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É urgente comunicar agricultura

por Carlos Neves, em 22.02.20

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“O que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética... O que me preocupa é o silêncio dos bons.” (Martin Luther King)

Sabem aquela sensação de estar a ver a nossa equipa de futebol a sofrer golos e não mudar de tática de jogo? É assim que me sinto muitas vezes a ver a agropecuária a perder o jogo da comunicação com os movimentos ativistas para quem os criadores e as suas vacas são culpados de todos os males – depois do “bode expiatório” do antigo testamento temos as “vacas expiatórias” do século XXI. Não é um jogo fácil. De um lado somos amadores em comunicação (agricultores e técnicos) e do outro estão ativistas focados em comunicação permanente.

Os produtos da agricultura e pecuária que hoje chegam ao prato do consumidor são mais seguros e produzidos de forma mais eficiente do que há 100 anos. Produzir um kg de carne ou um litro de leite da moderna agricultura precisou de menos água, terra e energia. Isso é o resultado da investigação, do aconselhamento técnico e da execução profissional e cuidada no cultivo das plantas e criação de animais. Essa evolução deve ser comunicada aos consumidores.

É preciso entender que a comunicação é uma ciência que exige estudo e investimento no trabalho de profissionais. Investimos milhões em investigação, investimos milhões em máquinas e construções para cuidar dos animais com o máximo bem-estar seguindo a informação científica disponível e depois tudo o que fazemos é arrasado num documentário manipulado que não fomos capazes de prever e ao qual não somos capazes de responder de forma eficaz. A comunicação é uma ciência em que devemos investir.

A comunicação deve ser profissional, mas também autêntica e verdadeira. Temos de mostrar a realidade do cultivo dos campos, a criação das vacas, o rosto de agricultores e não apenas bonitos atores em prados de sonho orientados por publicitários para mostrar um ideal que os consumidores desejam mas não existe.

É importante sermos os primeiros a comunicar. Quem já visitou uma vacaria, quem souber como os agricultores normais trabalham e cuidam dos animais não vai acreditar no primeiro documentário manipulado que lhe mostrarem. Pelo contrário, se a primeira impressão for má será muito difícil retomar a confiança dessa pessoa que criou preconceitos.

A nossa comunicação tem de ser permanente como são permanentes os ataques á nossa atividade. Não basta escrever um comunicado em cada crise ou fazer uma campanha de comunicação a cada 5 anos. É preciso ter bons porta-vozes sempre disponíveis e num trabalho permanente.

A comunicação no século XXI está tão segmentada como um bolo de bolacha. Antigamente as guerras ganhavam-se na terra, no mar e no ar. Agora temos de travar a luta da comunicação em todos os níveis – nos jornais, na rádio, na televisão, nos documentários e nas várias redes sociais, do Facebook ao Instagram passando pelo Twitter e WhatsApp.  

Discutir com fanáticos é tempo perdido, mas denunciar mentiras é uma obrigação para proteger outros de serem enganados. Em Portugal dizemos que “onde há fumo há fogo”, mas também pode ser fumo artificial dos concertos de música, artificial e falso como a carne sintetizada em laboratório ou as bebidas que tentam imitar o leite. Ou pode ser o Lewis Hamilton a queimar pneus e gasolina na fórmula 1 depois de parar de comer carne para “proteger o ambiente”.

No futebol, se jogamos sempre à defesa no nosso campo arriscamos perder o jogo. Também devemos jogar ao ataque e no campo do adversário. Que interesses tem quem nos ataca? Quem ganha com a nossa desistência? Que subsídios procuram? Quem lhes paga? De que vivem? Que erros já cometeram? Quando foram apanhados a mentir? Quantas pessoas deixaram de comer carne e peixe e voltaram depois a uma dieta normal porque tiveram problemas de saúde? Quantas crianças já ficaram doentes ou morreram porque os pais lhes restringiram a dieta e até foram condenados em tribunal por isso? No futebol, não é tarefa do guarda-redes nem dos defesas fazer o ataque. Também esta tarefa de jogar no campo do adversário não compete aos agricultores, mas alguém a deve fazer, pelo bem de todos – da agricultura, do meio rural, do ambiente e da saúde da população.

Nós, agricultores, podemos usar as redes sociais para comunicar. Faço isso no meu blog  “Carlos Neves Agricultor”, no Facebook com o mesmo nome e no IInstagram. Outras páginas do Facebook que recomendo: “Agricultora, Veterinária e Mãe”, também aqui de Portugal. “Farmer Tim”, no Canadá; Farm Babe, nos Estados Unidos.

Sejamos positivos! A maioria da população está connosco, respeita o nosso trabalho e só precisa que saibamos ouvir as suas questões e responder sem mentir, ser agressivos ou desistir. Segundo um inquérito de 2019, 99,8% das pessoas continua a comer carne e peixe. O resto é muito ativismo, muito barulho e pouco conteúdo. Estamos a ganhar o campeonato da alimentação e podemos ganhar o jogo da comunicação.

(artigo publicado no nº 15 da revista vaca pinta)

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publicado às 18:00

Mau ambiente no debate ambiental

por Carlos Neves, em 18.02.20

IMG_20200218_132040.jpgAndou exacerbado o debate ecológico nos últimos meses. Vi muita raiva e pouco amor, muito acusar e pouco fazer, muita ignorância e falta de gratidão pelo que foi feito, muita greve e pouco estudo, muita arrogância e pouca humildade, muita discussão a favor e contra a Greta Thumberg e pouca vontade de procurar consenso e avançar.
Gostaria, por exemplo, que os jovens e menos jovens que tiraram os seu tempo para limpar as praias que ficaram cheias de lixo após a tempestade Elsa tivessem o mesmo destaque mediático de quem fez “greve climática”. E que a luta por um mundo mais limpo e ecológico não seja usada só para atacar “a América” ou “o capitalismo”. Houve bombas atómicas e desastres ecológicos em todos os regimes políticos, nenhum sistema político ou económico tem as mãos limpas, mas, ainda assim, nos países com “capitalismo”, democracia e crescimento económico temos menos fome, controlamos o crescimento da população, temos mais cuidado com o ambiente e podemos manifestar-nos e discutir isso. O mesmo não acontece nos países onde não há “capitalismo”, como a Coreia do Norte ou Cuba…
Não nego as alterações climáticas nem a urgência de corrigir erros. Mas desde que a terra é terra e somos uma sociedade civilizada, os avanços conseguiram-se com estudo e trabalho, com a gente que passa horas na biblioteca, em frente ao computador ou no laboratório à procura de soluções ou no cimo das chaminés das fábricas a colocar filtros de partículas. Há uma injustiça e uma ignorância enormes em certas acusações de quem acordou há meses, face a quem fez o melhor que soube e pôde para deixar um mundo mais confortável para quem veio a seguir, face a quem trabalha há muitos anos a controlar e reduzir as emissões dos automóveis ou das fábricas, ainda que se tenham cometido erros e excessos.
«Nem todo aquele que diz “Senhor, Senhor”, entrará no Reino do Céus». Nem todo aquele que enche a boca com o ambiente, o verde, as energias renováveis, está a ser “ecológico” de corpo e alma. Também pode haver boa intenção sem conhecimento, também pode haver interesses económicos por trás das energias renováveis como há por parte das energias fósseis. Não acuso, não digo quer há, peço prudência na avaliação. Não existe um céu para empresários, engenheiros e funcionários das renováveis e um inferno para o pessoal das petrolíferas. As senhoras que fazem a limpeza ou os senhores que fazem a manutenção da central nuclear, da central termoelétrica a carvão, de biomassa ou de painéis solares, não são mais santos ou impuros por causa disso, são gente como nós que trabalha para alimentar e abrigar a família e sonha com um futuro melhor para os filhos.
Um exemplo que me intriga é o plástico. Quase de repente, o plástico tornou-se o último cavaleiro do apocalipse. Quase de repente apareceram imagens terríveis de ilhas de plástico no mar, de baleias com toneladas de plástico no seu interior, rios forrados de lixo plástico nos países subdesenvolvidos… a solução? Sacos de papel no supermercado, palhinhas de papel nos pacotes de sumo… se eu fosse dado a teorias da conspiração, diria que a indústria do papel está por trás disto, para compensar a redução do uso do papel nas cartas, faturas e jornais… Mas deixo três perguntas para refletir:
1) Li que a maior parte do plástico no mar são restos de material de pesca… que estamos a fazer para reduzir esse problema?
2) Quando substituímos o plástico por papel, vidro ou algodão, estamos a comparar os custos ecológicos alternativos, oo peso superior do vidro, da lavagem para reutilizar? Até acredito que sim, mas nunca vi explicar isso…
3) Em vez de culpar “o plástico”, como se tivesse vida própria, porque não condenamos e combatemos com toda a força o pecado de deitar plástico para o chão ou para os rios? O plástico não sabe nadar, não sabe andar nem voar, não vai sozinho para o mar… se for papel já podemos ser “porcos” à vontade? Bem dizia um grande amigo que “a culpa é sempre dos porcos” e não se referia aos suínos…
Retomo a minha proposta para um futuro mais ecológico e sustentável: mais amor e menos raiva, mais estudo e menos greve, mais trabalho e menos desperdício de alimentos e menos lixo para o chão. (escrito em Janeiro e publicado na revista "mundo rural" de Fevereiro 2020)
#carlosnevesagricultor
#mundorural
#ambiente
#plástico

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publicado às 14:41

Batatas!

por Carlos Neves, em 15.02.20

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Hoje foi dia de plantarmos as nossas batatas, mas apenas um saco de “batata de semente” para o nosso consumo e pouco mais, só pelo gosto de termos a nossa produção. A terra ainda estava um pouco húmida, ou “pesada”, como nós dizemos, mas era preciso aproveitar a ajuda disponível do Pedro que não tem aulas ao sábado. E no final, para fazer alguns acertos na plantação, o Hugo ensinou o Luís a plantar as batatas como o avô do Hugo fazia, usando os pés como medida de compasso entre os tubérculos.
Já agora, algumas curiosidades: apesar de chamarmos “batata de semente” à batata usada, dizemos que estamos a plantar batata porque a batata é um caule, um tubérculo comestível. Ao partir em pedaços esses tubérculos, cada um tem de ter um olho, o embrião do futuro caule para obtermos as novas plantas, a batateira.
Na wikipédia, ficamos a saber que a batata ou semilha (como é chamada na Madeira) tem nome científico de Solanum tuberosum e é rica em amido. “A espécie teve origem no Cordilheira dos Andes, há cerca de oito mil anos e o cultivo foi aperfeiçoado pelos Incas. Os espanhóis introduziram, no século XVI, a espécie na Europa. A grande dependência da batata fez com que o ataque de pragas que devastam as plantações causasse a morte de milhões de pessoas que tinham a batata como principal alimento, tal como aconteceu na Irlanda em 1845. Atualmente, o tubérculo é o quarto alimento mais consumido do mundo (atrás de milho,trigo e arroz), com milhares de variedades de diferentes cores, sabores e tamanhos que são utilizadas em receitas no mundo todo. O maior produtor mundial é a China, cuja produção em conjunto com a da Índia corresponde a mais de um terço da produção mundial.”
#carlosnevesagricultor

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publicado às 22:30

Quase tudo o que vocês comem é produzido pela agricultura intensiva

por Carlos Neves, em 09.02.20

84617666_205377470860560_1314969980734799872_o.jpgAposto que ao ler o título muitos de vocês engoliram em seco, sentiram um arrepio ou algum tipo de mal estar. É um paradoxo do nosso tempo. A população portuguesa, tal como toda a população do mundo ocidental, vocês, os 95% que não são agricultores, tem uma imagem negativa da agricultura intensiva que vos alimenta. No entanto, quase toda a comida que podem comprar nos supermercados, na mercearia do bairro ou na banca do mercado, é fruto da agricultura intensiva. Carne, leite, ovos, frutas e legumes. Foi a agricultura dos adubos químicos e dos pesticidas de síntese que matou a fome no mundo ocidental e matou a teoria catastrofista do Malthus que dizia ser impossível alimentar a população que estava a crescer.
É pelo facto de conseguirmos produzir comida para vós que vocês podem fazer outras tarefas. Com agricultura de subsistencia cada família produz a sua comida e passa boa parte do dia a fazer isso.
É graças a conseguirmos produzir comida muito mais barata, em relação ao passado, que vocês tem rendimento livre para gastar na cultura, nas férias, no conforto da casa, em roupa melhor ou num carro melhor.
À agricultura intensiva “má” opõem-se a agricultura extensiva “boa”? Não. Já disse e volto a repetir: para fazer agricultura extensiva é preciso ter espaço para “estender”. Podemos fazer isso em Trás-os montes ou no Alentejo, não podemos fazer isso no minifundio do Minho ou da Madeira. Com 8.000 m2 de hortícolas em estufa, um agricultor da Póvoa consegue manter a sua família e produzir a salada para a mesa de muitas famílias; Para ser eficiente, especializou-se em algumas culturas, para as quais tem equipamentos que substituem a mão de obra de antigamente. O mesmo aconteceu a mim quando escolhi produzir milho e erva para alimentar as vacas que produzem leite. Os nossos avós faziam “policultura” porque tinham famílias numerosas a trabalhar de graça e “moços de lavoura muito baratos. Muitos eram os vossos pais e avós, que emigraram para a cidade ou para o estrangeiro à procura de uma vida melhor. Aposto que a encontraram. Claro que tem saudades de certas coisas, mas se fosse melhor no campo e na agricultura tinham voltado, ou pelo menos tentado. Nós tentamos sempre mudar para melhor.
É muito bonito pensar num amor e numa cabana no meio do campo, mas depois não há internet, água canalizada, saneamento,ou pior, não há emprego, não há maternidade, não há escola, o hospital está a uma eternidade de distância e faltam muitas coisas que achamos básicas para um mínimo de qualidade de vida.
Alguns agricultores resistiram a mudar e continuaram a fazer a sua agricultura de subsistência, e fazem muito bem, porque se mantém ocupados, mantém a terra cultivada, complementam a magra reforma e tem uns miminhos para quando os filhos e netos vão visitar. Vão visitar. Não ficaram lá nem lhes pensam suceder, porque essa agricultura é muito bonita mas não dá para sobreviver com um rendimento, vá lá, “classe média”. Nós, os que ficamos na terra a produzir a carne, o leite, os ovos, a fruta, as hortícolas ou o algodão da vossa roupa, fomos os que aceitamos usar máquinas, adubos, pesticidas e todas as coisas que fazem parte da agricultura moderna, tão moderna como o vosso carro, o vosso telemóvel, as vossas máquinas de lavar roupa, louça e os detergentes que colocam lá dentro.
Não quer dizer que tenhamos feito tudo certo. Quem conduz na estrada, umas vezes acelera, outras vezes trava, vira para a esquerda, vira para a direita. Em caminhos de cabras vai devagar, em autoestrada acelera. Adapta-se às condições e vai aprendendo. Como os agricultores, uns no modelo extensivo, outros no intensivo. Cada um procurando adaptar-se às condições locais e aos meios disponíveis, mas todos trabalhando para vos alimentar.
#carlosnevesagricultor

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publicado às 14:10

As vacinas e uma história deliciosa

por Carlos Neves, em 01.02.20

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"Vacina": de "vaca"

Em plena emergência de saúde global devido ao coronavirus, milhares de cientistas em todo o mundo estão certamente a trabalhar noite e dia para descobrir a vacina para esta nova ameaça. Lembrei-me disso hoje enquanto vacinava as minhas turinas🐄🐄🐄. Elas não gostam da picada, eu também não, mas é o melhor para nós.
Não há vacinas obrigatórias para as vacas leiteiras, portanto esta e outras vacinas são uma opção para proteger os nossos animais de doenças que nos fazem gastar mais medicamentos e provocam baixa de produção e até mortes. Por isso, sob orientação veterinária, estou a usar cada vez mais vacinas e menos antibióticos.
A propósito disto, vale a pena recordar que a palavra "vacina" vem de vaca e aproveito para fazer uma pequena citação de um artigo que publiquei no "mundo rural" precisamente com o título "Vacinas"
"(...) As investigações🔬 do médico inglês Edward Jenner, publicadas em 1796, podem ser consideradas como as bases científicas da vacinação. Jenner tinha decidido investigar uma crença muito popular entre os camponeses, e que era a de que os trabalhadores rurais que lidavam muito directamente com vacas doentes com a varíola das vacas, conhecida como “cowpox”, e que desenvolviam pústulas semelhantes às dos animais, (uma condição benigna conhecida por “vaccinia”, do latim “vacca”), não eram contagiados com a varíola humana. Com base nessa investigação, Jenner inoculou um rapaz de 8 anos saudável, que nunca tinha tido nem varíola nem “vaccinia”, com pús de “cowpox”. A criança rapidamente desenvolveu sintomas benignos de “vaccinia” e, mais tarde, foi inoculado com o vírus da varíola humana mas não desenvolveu a doença (...)
Apesar dos erros que se cometeram e possam cometer, porque risco zero não existe, quero aproveitar para manifestar a minha confiança no método científico, na investigação médica, na medicina veterinária ou humana, cujo saber ensinado nas universidades e praticado nos hospitais é um saber acumulado ao longo de séculos, devidamente registado nos livros guardados nas bibliotecas e avaliado pelos cientistas ao longo do tempo. É desse trabalho minucioso de milhares de estudiosos e investigadores, passando por avaliações e testes de segurança, que se chega às vacinas, antibióticos ou outros medicamentos disponíveis.

Ainda a  propósito de vacinas - uma história deliciosa
Houve um tempo, até há 30 anos, em que a vacina da febre aftosa era obrigatória para os bovinos. Nessa altura o meu pai fazia engorda dos novilhos🐃 e um nosso vizinho, o senhor António, tinha um talho e comprava-nos alguns desses animais. Um dia combinámos vender-lhe um touro, ele veio vê-lo, eu entreguei-lhe o "boletim de sanidade” do animal e a folha comprovativa da vacina. Recordo bem que era uma folha A5, letra azul e papel fino. O Sr António quis ver novamente a traseira do novilho, para se certificar que estava bem gordo. O animal estava preso à manjedoura num anexo com 3 animais. O Sr António pousou os papéis na manjedoura, que ficava a 50 cm do chão, à moda antiga, e lá fomos todos avaliar a gordura do touro. Quando voltámos à frente a folha da vacina já estava na boca do animal😀. Basicamente, comeu a sentença de morte e durou mais uma semana, enquanto esperámos pela segunda via pedida na Zona agrária. Lembrei-me disso estes dias porque também foi ilibado em tribunal um autarca que comeu uns papéis.
De volta a coisas mais sérias, as vacinas que hoje damos às vacas são opcionais, mas, apesar dos custos, os agricultores aceitam bem os conselhos dos médicos veterinários. Aqui na agricultura não há moda anti-vacinas com teorias de autismo nas vacas ou conspirações de bigpharma. E podemos dar graças pelo trabalho conjunto de agricultores e veterinários para ter na Europa saúde e segurança alimentar.
#carlosnevesagricultor

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publicado às 18:48

O meu testemunho e opinião sobre robôs de ordenha

por Carlos Neves, em 30.01.20

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(artigo publicado na Revista Ruminantes)

Pediram-me, por mensagem privada, uma opinião sobre o robô de ordenha. Já recebi muitas visitas e já respondi muitas vezes, mas nunca o tinha feito por escrito. Após 7 anos de experiência como proprietário de um robô de ordenha e tendo recebido uma mensagem com essa pergunta, acho que a partilha pública da minha resposta pode ser útil para outros que tenham interesse na matéria.
Não me lembro de quando ouvi falar de robô de ordenha pela primeira vez, mas recordo-me que a perspetiva de acabar com a “prisão” da ordenha logo me entusiasmou. É uma tecnologia com mais de 20 anos. Em 2004 organizámos na AJADP uma inesquecível viagem ao País Basco para ver 2 robôs Lely (contacto por um chat da internet com produtores espanhóis, ainda não havia Lely Center em Portugal) e 2 robôs Delaval (colaboração total do Eng. Santoalha e da equipa Harker). A viagem, a primeira que organizámos, foi memorável. Vimos os robôs, quase ficámos bloqueados na neve da autoestrada de montanha a caminho de Pamplona e no fim de tudo, com estradas cortadas e um motorista nervoso regressámos ao Porto via Madrid e descemos o então IP5 às 4 da manhã com o autocarro a derrapar nas curvas como nunca vi nem quero voltar a ver.
Sobrevivemos para contar e em 2006 o José António e a Manuela instalaram o primeiro robô de ordenha em Portugal, DeLaval (aviso já que este artigo não pretende defender nenhuma côr). Poucos anos mais tarde a Lely instalou os seus primeiros robôs e depois vieram Sac, Gea, Boumatic…
Em 2012 tivemos projeto aprovado para a Quinta do Sinal e o robô começou a funcionar em 2013. A sala de ordenha foi encerrada e imediatamente vendida. Recuperei uma antiga bomba de vácuo para ter uma ordenha portátil alternativa para algum animal que não se consegue deslocar ao robô e permanece na enfermaria.
Antes dessa data passou-se uma coisa muito importante, a decisão de comprar robô e a escolha da marca. Optei pelo robô, partindo do que li, dos vendedores que ouvi e sobretudo do testemunho de vários colegas que já tinham robô e me disseram que podia confiar porque funcionava!
É muito importante visitar vacarias com robô, com os vendedores e sem vendedores. Tirar tempo para ver como as vacas interagem, como se fizeram as obras de adaptação ou construção, saber como avaliam as escolhas que fizeram. Uma vacaria deve durar dezenas de anos. Um robô pode durar 20 anos, porque vão surgindo atualizações e portanto convém escolher bem antes de comprar.
Instalei o robô no lado da vacaria oposto à ordenha e, a 19 de fevereiro de 2013, ao fim da ordenha da manhã fechamos a porta da ordenha e abrimos a porta do robô na outra ponta da vacaria. Acompanhamos em permanência as primeiras 24 horas das vacas com o robô, jantámos no local, depois às 24h00 fui descansar e voltei para render o Hugo, nosso funcionário, às 5h da madrugada. Depois fomos reduzindo a vigilância até entrar em velocidade de cruzeiro. É importante seguir os conselhos técnicos ou a experiência dos colegas que nos antecederam, falando com vários para avaliar se a sua experiência é um caso isolado, se corresponde a um padrão ou houve algum stress pessoal entre o cliente e a empresa que afeta a avaliação. Aconselho fazer toda a formação disponibilizada pela empresa e procurar ter um colega a quem ligar em caso de dúvida também é muito útil. Os primeiros dias e o primeiro mês são fundamentais para a adaptação das vacas e dos donos ao robô, pelo que deve ser planeada para quando há menos trabalho nos campos, para podermos estar 100% focados nas vacas e na máquina.
O robô é muito bom para quem não gosta da ordenha, tem problemas de coluna, articulações ou tendinites nos braços, mas é importante que a pessoa goste de vacas, porque vai deixar de as “empurrar” tocar todas juntas para a ordenha e vai ter de passar pelo meio delas para ir buscar alguma atrasada. Há sempre alguma atrasada (Haverá mais ou menos vacas a tocar conforme a vacaria, a localização do robô, o maneio, a saúde dos cascos, o número total de vacas, etc.)
É fundamental ter boa assistência, sempre disponível, porque estamos completamente dependentes dela. Há coisas simples que devemos aprender a resolver mas há coisas complexas e peças específicas que dependem da assistência. Também aqui o meu conselho é "não inventem, o barato sai caro".
Maiores vantagens dos robôs de ordenha :
Exigem menos espaço que uma sala de ordenha e funcionam mesmo! Reduzem o trabalho e dão mais flexibilidade! Há milhares de robôs a funcionar em todo o mundo; ordenham as vacas mais vezes, ao seu ritmo; É mais leve o trabalho de tocar vacas do que meter tetinas na ordenha; Há sensores adicionais muito úteis e podemos dar ração na quantidade adaptada a cada vaca e suplementar no pós-parto;
Pontos menos positivos:
Custo de investimento elevado face ao baixo preço do leite; Devemos fazer bem as contas, com previsão cautelosa das receitas porque o que vier acima é lucro; Ter poucas vacas ou pouco leite por vaca não paga o investimento! Aconselho apresentar projeto de investimento para receber apoio ou procurar robô de ocasião, mas atualizado e com garantia da marca); Custo de manutenção superior a uma ordenha convencional; Consumos de água e energia superior a uma sala de ordenha que funcione 3 ou 4 horas por dia; Não permite aumentar o número de vacas a cada ano que passa, a evolução terá de ser em múltiplos de 50/60 vacas por cada robô; Um amigo com experiência avisou-me que o robô é “um filho que nunca cresce”, quer dizer, continua a chamar de noite se tiver uma avaria, mas às vezes passam-se meses sem uma chamada e no meu caso melhorou muito após o primeiro ano com as atualizações que foram introduzindo.

Notas finais
• Não é necessário ser engenheiro informático para ter robô, mas é preciso tirar uns minutos de manhã e à noite para ver os gráficos e listagem de vacas atrasadas, doentes, mamites, etc. Às vezes corre tudo bem durante uns tempos, depois facilitamos e esquecemos de vigiar...
• Não é verdade que ficamos presos em casa por causa do robô, apenas alguém tem de ficar "de piquete" a meia hora de distância, até pode ser um vizinho que também tenha robô igual;
• Há que pensar como vamos aproveitar o tempo livre que passamos a ter
• É preciso rigor e protocolos de atuação, para não esquecer as rotinas obrigatórias e não facilitar quando tudo corre bem
• A escolha de uma ração apetente e um nutricionista competente é um fator importante do sucesso, porque a ração do robô e da manjedoura vai influenciar a deslocação voluntária das vacas ao robô.
• Há quem aponte um refugo de 10% de vacas que não se adaptam ao robô (no meu caso foi muito menos), sendo uma parte antecipação da reforma de animais que já iriam deixar a vacaria pouco depois. É importante selecionar a genética para robô, com boa separação dos tetos, velocidade de ordenha e outras características importantes.
• Os robôs parecem ter vindo para ficar, mas vão ser uma entre outras opções à disposição da liberdade de escolha de cada um, depois de avaliar as suas condições e situação pessoal.
#carlosnevesagricultor

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publicado às 00:02

30 anos da CEACV - Formação Profissional - Caminho para uma agricultura digna

por Carlos Neves, em 26.01.20

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publicado às 16:29

Ribeira da Granja - da poluição à recuperação

por Carlos Neves, em 21.01.20

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Cansados de histórias de um mundo cada vez mais poluído? Posso contar-vos um caso em sentido contrário. Hoje quando fui ao campo apanhar erva para os animais reparei na água transparente da "Ribeira da Granja" que passa ao lado. Nasce algures nas freguesias de Vairão e Macieira, em vários fios de água que no Verão ficam secos, passa por Fajozes, Árvore, Azurara e desagua na margem esquerda do Rio Ave, entre os estaleiros de Azurara e a foz, no lugar da Granja, que lhe dá o nome.
Quando eu era criança havia cá na terra uma grande fábrica, a Nórdica, uma tinturaria que tingia a roupa e também o regato à cor da moda, variando com os dias. Às vezes a água vinha quente e um dia até queimámos o milho ao regar o “campo da ribeira” com essa água. Outros dias, muitos dias, cheirava à suinicultura da zona. Depois a Nórdica fechou e a suinicultura, que ainda existe, construiu lagoas de tratamento/decantação dos efluentes, mas entretanto também construíram a zona industrial da Varziela e uma etar com o pomposo nome de “ambicentro”, que ficou abandonada e cheia de silvas alguns anos depois de ser notícia de jornal pela inovadora “tecnologia de tratamento” que possuía. Mais tarde a zona industrial, que creio não ter indústrias particularmente poluentes, passou a “zona comercial dos chineses” e com esse e outros “saneamentos diretos” das habitações ao longo do percurso o regato tornou-se um esgoto a céu aberto cada vez mais poluído até à foz. Um dia estávamos a regar o milho com essa água e veio a GNR perguntar porque estávamos a regar o milho com “água choca”, pois pelo aspeto parecia que vinha direto de alguma fossa (e vinha, de muitas). Resultado: deixei de regar um dos campos, cuja frescura da terra tem bastado para ter milho de qualidade e gastei dinheiro a fazer um poço noutro campo para poder ter água limpa para rega. Até que há uns anos construíram um sistema de saneamento ao longo da ribeira e voltamos a ter lá água quase transparente. Pagaram uma pequena indemnização pelas culturas que estragaram durante a obra e pelas tampas de vigia que deixaram a estorvar o trabalho dos campos e eu pagaria o dobro para que não estivessem lá ou estivessem enterradas mas a compensação principal é ver de novo a ribeira quase recuperada. Ainda há alguma turvação, ainda há algum lixo nas margens e no fundo, ainda não vi as enguias que haveria antigamente, mas já vemos areias douradas no fundo e alguns patos bravos a viver pelas margens. Ainda há muito por fazer mas há que valorizar o que já foi feito. #carlosnevesagricultor

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publicado às 17:41

Protagonista no JN - "As pessoas têm ideias absurdas sobre agricultura"

por Carlos Neves, em 21.01.20

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publicado às 11:54

O que comem as vacas? (com texto, imagens e novidades)

por Carlos Neves, em 16.01.20

Há algum tempo atrás publiquei um vídeo  a mostrar o que comem as nossas vacas, para desmontar a ideia de que a carne e o leite da Europa são produzidas à base de soja das zonas queimadas da Amazónia. Volto ao assunto com imagens dos vários alimentos usados, porque não se viam bem no vídeo e procuro sintetizar e complementar a informação sobre o assunto:

A base da alimentação de todas as vacas leiteiras de todas as vacarias que conheço em Portugal ou no resto da Europa é sempre forragem, plantas quase sempre produzidas nos próprios terrenos junto à vacaria ou comprados a outros agricultores: no meu caso, na minha região, na zona sul da Europa, a base é silagem de milho, (aproveitando toda a planta a partir de 15 com do chão), porque temos temperaturas que permitem um desenvolvimento excepcional do milho; Mais a Norte, na Galiza, no Norte da Europa, nos Açores, a base da alimentação é a erva (azevém, trevos, aveia, luzerna…), em pastoreio direto dos animais ou cortada no campo, transportada para a vacaria e dada imediatamente em verde (como faço às vezes) ou armazenada através da secagem ao sol (feno), desidratada em secadores (sistema raro em Portugal e comum na Espanha ou França) ou fermentada (silagem de erva) em rolos plastificados ou em silos-trincheira (daí vem o nome silagem). Nenhum destes sistemas é mais perfeito, ecológico ou saudável por si próprio, depende das condições de cada um. Basicamente os agricultores, ao longo dos anos, com o apoio dos técnicos, procuraram o sistema mais adaptado às suas condições. Por exemplo, é quase impossível levar os animais a pastar em terrenos no meio de estradas, fábricas e casas e também é quase impossível fazer silagem de milho ou erva na alta montanha ou fazer feno quando chove sempre.

Todas as vacas, todos os bovinos, todos os ruminantes precisam de fibra, por isso usamos as forragens. Mesmo em caso de seca extrema em que tenhamos de recorrer só a ração como nutriente temos de juntar palha para o bom funcionamento digestivo do animal que precisa de alguma fibra para ruminar. No meu caso, 80% da alimentação é forragem (silagem de milho, silagem de erva, palha) e 20% é ração.

Quase todas as vacas comem alguma ração, para equilibrar a forragem de base. Se a base é silagem de milho, os nutricionistas das fábricas de ração complementam com uma ração mais proteica, por exemplo com bagaço de colza ou bagaço de soja. Se a base for erva, as vacas precisam de alguma ração mais energética, com farinha de milho ou sub-produtos do milho (corn gluten, farinha forrageira, etc). Mesmo em pastagem as vacas costumam comer alguma ração, nomeadamente na hora da ordenha. Até no modo de produção biológico comem alguma ração, que é muito mais cara porque tem de ser produzida à base de cereais da agricultura biológica.

As vacas e os restantes ruminantes tem a capacidade de digerir e aproveitar a celulose das plantas e por isso também aproveitar os sub-produtos usados na alimentação humana ou na produção de biocombustíveis. Por isso quase todas as matérias primas que mostro no vídeo e agora com mais detalhe nestas imagens são bagaços, cascas e sêmeas, restos da produção de óleos alimentares, etanol ou biodiesel. As vacas não comem soja, podem comer uma percentagem de bagaço de soja ou casca da soja.

A bem da verdade e da transparência, com dados divulgados pela IACA, Associação Portuguesa dos Industriais de alimentos compostos para animais, só 23% da ração produzida em Portugal é consumida por bovinos (vacas leiteiras e vacas de carne, vitelos e novilhos). Quase metade (44%) é destinada às aves e 22% aos suinos. E dizer isto não é nenhuma crítica aos produtores ou consumidores de ovos ou carne de frango ou de porco (animais monogástricos extremamente eficientes a transformar ração em proteína animal). É só para dizer que é duplamente injusto e falso culpar as vacas por “alegadamente” comerem ração que não comem com produtos que não tem.
#carlosnevesagricultor

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publicado às 18:22


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