MF 265 e o MF240, que foi trocado pelo Lamborghini) e estávamos na dúvida sobre comprar um Renault 65-14 (fomos experimentar na Serração onde começou a “Torre Marco”) e um Fendt 260. Eu perguntava ao meu colega os defeitos dos vários tratores, para discutir com os vendedores, ele contou ao pai dele e os nossos pais fecharam o negócio. A marca era pouco conhecida, mas havia um agricultor vizinho que tinha um Lamborghini, estava satisfeito e arriscámos.

Curiosamente, uma embraiagem também esteve na origem dos carros Lamborghini. Filho de agricultores italianos, Ferrucio Lamborghini começou a trabalhar como aprendiz de mecânico aos 14 anos. No final dos anos 50, o seu negócio de produzir tratores ia de vento em popa e o industrial comprou vários Ferrari, chegando a competir com eles em corridas ilegais. Contudo, havia um problema com a embraiagem de alguns modelos que Ferrucio resolveu adaptando a embraiagem de um dos tratores que fabricava. Quando foi contar a novidade a Enzo Ferrari, este respondeu “Podes saber conduzir os teus tratores mas não sabes conduzir um ferrari”. Ferrucio Lamborghini ficou de tal modo ofendido que decidiu contruir um carro melhor que o Ferrari e assim nasceu a Lamborghini Automobili e os seus famosos superdesportivos.

(foto de janeiro de 1990, "cortejos do Menino" em Árvore, Vila do Conde) 

#carlosnevesagricultor #lamborghini #trincão

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publicado às 06:59

Um Alqueva debaixo de terra

por Carlos Neves, em 16.02.21

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“Não me inveja de quem tem / Carros, parelhas e montes / Só me inveja de quem bebe / A água em todas as fontes”

 

A chuva que S. Pedro mandou para nos confinar e encher a barragem do Alqueva (e outras barragens do Alentejo e Algarve) é uma riqueza para uma região que sofre há anos com a seca. Aqui mais acima, à esquerda do mapa, no “Entre Douro e Minho”, não tivemos de fazer uma barragem e regadios como o complexo do Alqueva. Ao longo de milhões de anos, a orografia permitiu que os ventos marítimos, vindos do atlântico, entrando pelos vales dos rios Minho, Lima, Cávado, Ave e condensando a humidade ao subir por encontrar as serras, trouxesse a chuva que se infiltra na terra e se acumula nas reservas subterrâneas. Acho que a natureza nos deu uma espécie de “Alqueva subterrâneo”.

Não julguem, contudo, que a chuva é regular e a água fácil de encontrar. Não façam o mesmo ar de espanto que um ministro da agricultura fez, quando, no tempo em que representava os jovens agricultores, me queixei da seca e dos custos da rega. “Vocês aqui regam? Não vi pivôs…”!

´Para além das chuvas do inverno e primavera, que aproveitamos nas sementeiras precoces e que anda perto da superfície de alguns lameiros, a água que temos para regar os campos e dar de beber aos animais foi cavada a pulso e à bomba, ao longo de gerações, pelos nossos antepassados. Hoje fazem-se rapidamente “furos artesianos” mas antigamente cavavam-se poços, com e sem mina, ou apenas minas que serviam para limar os campos e levar água às casas.

A casa onde nasceu a minha mãe, em Rio Mau, Vila do Conde, ainda hoje é conhecida como “Casa da Fonte”, embora a fonte não a sirva. Não sei se foi o avô Figueiredo que mandou fazer a mina, mas foi ele que mandou fazer a fonte para servir o povo mais pobre do seco lugar chamado “Outeiro Figueira”. Quando eu era miúdo e ia trabalhar para o “campo da bouça”, que fica do outro lado do caminho, em frente à fonte, ainda via as pessoas a encher os carrinhos com cântaras, já não de barro, mas de plástico. E eu também lá bebi muitas vezes e soube-me bem. 

A fonte fica quase no extremo entre Rio Mau e Arcos, cerca de 50 metros a poente do “caminho do porto”, que agora é Caminho de Santiago. Não há qualquer indicação sobre a fonte no caminho nem há indicação se a água é própria ou imprópria para consumo, mas posso dizer-vos que continua a jorrar fresca e transparente da fonte até ao pequeno ribeiro que vem da serra de Rates e desagua mais à frente no Rio Este, que desce de Braga até abraçar o Ave quase junto a vila do Conde.

PS - A quadra é do meu tio, Álvaro Figueiredo, da Quinta da Cachada

#carlosnevesagricultor

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publicado às 13:45

Um nome para a toura?

por Carlos Neves, em 07.02.21

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Em Junho de 2020, no último aniversário do Luís, o avô Neves “comprou-me” uma vitela para o Luís e escolheu a 612, uma vitela “vermelha”. É uma red-holstein, da mesma raça das outras vacas que temos, mas com manchas vermelho-acastanhadas em lugar das manchas pretas. Na altura o Luís não deu muita importância a este presente e gostou mais dos carrinhos e dos outros brinquedos, mas agora está sempre preocupado em dar de comer “à minha toura”, como ele diz. E também dá comida às outras pois não é egoísta.

Durante muitos anos as nossas vacas tinham um nome, como podem ver nesses registos da década de 80. O primeiro apontamento, de 1981, é da minha mãe (aquilo foi a produção de cada vaca naquele dia, medida para o registo do “contraste leiteiro”). Em 1988 eu já partilhava os apontamentos da lista de partos e a produção do contraste já foi registada pelo contrastador.

Em 1988 começámos a identificar as vacas com número de casa em vez do nome. Além desse número, todas as vacas têm um número oficial, colocado num brinco. Antigamente esse brinco era de metal, agora é de borracha com código de barras e até já existe a tecnologia com opção chip, colocada num “bólus” que é um comprimido que os animais engolem e fica no estômago, mas a identificação oficial ainda é o número laranja de borracha. Há quem use os últimos 4 algarismos desse número como “número de casa”. Nós preferimos usar uma numeração nossa, um número sequencial.

Há quem acuse os agricultores de ter hoje menos respeito pelas vacas do que antigamente, por terem trocado os nomes por números. Falso. Não me vou esquecer da 33 (um dia conto a sua história) A razão para começar a usar números foi a compra de um computador rudimentar para dar o complemento de ração a cada vaca, lá por 1990, e esse computador só aceitava a identificação com números. Por outro lado, quando passámos de meia dúzia de vacas do antigamente para as dezenas ou centenas hoje em dia, é mais difícil continuar a usar nomes. Apesar disso, alguns agricultores ainda batizam os seus animais. E vocês, que nome acham que esta “toura” devia ter? Aceitamos sugestões. Depois o Luís vai escolher. Quem tiver indicado o nome vencedor terá como prémio o direito de usar o baloiço meia hora… depois da pandemia😁😀. 

#carlosnevesagricultor

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publicado às 08:19

Colhendo e plantando na estrada da vida

por Carlos Neves, em 05.02.21

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Quando vi os meus filhos a colher laranjas na árvore que o avô plantou, lembrei-me de um “diálogo online” que tive alguns dias antes, com um amigo facebokiano, perante uma foto de terreno mobilizado, algures no Alentejo. “Manutenção ou plantação?”, perguntei eu. “Estou a plantar sobreiros para os filhos dos meus netos”, respondeu-me com algum humor, algum exagero e muita verdade.

Percebo pouco de sobreiros, mas sei que é uma árvore de crescimento lento. Aliás, para os nossos padrões da vida atual, todas as árvores são de crescimento lento, mas os sobreiros abusam da lentidão.
Há poucos anos, li a história impressionante do Barão Bodo Von Bruemmer nascido em 1911 na Rússia, de ascendência germânica. Nos anos 60 do século passado veio para Portugal. Aos 95 anos de idade, iniciou a plantação de uma vinha em Sintra, Colares. Ainda provou o vinho, pois viveu até aos 105 anos, mas sobretudo deixou um legado aos descendentes e à sociedade.
Vivemos no tempo do imediato, do instantâneo. Carregamos no botão e ligamos o aquecedor, a luz acende, carregamos no telemóvel e tiramos uma foto, enviamos um e-mail ou partilhamos um vídeo em direto com o resto do mundo. Isto é fruto do progresso, e é muito bom, mas faz-nos falta reaprender a esperar, como quando tirávamos uma foto e esperávamos até ao rolo acabar e depois a revelação no estúdio de fotografia, ou quando vamos buscar lenha para a lareira e temos de acender pacientemente até aquecer ou plantamos um pomar e temos de esperar vários anos até ter fruto.
Faz-nos falta também esta perspetiva de sermos elos da cadeia da vida. Não somos o centro do mundo, nem o princípio nem o fim da história. Beneficiamos do que os nossos pais e avós plantaram. Semeamos agora o que os nossos filhos e netos irão colher. A vida já existia antes de nós e continuará depois. Somos passageiros temporários deste comboio. Espero que este postal vos dê serenidade para desfrutar da viagem…#carlosnevesagricultor

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publicado às 08:34

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