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Como manter ocupados os agricultores mais velhos?

por Carlos Neves, em 28.01.24

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Passou mais um Natal e passaram os anúncios comoventes que nos incentivam a comprar telemóveis para ligar às avós. É assim em Portugal e no resto do mundo. Tim May, um agricultor canadiano que sigo no facebook, como “Farmer Tim”, lembrou depois do Natal que “os bancos alimentares continuam a precisar da sua ajuda, os sem-abrigo continuam a precisar de apoio, os doentes continuam a sofrer e os solitários continuam a precisar de companhia.” 

Isto veio na continuação de outra publicação sua, antes do Natal, um texto fantástico sobre a situação do seu velho pai, limitado pela doença e sozinho após a morte da mãe: “Foi um ano de perdas para todos nós, especialmente para o meu pai. Perdemos uma mãe e uma avó, mas ele perdeu a sua esposa de quase 60 anos. Parte-se-nos o coração quando o ouvimos desejar-lhe boa noite ao passar pela sua fotografia a caminho da cama. 

A sua artrite debilitante tirou-lhe as liberdades num abrir e fechar de olhos. Deixou de conduzir, de cortar a relva, de plantar e de ir rapidamente ao seu restaurante preferido ou à igreja. O mundo que ele conhecia reduziu-se às poucas visitas que ocasionalmente aparecem e às mensagens de texto ou zooms que recebe nos seus dispositivos. 

Duas vezes por dia, os assistentes ajudam-no a tomar banho e a vestir-se - até comer é um desafio. É difícil acreditar que este foi um dos homens mais fortes que já viveu - pelo menos aos meus olhos. O trabalho era a sua vida e a sua quinta e família eram tudo para ele. 

O nosso celeiro está cheio de madeiras cortadas, secas e empilhadas. As pilhas de madeira eram o seu projeto de reforma que ele nunca irá terminar. Os arquivos de revistas de carpintaria e os armários de ferramentas acumulam pó. 

No entanto, mesmo nestes tempos difíceis, há esperança. Tenho-me esforçado por encontrar formas de o manter ativo no corpo e na mente. Depois do desfile dos Tratores de Natal passei com o carro alegórico por casa dele para lhe dar um espetáculo privado. Ele sorriu pela primeira vez desde há muito tempo. Ainda há pouco era ele que conduzia o nosso carro alegórico. 

Esta semana vi-o a escrever postais de Natal. Perguntei-lhe o que estava a fazer e ele respondeu: "Estou só a fazer o que a tua mãe faz todos os anos." A tradição e a rotina dão-lhe obviamente um sentido de vida. 

Hoje liguei-lhe da loja de ferragens para ir buscar a sua encomenda de material - fita-cola, fechos de correr e tubos de plástico para equipar o andarilho e a cadeira de rodas elétrica. Ele está sempre a mexer. O martelo e os pregos podem ser substituídos por cola e rolos de papel higiénico, mas isso mantém-no ocupado e seguro. 

Por isso, aqui fica uma pergunta para si. Que tipo de coisas podem sugerir para ajudarmos um velho agricultor? A mente dele é afiada, mas o corpo está partido. Nunca tomem as pequenas coisas como garantidas - a vida pode mudar num instante. Com amor para todos vós" (Tim May)

Nas respostas à publicação houve inúmeras sugestões que decidi selecionar, copiar e traduzir para aqui, na esperança que vos possa ser útil, para uso pessoal ou para alguém de quem sejam cuidadores. Não vou referir os nomes, mas poderão ver estes e todos os comentários na publicação do Farmer Tim antes do Natal de 2023.

“-Peça-lhe para gravar as suas memórias. Todos os seus sábios anos de agricultura, com a sua voz, seriam um tesouro. A sua ideia da melhor maneira de fazer o que ele fazia. Lembro-me de muita informação do meu pai, mas há muita coisa que nem sequer sei. Uso a sua sabedoria diariamente na quinta. Gostava de ter mais. Especialmente sobre as vacas e a terra. Abraços para si, é difícil vê-los não poderem fazer a única coisa que amaram e viveram toda a sua vida.

- O meu avô fazia reparações e devia ter várias patentes de coisas que inventou e transformou em vida real. Passou de dono do seu próprio negócio e de mecânico ocupado e respeitado a inválido assim que se reformou. Tornou-se um autêntico feiticeiro/mágico na costura/confeção dos projetos maiores e no trabalho do couro. As mãos ociosas são quando o diabo dança... por isso, mantenha-o ocupado e passe o máximo de tempo possível a ouvir e a amar. 

- Arrependo-me de não ter uma história da vida de meus pais. Há tanta coisa que nunca saberei. O teu pai estaria interessado em documentar a sua vida? Talvez haja alguém que o possa ajudar a fazer isso? É só uma ideia e há tanta coisa que se perde por estarmos demasiado ocupados com o nosso dia a dia.

- Com as minhas tias e tios idosos, escrevi perguntas num caderno. A escrita era difícil, por isso forneci um gravador. Talvez um telemóvel ou gravador digital. A chave para o sucesso está nas perguntas que podem dar início às memórias, e trabalhar a partir daí.... 

- Grave as histórias dele, transforme álbuns de fotografias em livros ilustrados, publique as receitas da sua mãe, leve-o a passear de carro, a tomar o pequeno-almoço, adicione controlos de alfaias agrícolas à cadeira dele, ponha música e sente-se a ver qualquer programa. Leia-lhe um livro ou arranje-lhe audiolivros, são apenas algumas ideias.

- Certifique-se de que todas as fotografias têm os nomes das pessoas que nelas aparecem. Ano aproximado em que foi tirada. Há sempre uma história que acompanha cada uma.

- O meu pai adorava passear de carro.

- Os jovens agricultores poderiam visitá-lo para obterem os seus conselhos, ficarão espantados com os seus conhecimentos e ele gostará de ajudar.

- O que fazer? Talvez haja um grupo de amigos também idosos viriam tomar café. Sei que isso implicaria uma organização da sua parte, mas se preparasse o café e se certificasse de que havia bolachas ou uma espécie de lanche, talvez a cozinha dele pudesse ser o ponto de encontro. Mantê-los envolvidos e ocupados mantém a mente ativa quando o corpo não o permite.

- Jogos online (pensar em baixa mobilidade e manter a mente ativa).

- Será que ele pode vigiar as vacas que estão para parir através das câmaras de vídeo? E outras áreas importantes da quinta?

- Depois de o meu pai, também ele agricultor, ter sido submetido a um triplo bypass, ficou bastante doente durante muito tempo. Comprámos-lhe um pequeno aquário com peixes dourados. Ele adorava estar sentado na sua cadeira a falar com eles e a alimentá-los. Não é exatamente o mesmo que trabalhar na agricultura, mas ele gostava de poder cuidar de algo novamente.

- Os comedouros para pássaros no parapeito da janela são divertidos (quando funcionam).

- Talvez construir uma horta de canteiros que ele possa aceder e trabalhar a partir da sua cadeira de rodas? A minha mãe gostava muito disso.

- Mantenha-o envolvido. Pergunte-lhe sempre a sua opinião sobre as coisas. Peça-lhe ajuda. Continue a fazer com que ele faça parte das decisões da quinta.

 - Procura alguém com quem ele se sinta confortável e lhe faça perguntas. Tenho a certeza que sabes quais são as perguntas certas. Façam um livro com fotografias e memórias, tanto para ele como para si. Ele pode pegar nele em qualquer altura e tu também. 

- As visitas provavelmente significam mais para o teu pai agora, tal como eu, que ajudo a minha mãe de 91 anos que ainda vive sozinha em casa, digo que ter família e amigos a fazer pequenas coisas como telefonemas e visitas significa mais para eles agora. Ver álbuns de fotografias antigas pode, por vezes, ser reconfortante. 

- Quando a minha mãe ainda era viva e estava confinada a uma cadeira de rodas devido à poliomielite, mas com a mente intacta, gostava de fazer puzzles com serras de recortes. Há alguns cortados com peças maiores, se isso o ajudar.

- Quando o meu avô ficou com Parkinson e já não podia trabalhar na agricultura, sentiu o mesmo que o seu pai. Estávamos sempre à procura de coisas para o manter ocupado. Ele adorava passear de carro e dizer-me quais eram as quintas, quem vivia e que tipo de agricultores eram. Tenho saudades desses passeios.

- Um gato para o colo dele!

 - Que tal uma história registada de todas as várias peças de equipamento agrícola de que se lembra ao longo dos anos. Aposto que ele se lembrará de quando e onde muitas peças foram compradas e das reparações que fez.

- Quando o meu pai estava no hospital, um vizinho usou o seu drone para captar imagens da quinta e/ou das colheitas para lhe mostrar, para que ele estivesse a par de tudo. Ele também gostava dos meus aquários quando não podia ajudar nas tarefas domésticas. Também está cientificamente provado que o ronronar de um gato reduz o stress e a dor, por isso talvez um gato de abrigo mais velho? Muitos deles são negligenciados por serem considerados demasiado velhos, mas ainda têm muito amor para dar!” (…)

Legenda da imagem: o pai de Tim May com o neto Andy

Tim é produtor de leite em Ontário, Canadá. Tem uma licenciatura em Ciência Animal pela Universidade de Guelph. Tem dois filhos e a sua mulher é veterinária. É apaixonado pela agricultura e pela educação do consumidor. Nos últimos 40 anos, a sua família tem recebido visitas de escolas, grupos de interesse geral e indivíduos. Foi das crianças da escola que recebeu a alcunha de "Agricultor Tim". Menos de 2% dos canadianos são agricultores. Os consumidores estão muito afastados dos agricultores que os alimentam. Não é de admirar que as pessoas tenham tantas dúvidas sobre a origem dos alimentos e a forma como são produzidos. Os agricultores têm dificuldade em lutar contra a desinformação que os consumidores têm de enfrentar todos os dias quando fazem escolhas alimentares. Se todos os agricultores divulgassem a sua história, os seus esforços contribuiriam muito para dar aos consumidores alguma paz de espírito. Tim afirma que todos que os agricultores também são consumidores. Nós somos o que comemos. Queremos nutrir o nosso corpo com alimentos saudáveis, por isso faz todo o sentido que façamos o mesmo por toda a gente!

(Escrito para o Mundo Rural de Janeiro e Fevereiro de 2024)

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publicado às 20:57

Análises de terra 2024

por Carlos Neves, em 13.01.24

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“Nós não herdamos a terra dos nossos pais, recebemo-la emprestada dos nossos filhos”. Um ditado que o meu pai gostava de repetir e de que me lembro sempre quando tenho de colher amostras de terra para analisar o solo, preparando as culturas da próxima primavera.

O tempo incerto com frio, chuva, constipações e outras atividades concorrentes não permitiu levar os miúdos a todos os campos mas ainda consegui colher algumas amostras em conjunto.
Como expliquei noutros anos, em cada parcela de terreno, caminhamos em zig-zag, levando uma sonda com um tubo metálico que se espeta no solo até 20 cm, se roda e retira para colher uma pequena amostra. As amostras dos vários pontos juntam-se no balde e depois são colocadas num saco, devidamente etiquetado, que os técnicos encaminham para o laboratório de solos. O objetivo é saber como evolui o pH do solo, o teor de matéria orgânica e de alguns nutrientes como fósforo, potássio, magnésio e manganês…

As análises regulares ao solo e o aconselhamento técnico permitem-nos escolher o adubo e calcular a quantidade a aplicar, consoante o estado do solo e as necessidades da cultura, o que protege o nosso rendimento e o ambiente, porque o excesso de adubo iria causar poluição.

Cultivamos a terra ao longo de gerações. O objetivo de todos os agricultores é melhorar e conservar o solo. Deixar a terra o melhor possível para os que vierem a seguir.

#carlosnevesagricultor
#agricultura
#solo

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publicado às 17:13

Antigamente não era melhor

por Carlos Neves, em 29.12.23

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Numa recente publicação da minha página do facebook sobre o percurso do leite desde a vaca até à fábrica, perante o relato de como decorria o processo de recolha do leite há 60 anos, sem refrigeração e pasteurização, alguém comentou:  “Bons tempos. Agora já nem sei se é leite que bebo". Não respondi na altura, porque este pensamento, muito comum, precisa de uma resposta mais longa e fundamentada.

O valor de uma coisa depende da quantidade em que existe no mundo, da quantidade que temos e da falta que nos faz (no fundo, da oferta e da procura). Ouro e diamantes valem muito porque são raros, mas se estivermos numa estrada do deserto e longe de tudo, uma garrafa de água vale mais do que ouro nesse momento.

Quando temos fome, damos valor aos alimentos. Quando sentimos que existe risco para a saúde, damos valor à segurança dos alimentos. Na nossa sociedade, no “mundo ocidental”, temos fartura. A maioria das pessoas tem dinheiro suficiente para comprar comida e tem a poucos metros de casa ou à distância de um clique uma enorme variedade de alimentos seguros e controlados, mas também tem saudades da sua infância passada no campo onde viveram os seus avós e tem saudades porque era mais jovem, tinha mais saúde, mais sonhos e mais anos de vida pela frente, mas a vida não era mais fácil e o leite não era melhor.

Antes de haver máquinas de ordenha, tanques frigoríficos para guardar o leite e fábricas para pasteurizar e tirar gordura do leite, as vacas eram ordenhadas à mão, em cima do estrume, debaixo de pó e o leite era transportado em bilhas de metal levadas por carroças, sem arrefecer, até à fábrica ou ao consumidor da cidade. Na primeira metade do século XX, a qualidade da leite era tão baixa que surgiram em Portugal modernas vacarias ou “lactários” dentro das cidades, promovidas por benfeitores ou pelas autoridades, para alimentar as crianças mais pobres com leite melhor do que era levado do campo pelas leiteiras, as senhoras que transportavam e vendiam leite. Não havendo cadeia de frio, era preciso adicionar algum conservante ao leite. Não havia análises. Muitas crianças nasciam mas não sobreviviam até à idade adulta por causa da fome e de doenças de origem desconhecida, muitas vezes devido à falta de higiene.

Hoje as vacas são criadas em modernos estábulos muito melhores do que os velhos “aidos”. Têm acompanhamento veterinário. São obrigatoriamente controladas para as doenças que se podem transmitir aos humanos . São ordenhadas com máquinas de ordenha que se lavam automaticamente com água quente e detergente. O leite é imediatamente arrefecido, armazenado no tanque frigorífico e transportado em camiões isotérmicos até à fábrica onde não pode entrar sem ser analisado para garantir que não tem resíduos de antibiótico. É filtrado, homogeneizado, pasteurizado ou ultrapasteurizado para eliminar as bactérias patogénicas e podem tirar-lhe uma parte da gordura. É colocado em embalagens esterilizadas e não leva conservantes, podendo dispensar a conservação em frio no caso do leite UHT. É certo que nesse processo perde algum sabor, mas é mais fácil, mais barato e mais cómodo de transportar, conservar  e consumir. É a forma mais razoável de oferecer o leite ao consumidor de forma segura e económica.

Houve uma evolução equivalente na produção da manteiga, do queijo e dos iogurtes. Mantém-se e recuperam-se produtos artesanais e todos os dias surgem novidades no mercado. Apesar de todos os ataques ao “leite” por parte de quem pretende ocupar o “espaço no estômago” com outros produtos mais caros e menos nutritivos, os corredores de supermercados têm uma variedade enorme de leite para beber, de queijos, de iogurtes e agora recentemente muitos produtos à base da proteína do leite. Produzimos um alimento com 10.000 anos de história e temos motivos para dar valor a toda a evolução, toda a tecnologia e toda a gente que trabalha na cadeia do leite para oferecer ao consumidor toda esta variedade de alimentos com mais controlo e segurança alimentar do que existia “antigamente”.

Publicado em https://vacapinta.com/es/hemeroteca/vaca-pinta-42.html



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publicado às 22:35

Um vídeo de Natal que vale a Pena ver

por Carlos Neves, em 22.12.23
Vídeo de Natal do Projeto LEITE É VIDA e da APROLEP - Associação dos Produtores de Leite de Portugal
Protagonizado por jovens produtores de leite de Barcelos, Famalicão e Vila do Conde.
https://www.youtube.com/watch?v=4K5LAskNIHc 

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Feliz Natal das nossas famílias para as vossas famílias.
Que este Natal seja recheado de amor, saúde e paz.
Nós, produtores de leite, vamos continuar a fazer o nosso melhor para alimentar os portugueses. Festas Felizes!

 

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publicado às 14:00

Ajudar quem me ajudou

por Carlos Neves, em 04.12.23

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Ao longo do ano, fui partilhando nas minhas páginas das redes sociais (“carlosnevesagricultor” no facebook, instagram, web e youtube) imagens dos meus trabalhos agrícolas. Na época de colheita do milho para silagem, tenho mais trabalho, mais motivos para fotografar e mais imagens para partilhar. 

Em certas ocasiões, coloco a legenda “ajudar quem me ajudou”, para não enganar as pessoas que ficariam a pensar que eu cultivo uma centena de hectares e nunca mais acabo de colher. Fico surpreendido pelos comentários e elogios que recebo, como se fosse caso raro. Será que a colaboração entre agricultores é um exclusivo da minha região?

Antigamente, as desfolhadas, as vindimas e outras colheitas eram motivo de convívio entre agricultores com as suas vastas famílias ou equipas de trabalho. Depois, há 50 anos, as desfolhadas foram trocadas pela silagem individual feita com os pequenos tratores e máquinas que cortavam uma linha de cada vez, e cada família de agricultores passou a guardar o seu milho...

Conforme escrevi num texto sobre a silagem de milho, “uma das primeiras memórias que tenho com trator é de ir ao colo do meu pai a cortar silagem, devia ter 5 anos. Nesse tempo a silagem exigia-nos “abrir caminhos à foucinha” antes de poder entrar com o trator (não se deixavam caminhos de rega no meio dos campos) e meter esse milho “à posta” para dentro da máquina – trabalho duro e moroso, agravado num ano de inverno precoce que nos obrigou a cortar dois lameiros assim, com a foucinha e levar manualmente para a máquina. Foi com essa máquina que comecei a ensilar. Como eu ainda era pequeno a minha mãe andava comigo no trator a ajudar e o meu pai transportava a silagem. No silo, outra trabalheira, a silagem era espalhada com ancinhos e forquilhas antes de ser calcada com o trator que, aprendemos todos mais tarde, também serve para espalhar sem precisar de ganchos e forquilhas.

Era com uma dessas máquinas que andava a ensilar a 11 de setembro de 2001, quando caíram as torres gémeas em nova Iorque. Nesse ano já só ensilei um campo mais distante dessa forma, porque desde o ano 2000 que passámos a recorrer à prestação de serviço de corte de silagem com automotriz. Nessa altura os vizinhos receberam a “novidade” com críticas e desconfiança, mas rapidamente se renderam e aderiram. Agora fazemos num dia o que demorava um mês antigamente.

Trocar as pequenas máquinas de ensilar pelas grandes automotrizes de cortar milho exigiu chamar novamente os vizinhos agricultores com vários reboques para ajudar na colheita. Já não vem toda a aldeia à procura do milho rei, mas como agora somos poucos agricultores, vem quase todos os agricultores de cada aldeia... e depois cada um de nós vai com o reboque ajudar a recolha da silagem do milho dos vizinhos que nos ajudaram... ou da silagem de erva... e da "festa" da desfolhada de antigamente passámos para um almoço-convívio de trabalho, na casa de casa um ou no restaurante mais próximo.”

No último desses almoços de silagem deste ano de 2023, numa mesa de restaurante reservada como “lavrador – 8 pessoas” (achei este detalhe delicioso como a comida), aqui numa freguesia vizinha, fiz uma sondagem e confirmei que 90% dos agricultores dessa freguesia colhem o milho para silagem desta forma, em equipa, em “sociedade”.

As “sociedades de silagem” procuram-se constituir entre agricultores de proximidade, amizade, família e dimensão aproximada (não seria justo pedir ao vizinho para me ajudar a guardar 20 hectares em dois dias se ele apenas vai precisar da minha ajuda em metade da área e do tempo). 

Trabalhar desta forma permite-nos conviver (muito importante para quem passa muitas horas sozinho no trator ou com os animais), aprender formas diferentes de executar as tarefas rotineiras e rentabilizar o equipamento que temos (tratores e reboques). Trata-se de um negócio de “troca direta”, não é uma forma de solidariedade como acontece quando alguém é vítima de uma doença, de um acidente ou tempestade em que os vizinhos se juntam para ajudar.

As opções de fazer a silagem sozinho com o equipamento que já temos ou contratar a prestadores de serviços o “trabalho completo” da silagem também são igualmente legítimas, respeitáveis e podem ser economicamente as mais corretas. No imediato, fica mais barato pagar todo o trabalho do que investir num trator e num reboque grandes que vão trabalhar poucas horas. Além disso, nas horas em que vamos trabalhar para os vizinhos deixamos para trás o cuidado dos animais e outras tarefas necessárias. São tudo fatores a considerar, todas as opções são legítimas e devemos ponderar e respeitar as escolhas que cada agricultor faça em liberdade. Há muitas regras que os agricultores são obrigados a respeitar, por causa do ambiente, das alterações climáticas, da segurança alimentar e do bem-estar animal, regras obrigatórias para receber as ajudas da PAC, mas na forma de colher o milho ainda podem fazer escolhas como empresários livres! Boas colheitas, bons trabalhos, bons convívios, com os colegas, com os amigos ou com a família. E boas festas!

(escrito para o Mundo Rural Novembro Dezembro 2023)

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publicado às 19:23

Os tostões da agricultura e os milhões da CEE

por Carlos Neves, em 18.11.23

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Antigamente todos eram agricultores ou vizinhos de agricultores. Hoje os consumidores estão cada vez mais distantes dos agricultores e nós, agricultores, temos de comunicar com eles para mostrar como cultivamos a terra e criamos os animais para produzir os alimentos que eles precisam de comprar e nós precisamos de vender. Precisamos uns dos outros.
Mostrar o trabalho na agricultura implica mostrar máquinas e tratores. Os vídeos com as máquinas em funcionamento despertam atenção e a mecanização da agricultura tem já uma longa história de que nos podemos orgulhar e que devemos mostrar. Para apresentar um exemplo dessa evolução, divulguei um pequeno vídeo com os tratores da minha empresa agrícola: Uma relíquia de 1963, um clássico de 1980 e os quatro tratores mais recentes de 1998, 2004, 2017(usado de 2010) e 2022 (usado de 2019).
Entre muitas reações positivas, tive uma questão em jeito de provocação: “Esses tratores foi você que comprou ou foi a CEE?” E eu lá respondi que os dois mais velhos foram comprados pelo meu pai antes de Portugal aderir à CEE, para o terceiro recebi um apoio de 25% dois anos após a minha instalação como jovem agricultor e os últimos três (sendo os dois últimos em segunda mão) foram comprados sem apoios ao investimento. As pessoas ouvem falar de muitos milhões e depois pensam que isto é tudo oferecido.
Num mundo ideal os agricultores recebiam sempre um preço justo pelos produtos capaz de cobrir os custos de produção e remunerar o trabalho e o capital investido de modo a permitir novos investimentos. No mundo ideal também não havia guerras, fome, seca ou inundações.
No mundo real, houve fome na Europa depois da segunda guerra mundial. Por isso foi criada a União Europeia e a Política agrícola comum com apoios à produção para acabar com a fome. Quando a PAC (a única política verdadeira europeia que se sobrepõem às políticas nacionais) permitiu à Europa trocar a fome pela fartura, foi necessário controlar a produção, apoiar as perdas de rendimento dos agricultores e incentivar os jovens a investir e fixar-se na agricultura. Hoje as ajudas da União Europeia estão orientadas para manter a agricultura protegendo o ambiente e evitando as alterações climáticas.
Sempre que há problemas no setor, naturalmente os agricultores queixam-se e os governos anunciam “milhões” para ajudar e anunciam várias vezes esses “milhões”: Quando decidem a ajuda, quando publicam a lei, quando abrem as candidaturas e quando entregam as ajudas. E os cidadãos europeus, com a “barriga cheia” de comida barata que a PAC permite, revoltam-se e invejam os “milhões” dos agricultores. Esquecem-se que também os avós deles foram agricultores ou descendentes de agricultores, mas deixaram o setor porque era duro e dava pouco rendimento, foram à procura de uma vida melhor na cidade ou no estrangeiro e os “milhões” não são suficientes para fazer os netos voltar para a “aldeia” e para a “lavoura”.
Os “milhões” da CEE, agora UE, União Europeia, não ficam no bolso dos agricultores. Servem para pagar os fatores de produção e as despesas com colheitas e sementeiras. Quando sobra algum, ou mesmo quando não sobra mas tem que ser, servem para ajudar a comprar os tratores e máquinas de que o agricultor precisa. Ou as reparações das máquinas. Ou as obras nos estábulos para melhorar o bem-estar animal, ou os novos equipamentos de rega ou qualquer outro equipamento. O “dinheiro da agricultura” vai para a economia rural, para pagar os braços que ajudam os agricultores de hoje a produzir mais do que produziam os antigos com muito mais gente disponível. Quando esse dinheiro falta ou se atrasa, falta para todos.
A cada sete anos, a Europa faz uma revisão da PAC, arrastam-se as negociações e a nova PAC que resulta nunca é o desejado mas costuma ser um pouco melhor do que a proposta inicial. Devemos um agradecimento a todos os que trabalham ao longo dos anos nessas difíceis negociações.
A PAC evoluiu e tem agora um conjunto de eco-regimes para proteger o ambiente. A intenção era boa, mas o resultado foi complicado de colocar no sistema informático onde se fazem as candidaturas. Veremos como será a implantação no terreno. Uma dificuldade que se começa a notar são os terrenos sem contrato de arrendamento ou mesmo contrato de comodato, mesmo sem renda declarada. Por diversos motivos, por questões familiares, por medo de perder a terra, muitos proprietários tem medo de assinar papeis a declarar a cedência da terra e assim não é possível cumprir as regras dos ecorregimes ou receber a ajuda direta por milho grão ou milho silagem. A produção de leite, de milho e em geral todas as produções agrícolas são negócios de “tostões” sujeitos a muitos imponderáveis do clima e do mercado e não podemos desperdiçar as ajudas que tanto trabalho deram a negociar. Ficamos com a fama dos “milhões” e sem o proveito.
(escrito para a edição anual da Revista Agrotejo nº 33 - Novembro 2023)

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publicado às 21:34

Produzir leite com robô - reportagem para TV Agro - Colombia

por Carlos Neves, em 10.11.23

 

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Nos primeiros dias de abril dei uma entrevista a um canal de televisão da Colômbia que veio à Europa, a TV AGRO Te acerca al campo, mostrando a produção de leite. É uma espécie de "TV Rural" da América Latina no século XXI. As imagens com drone estão muito boas e o resultado é uma boa síntese da mensagem que eu queria passar. O vídeo completo, com 25 minutos, está disponível aqui: 

https://www.youtube.com/watch?v=BnpELuH1VLk&t=293s

"Senhores telespectadores, despeço-me com amizade"... Até à próxima publicação.

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publicado às 19:35

Desviar o olhar do objectivo inicial

por Carlos Neves, em 05.11.23

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Na edição 41 da Revista Vaca pinta, Xabier Iraola Arrigezabala escreve um artigo de opinião que todos os agricultores e responsáveis cooperativos e associativos deviam ler e meditar, para melhorar, sem receio de que seja uma “boca” dirigida a si ou um texto de alguém com ambição de ocupar algum cargo em Portugal. Vou partilhar aqui um resumo. O texto completo e original de “Desviar la mirada” está disponível online na “portada” da Vaca Pinta.

Xabier diz-nos: “Li com espanto o relatório sobre as perspetivas do efetivo pecuário para 2031, elaborado pelo Conselho das Câmaras de Agricultura de França, que prevê uma diminuição assustadora do número de bovinos. Segundo o relatório, o efetivo de vacas em aleitamento (…) vai reduzir 33% e o rebanho leiteiro 22%.
(…) Haverá quem pense que a queda do número de cabeças será compensada pelo melhoramento genético. Na minha opinião, até eles sabem que nem o melhoramento genético, que é necessário, compensará o desaparecimento das explorações agrícolas nem a redução drástica do efetivo pecuário.
Receio, no entanto, que os responsáveis pelas estruturas cooperativas, comerciais e industriais, em vez de se preocuparem com o futuro dos criadores de gado, estejam, de facto, alarmados com o seu próprio futuro.” (…)
Xabier considera que a situação em Espanha é igual, tendo em conta o envelhecimento do setor agrícola. E eu acrescento que Portugal está igual ou pior. Continua Xabier: “O alarme está a soar nos gabinetes de algumas destas estruturas e algumas consideram, como as grandes empresas alimentares, que, para manter as suas instalações de produção no máximo rendimento e o seu pessoal intacto, devem descer ao campo, comprar explorações agrícolas e/ou estábulos e contratar mão de obra, o mais barato possível, a fim de obterem as matérias-primas com que podem manter a sua estrutura e os seus compromissos comerciais com os seus clientes e, em particular, com as grandes cadeias de distribuição.
Neste momento, mais do que um de vós pode perguntar-se por que razão chegámos a este ponto em que temos uma rede agroalimentar cooperativa, comercial e industrial que funciona, enquanto a rede produtiva constituída por milhares de agricultores e criadores de gado que fornecem as cooperativas, as empresas comerciais e industriais está a diminuir gradualmente, mas sem parar, e, o que é pior, ninguém consegue ver uma saída para a situação.

A razão para tal, na minha modesta opinião, (…) é que os objetivos fundadores de muitas estruturas, de criar valor acrescentado para o produto e, assim, transmiti-lo aos produtores que dão sentido à cadeia, passaram para segundo plano e, por isso, atualmente, o que prevalece são os interesses e as prioridades dos funcionários e dos gestores destas estruturas e não os interesses dos criadores de gado, os compromissos com os clientes prevalecem sobre os compromissos com os fornecedores que são os seus agricultores, a saúde financeira das estruturas prevalece sobre a microeconomia das explorações e a manutenção do pessoal das estruturas prevalece, mesmo que seja à custa da redução drástica do sector pecuário.
Em suma, o que está a acontecer é porque desviámos o olhar do objetivo inicial e porque, ano após ano, ignorámos o produtor. É tempo de olhar os agricultores nos olhos."

https://vacapinta.com/es/opinion/desviar-la-mirada.html

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publicado às 11:01

Se o Ronaldo e o Pepe fossem agricultores ainda eram jovens

por Carlos Neves, em 29.10.23

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Esta semana Pepe tornou-se o mais velho jogador de campo a atuar na Champions. Tem 40 anos. Ronaldo tem 38 e dizem que está velho, mas marcou mais uns golos lá nas Arábias. Chamar velho a um “rapaz” que tem menos 10 anos do que eu faz-me impressão. Deve ser da idade…

 

Há alguns anos (ia escrever muitos, mas isso faz-me velho), no programa “Parabéns” que tinha na RTP, Herman José, para celebrar Alfredo Marceneiro, entrevistou um neto do fadista.

- O que faz na vida?

- Sou reformado do cinema. 

- Que idade tem?

- 48.

- Se fosse agricultor ainda era jovem!

 

Herman exagerou, mas pouco. Em Portugal podemos ser “jovens agricultores” até aos 40 anos. Isto significa que podemos “instalar-nos” ou melhor, apresentar ao Ministério da Agricultura um “projeto de instalação e investimento” até ao dia anterior a completar 41 anos. Depois de muita burocracia e com a formação exigida, podemos receber um “prémio de instalação” a fundo perdido, uma majoração nas ajudas e prioridade no acesso a essas ajudas. No meu tempo (valha-me Deus, já pareço mesmo um velho a falar) eram 30.000 euros e 10% de majoração, não sei quanto é agora, mas não deve ser suficiente para o Pepe e o Ronaldo se “reformarem” do futebol.

 

Há algumas razões para este limite de “40 anos”, quando se costuma considerar 30 anos a idade limite para ser “jovem”. Isto foi um pedido à Europa dos países do Sul, porque a instalação de um jovem agricultor ocorre por sucessão, portanto é preciso esperar que o pai se reforme.

Em Portugal os agricultores costumam ser como as árvores – morrem de pé. Trabalham até não poder mais. Isto acontece por necessidade, porque as pensões de reforma são muito baixas, mas às vezes também por teimosia, por quererem continuar a mandar na empresa agrícola até não poder mais. Deixar o “poder” é difícil. Preparar essa transição é um desafio.

 

Eu instalei-me como 21 anos, tive estatuto de “jovem agricultor” até aos 26 e ter o meu pai por perto, umas vezes a aconselhar-me, outras vezes irritado por eu tomar decisões diferentes,quase sempre a ajudar-me, foi um grande desafio mas foi muito importante para chegar até aqui.

 

Só 4% dos agricultores portugueses tem menos de 40 anos. Por causa das dificuldades da instalação mas sobretudo porque os jovens não veem na agricultura uma atividade rentável. Penso que somos o país com os agricultores mais velhos da Europa. Isso é bom, é sinal que duramos muito, mas é mau porque faltam jovens. Preparar esta renovação é um desafio que temos de assumir, fazendo a nossa parte. Voltarei a este assunto, quando for mais velho. Quando alguém era “muito novo”, o meu pai dizia "isso é um defeito de que a pessoa se corrige todos os dias".

#carlosnevesagricultor

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publicado às 11:51

Uma vaca especial

por Carlos Neves, em 28.10.23

20231028_080034.jpg

Em conversa, há alguns dias, alguém me sugeriu a hipótese de lançar novas bebidas com leite e a propósito disso eu lembrei-me de uma velha história😀:

Num convento, a madre superiora, já muito velhinha, estava doente, acamada e deixou de se alimentar.
Numa noite em que estava pior e todas as freiras já estavam à sua volta, uma irmã levou-lhe um chá mas ela nada bebeu. No regresso à cozinha, essa irmã lembrou-se de uma bebida (não sei se era bagaço ou vinho do Porto) que o pai lavrador lhe tinha mandado, aqueceu um copo de leite, juntou a bebida e levou à doente. Deu-lhe a provar, primeiro umas gotas, depois uma colher... A doente abriu os olhos, sentou-se no leito como não fazia há muito tempo, bebeu tudo consolada e mostrou vontade de falar. As irmãs prestaram muita atenção àquelas que podiam ser as últimas palavras:
- Minhas filhas, nunca vendam esta vaca!!!😅😅😅

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publicado às 10:45


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