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A manutenção dos tratores

por Carlos Neves, em 30.12.21

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Uma das coisas que os agricultores fazem nos dias de inverno quando o tempo não permite trabalhar nos campos é a manutenção dos tratores. É preciso mudar óleos do motor, caixa de velocidades e filtros do ar, do óleo e do gasóleo e meter massa lubrificante nos pontos de lubrificação, além de limpeza ao radiador e uma parafinação em certos pontos.
Costumo levar os tratores maiores e mais modernos a fazer a revisão na oficina da marca, mas aos mais antigos, perdão, clássicos, fazemos a revisão em casa. A nossa relíquia é um Fordson Super Dexta 45 que o meu pai comprou em 1963. Um trator de fabrico inglês, com motor perkings e mecanicamente muito parecido com os Massey Ferguson da época. Depois deste modelo veio a série Ford 2000, 3000 (que podem ver nos filmes da ovelha choné😊). Uma curiosidade que descobri há dias sobre a marca “Fordson”: Henri Ford, empresário de sucesso na indústria automóvel dos Estados Unidos, decidiu investir na produção de tratores para ajudar a agricultura a modernizar-se. Fez uma sociedade com o seu filho e a empresa chamou-se Henri Ford & Son (filho, em inglês). Com o tempo, o nome evoluiu para “Fordson”. Mais recentemente, os tratores Ford foram comprados pela FIAT que também comprou a New Holand, nome atual com que são vendidos os “tratores azuis”.
Aproveitando as férias de Natal, o “mecânico” mais novo deu os primeiros passos na manutenção deste trator mais velho, que ainda trabalha todos os dias na limpeza da vacaria. E como ganhámos o gosto tratámos de mais umas máquinas.
#carlosnevesagricultor&son

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publicado às 23:51

Como é que a erva vai do campo até ao estábulo?

por Carlos Neves, em 27.12.21

Colocaram-me mais uma questão por mensagem (podem continuar a perguntar): "Boas, amigo Carlos Neves,  gostaria de saber como faz a apanha da erva verde, para alimentar as vacas no estábulo" (JR).

Ponto prévio: Noutras regiões do país, é normal levar as vacas ao campo pastar ou deixá-las sempre no campo. Aqui onde estou, na fronteira do Minho com o Douro Litoral, sempre foi normal cortar as forragens no campo (ervas ou milho) e levá-las para a “casa de lavoura” (complexo que compreende o estábulo, os armazéns e a casa do agricultor)  para alimentar os animais abrigados. Recuemos um pouco no tempo. Quando o meu pai nasceu, cortavam a erva com uma foicinha ou “foucinhão”, e carregavam com uma forquilha para o carro de vacas que levava a erva para casa. Quando eu nasci, já os antigos “moços de lavoura” tinham emigrado para a França ou Alemanha (E os meus tios tinham ido para Angola). Devido à falta de mão de obra, o meu pai comprou em 1970, um corta-forragens da marca “JF”  (ainda funcionam por aí algumas “taarup” idênticas) que cortava e carregava a erva para um reboque também “JF” que fazia a descarga da erva por tapete que arrastava para trás. Pela década de 80 o meu pai tentou construir uma engenhoca, um tapete colocado atrás do reboque para levar a erva até à manjedoura. Não resultou. Em 1986 fez como os outros agricultores que entretanto tinham comprado ganhadeiras rotativas para cortar a erva e “reboques forrageiros” para carregar e transportar até casa. As duas  primeiras gadanheiras já foram para a sucata, mas o reboque ainda cá anda, após várias reparações. Também conhecido por “apanhador de erva”, este reboque tem um pick-up rotativo com molas (como as enfardadeiras) que apanham a erva do solo e depois um “transportador” que empurra a erva para dentro do reboque.  Já não se fabricam estes “Santini” porque a fábrica italiana de onde veio faliu, mas ainda há peças e há outras marcas e opções a bom preço no mercado de usados. Como já referi numa publicação anterior, nas maiores vacarias opta-se sobretudo por usar a erva conservada sob a forma de  silagem, rolos de fenosilagem plastificados ou fardos de feno. #carlosnevesagricultor

Vídeo do reboque a carregar erva: https://www.facebook.com/100063587865821/videos/344721753767682

Para ver a descarga da erva » https://fb.watch/a8fysRV8Rp/

 

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publicado às 23:52

Qual é a diferença entre silagem de milho e silagem de erva?

por Carlos Neves, em 25.12.21

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Silagem de erva

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Silagem de milho

 

Recebi uma mensagem a perguntar qual é a diferença entre “silagem de milho” e “silagem de erva”. Para os colegas agricultores a resposta é obvia, mas o objetivo das minhas publicações é comunicar com quem está fora do setor agrícola para mostrar como produzimos os alimentos, cultivamos os campos e criamos os animais.

A silagem de erva é erva “fermentada” e a silagem de milho é o resultado da fermentação de toda a planta de milho. A silagem de milho é mais energética e mais usada para alimentação das vacas leiteiras. A silagem de erva é mais rica em proteína, podendo ser usada na alimentação das vacas ou das novilhas em crescimento. Nos países mais a norte, onde o frio impede o milho de crescer, a silagem de erva é a única opção. Depois os agricultores, com ajuda dos nutricionistas, equilibram  o bolo alimentar das vacas com rações à base de subprodutos de cereais, (por exemplo destilados de milho), oleaginosas (por exemplo bagaço de soja), polpas de beterraba, citrino, etc.

Como já escrevi num texto anterior nesta página, “o milho é cortado e ensilado diretamente, quando tem cerca de 30-35% de matéria seca. Como a erva verde, na primavera, tem muito mais humidade, o que iria dificultar a fermentação, cortámos, espalhamos e deixamos secar 2 ou 3 dias antes de recortar, carregar para os reboques, transportar para o silo, calcar a silagem para tirar o máximo de oxigénio e cobrir com plástico para que não possa voltar a entrar oxigénio. Se houver um buraco no plástico do silo (ou do rolo de erva plastificado) o oxigénio que vai entrar vai permitir o desenvolvimento de bolores e apodrecimento da matéria vegetal.

O processo de conservar forragem sob a forma de silagem é antigo, tendo já sido usado por egípcios e romanos, em fossas, silos e depois em barris de vinho, durante a época medieval. No século 19 o processo de ensilagem desenvolveu-se na Europa e chegou aos Estados Unidos.

Este processo de conservação baseia-se na fermentação láctica da matéria vegetal rica em açúcares, nomeadamente milho ou ervas como azevém, trigos, aveia, cevada, em que as bactérias lácticas, na ausência de oxigénio, degradam a matéria orgânica produzindo ácido láctico e outros ácidos orgânicos, baixando o pH, o que permite a conservação ao longo de todo o ano, podendo-se assim aproveitar as plantas da época de maior produção para alimentar os animais ao longo de todo o ano de forma estável e regular. Perdem-se alguns nutrientes em relação à erva fresca, mas a silagem é mais nutritiva e digestiva que o feno.

É possível que algumas pessoas tenham a ideia que alimentar as vacas com silagem é um processo moderno e artificial, por oposição à alimentação direta na pastagem com erva fresca. Pelo contrário, como expliquei atrás, a silagem é um processo natural com milhares de anos. Nem todos os países ou regiões têm condições de pastagem durante todo o ano ou possibilidade para deslocar os animais ao pasto. Por isso as silagens de milho e erva são a base da alimentação das vacas que produzem a maior parte do leite no mundo."

#carlosnevesagricultor

 

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publicado às 23:45

Ceia de Natal antecipada

por Carlos Neves, em 20.12.21

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Dar às nossas vacas uma "ceia de natal" "reforçada" com a erva nova, antes de nos retirarmos para a nossa ceia de natal, era uma tradição antiga. A chuva prevista para os próximos dias deve impedir que cumpramos essa tradição, mas com as silagens de erva e de milho que temos armazenadas não faltará comida para os nossos animais. Aproveitei ontem e hoje as últimas horas de "bom tempo" para cortar e trazer erva fresca para os animais.

#carlosnevesagricultor

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publicado às 21:44

Filhos da Terra e do Céu

por Carlos Neves, em 08.12.21

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O título deste texto é também o título de um livro que recebi de presente de uma pessoa amiga que conheci nestas andanças da ACR. Trata-se da autobiografia ou, como referem na capa, do “itinerário humano e espiritual de um casal de camponeses” franceses, Simone e Roger Leliévre, que foram dirigentes dos movimentos de jovens e adultos da Acção Católica Rural (ACR) em França e da Fimarc.

Achei o título tocante. É uma síntese brutal das suas e das nossas vidas. Nós, crentes, acreditamos que somos ao mesmo tempo filhos do céu, mas também filhos adotivos da terra enquanto estamos cá de passagem. Mas, além disso, nós, rurais, mais ou menos envolvidos no trabalho da terra, filhos ou netos de agricultores, somos “filhos” da agricultura, do meio rural e de toda a cultura ligada à terra. Nesta consciência de “filhos” há também uma humildade e uma simplicidade desarmantes que atravessam todo o livro.

Roger é natural da Normandia, no norte litoral da França. Simone nasceu a 600 km para o interior, próximo da Alemanha. As famílias de ambos dedicavam-se à agricultura desde tempos imemoriais. A sua infância foi marcada pela agricultura de subsistência e pela invasão alemã da segunda guerra mundial. Na juventude aderiram à JAC / JACF (juventude agrária católica masculina e feminina) e conheceram-se em Paris quando ambos estiveram como dirigentes leigos do movimento com responsabilidades de coordenação a nível nacional. Estiveram no congresso internacional de jovens rurais realizado em Lurdes em1960, onde o meu pai e outros jovens rurais portugueses também participaram.

Depois de casarem, decidiram instalar-se na agricultura, na década de 60, seguindo a profissão que tinham aprendido com as suas famílias. Devido à pequena dimensão da agricultura das famílias de origem, foram emigrantes no seu próprio país à procura da sua “terra prometida”, recorrendo a um serviço público que servia para “encontrar terra para gente que não a tem e gente para terra que não tem gente”.

Seguindo um conselho muito útil, os primeiros meses foram passados em estágios. Isto é muito importante mesmo para quem cresceu na agricultura, aprender formas de trabalhar de uma forma diferente da nossa família. Penso que mais estágios aumentariam o sucesso da instalação de jovens agricultores também no nosso Portugal do século XXI.

Encontrada uma quinta disponível, o início da atividade agrícola de Roger e Simone decorreu numa sociedade com outro casal de jovens agricultores, cultivando campos e criando vacas leiteiras nos terrenos e estábulos das duas famílias. A sociedade surgiu como opção devido a terem poucos recursos económicos e na expetativa de poderem ter tempo livre pela repartição do trabalho, mas ao fim de poucos anos romperam a sociedade por dificuldades de relacionamento cujos pormenores são omitidos no livro. Voltaram à “estaca zero” e durante alguns anos criaram vacas até que um surto de tuberculose no rebanho os levou a deixar a produção de leite (o que lhes permitiu libertar-se da “prisão das vacas leiteiras” que os impedia de visitar a família distante) e passaram à engorda de vacas limousine para carne e outras atividades como engorda de perús para o Natal e depois gansos. Simone especializou-se na criação de coelhos, de modo que foi até convidada a dar uma palestra, sendo apresentada como a “Senhora Lebre (Lelievre) que nos vai falar da sua criação de coelhos”. A audiência desatou a rir.

Tendo começado a receber turistas em regime de “turismo rural” familiar, essa foi também, durante anos, a sua oportunidade de fazer férias e visitar as suas famílias de origem, deixando a tomar conta da quinta e dos animais uma família que vinha lá passar férias;

Mais tarde, organizaram campos de férias pedagógicos para crianças. Durante anos foi um sucesso na aproximação das crianças ao mundo agrícola e onde se envolveram os quatro filhos do casal, já crescidos, mas, ao longo do tempo, o aumento das exigências em termos de regras e regulamentos tornou-se desencorajante. Ainda assim foi uma atividade que deixou excelentes recordações, como a menina que na hora de partir perguntou se não tinham para venda, como recordação, um perfume com os “cheiros da quinta” que ela adorava.

Há um capítulo do livro dedicado à disputa de terras entre agricultores vizinhos. O que aconteceu na França e continua a acontecer em todos os países desenvolvidos ou em desenvolvimento é a redução do número de pessoas que se dedica à agricultura e do número de quintas / empresas agrícolas. Os vizinhos que pretendem continuar na agricultura procuram alugar ou adquirir essas terras para ganharem dimensão. Roger foi chamado a mediar um conflito entre vizinhos que após ofensas estava a caminho do tribunal. Por cá não conheci casos tão extremos, mas o fenómeno é idêntico. É assim em todo o mundo agrícola. A opção é crescer ou fechar. Outro fenómeno associado é o endividamento dos agricultores. A substituição da mão de obra tradicional por máquinas cada vez maiores, mais complexas e mais caras, exige um investimento que afoga em dívidas muitos agricultores, num mercado em que não controlam os preços de compra e de venda dos produtos. Lá como cá.

O livro relata ainda a experiência da participação de Simone na gestão autárquica, o envolvimento de ambos no associativismo agrícola, o acidente de trator que capotou sobre Roger e a que sobreviveu “por milagre”, o auxílio a emigrantes, a sua consciência ecológica e o “porquê” das suas opções guiadas por uma “bussola” , um humanismo enquadrado na sua fé cristã. Tudo isso é inseparável da participação no movimento CMR (Cristãos em Meio Rural), a cujo secretariado nacional foram chamados já com os filhos nascidos, passando alguns anos em Paris e mais tarde dedicando dois mandatos à coordenação do movimento internacional da Ação Católica, a Fimarc. Entre as várias atividades há uma referência a um buffet gigante com 800 participantes e toda a diversidade de produtos oriundos de todo o pais. E essa referência levou-me à memória de um jantar memorável, à nossa dimensão, na Casa diocesana da Senhora do Socorro, em Albergaria, por ocasião das jornadas sociais da ACR, salvo erro em 1992.

Obrigado Simone, Roger e Helena Inês, que me fez chegar este livro. Ao longo de toda a leitura, cruzei muitas vezes as histórias relatadas com a minha experiência na agricultura e na ACR. Como escreveram na contra-capa, “não é normal que as gentes da terra tomem a palavra – no caso, a caneta – para contar a sua vida”, mas quiseram avisar-nos sobre “a idolatria do poder e do dinheiro que colocam em risco a Terra” porque acreditam que “o futuro continua aberto aos atores de uma civilização regenerada que escute as lições da natureza e salvaguarde a nossa casa comum”. (publicado no "mundo rural" Novembro -Dezembro 2021)

 

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publicado às 19:42

Será que tem futuro?

por Carlos Neves, em 10.11.21

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O Luís é um miúdo normal que gosta de brincar a imitar o nosso trabalho e eu sou um pai normal que gosta de fotografar. Esta semana, uma foto com o trator de pedais, junto às vacas, mereceu alguns comentários muito simpáticos, que agradeço, mas também uma pergunta angustiada de um colega: “Será que tem futuro (na agricultura)?” Boa pergunta. É uma questão que tem estado presente muitas vezes no meu pensamento, em particular ao longo deste ano difícil.

Vamos por partes. Quando o Luís concluir os estudos e entrar na vida ativa o mundo será muito diferente do que é hoje. Não vale a pena sofrer por antecipação. O essencial é que tenha saúde para crescer e nós tenhamos saúde para o acompanhar e rendimento para uma vida digna e tranquila. Mas, para além do meu caso particular, pensemos em todos os miúdos que crescem connosco na agricultura. Será responsável da nossa parte encaminhar os nossos filhos para serem agricultores?
Sei que muitos cresceram a ouvir pais, avós ou vizinhos dizerem para deixar a agricultura e procurar um emprego mais confortável e rentável atrás de uma secretária. Havia razões para isso porque a reduzida dimensão de muitas agriculturas não permitia mais do que uma pobre subsistência. Também hoje me interrogo qual será a dimensão mínima que uma empresa agrícola precisará para sobreviver de forma rentável. Ao longo dos anos, o esmagamento dos preços agrícolas obrigou-nos a produzir mais para ganhar o mesmo. Quem parou de crescer, de melhorar a forma de trabalhar ou de investir na segurança e no conforto dificilmente teve ou terá continuadores.
A agricultura tem futuro. Vai evoluir e ser diferente do que é hoje, mas ainda não inventaram melhor forma de alimentar as pessoas, ocupar o território e manter a paisagem. A criação de animais tem futuro, apesar de estar debaixo do fogo de uma minoria barulhenta que não quer deixar os outros comer carne, ovos ou beber leite. A criação de animais é tão antiga como a agricultura. Os ruminantes são capazes de digerir a celulose das ervas dos montes onde nada mais cresce e completar a sua alimentação com rações feitas com os “subprodutos” da alimentação humana e dos biocombustíveis: polpa de citrinos, polpa de beterraba, bagaços de soja e de colza, destilados de milho, etc. E dão-nos ainda o estrume que fertilizou e enriqueceu as terras ao longo de gerações.
Procuro sempre olhar o copo meio cheio e ver as coisas pelo lado positivo, mas este tem sido um ano difícil. O custo das rações cresceu ao longo do último ano e vai continuar a subir. Nos últimos meses, disparou o preço da energia, do gasóleo e dos adubos. Basicamente, subiram todos os fatores de produção que temos de comprar, mas o leite que vendemos subiu apenas 1,5 cts / litro e não vejo vontade ou perspetiva de subir a curto prazo. Toda a gente diz que os produtores têm razão para se queixar mas as cooperativas são incapazes de valorizar o leite, as indústrias dizem que a culpa é da distribuição, as várias cadeias de distribuição dizem que a culpa é dos concorrentes ou da indústria e a ministra da agricultura e quase todos os restantes políticos quase nada dizem ou fazem para nos ajudar.
O mundo precisa de agricultores e haverá gente disposta a continuar a atividade, mas é preciso que todos os que ocupam lugares de poder (nas cooperativas, nas indústrias, nos supermercados, no poder político ou que de alguma forma possam intervir) coloquem a mão na consciência, tomem decisões corajosas e deem a mão aos agricultores neste momento difícil.
#carlosnevesagricultor

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publicado às 07:48

Cigarras, formigas e silagens

por Carlos Neves, em 23.10.21

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Entre muitas fotos e vídeos de tratores e reboques a ensilar milho, alguém comentou: “Parecem formiguinhas a levar comida para casa! ” Entendi o comentário como elogio de alguém que conhece a história da cigarra que passou o verão a cantar e que não guardou reservas para o inverno, como a previdente formiga. Esta fábula terá sido escrita por Esopo, na Grécia, 600 anos antes de Cristo e foi recontada por Jean de La Fontaine há 400 anos. Ao longo dos séculos, serviu para ensinar a trabalhar e poupar.

No final do Século XX, nos anos 90, António Alçada-Baptista escreveu a “contra-fábula da cigarra e da formiga”. A formiga vivia então cheia de stress a trabalhar na bolsa de valores enquanto a cigarra era artista musical, mas, no fim do verão em que não tirou férias, a formiga descobriu que a cigarra tinha conseguido um contrato para passar o inverno a cantar em Paris. Disse-lhe então: “se lá encontrares um tal de La Fontaine manda-o para o raio que o parta, sim?” 😊 Percebe-se a moralidade sobre o excesso de trabalho, mas não se iludam com o exemplo dado. Para ter sucesso a cantar ou chutar uma bola também é preciso muito trabalho.
Chegámos aos anos 20 do século XXI e agora as cigarras são ativistas nas redes sociais e dedicam-se a criticar as formigas. As formigas já não são o modelo a seguir. Mais do que gozadas, são agora criticadas pela forma como trabalham e cada vez mais condicionadas pelas regras que as cigarras vão promovendo, por exemplo antes de votações do orçamento.
Focadas no trabalho, as “formigas-agricultores” não estão preparadas nem têm tempo e paciência para responder às cigarras no mesmo tom e juntam ao stress do trabalho o stress de serem criticadas e mal pagas. As voltas que este mundo deu!...
#carlosnevesagricultor

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publicado às 16:06

O milho não é todo igual

por Carlos Neves, em 17.10.21
Pode ser uma imagem de comida e milho
Pode ser uma imagem de ao ar livre
Ontem colhemos mais uma parcela de milho grão, poucas horas antes da chuva chegar. Desta vez, um milho diferente, com plantas mais baixas, espigas mais pequenas e grãos pequenos e redondos. Apesar do aspecto, não é milho para pipocas, mas apenas milho de grão redondo e pequeno, ideal para alimentação animal, por exemplo das galinhas. Tem a vantagem de ter um ciclo de vida mais curto, portanto amadurece mais rápido, podendo dispensar os banhos de sol na eira ou a ida ao secador. Sendo mais precoce e tendo menos crescimento, precisa de menos água, podendo ser cultivado em sequeiro se for semeado cedo para aproveitar as chuvas da primavera. Este “milho miúdo” para as galinhas é muito apreciado por ter uma cor intensa que torna as gemas dos ovos das galinhas mais amarelas. Tem ainda a vantagem de ser pago a um preço superior mas, porque não há bela sem senão, é muito menos produtivo que o milho de grão “dentado”, em forma de “cunha”, que usamos normalmente para produzir “milho silagem” ou “milho grão” para moer e fazer farinha também para alimentação animal.
E o milho vermelho, para que serve? Esta espiga é produção do nosso quintal a partir de outra espiga que pedimos a um agricultor vizinho há alguns anos atrás, quando levou um reboque cheio delas num cortejo de oferendas para a igreja. Hoje usamo-lo apenas para fazer arranjos, como adorno. Antigamente colocavam-se algumas espigas desse milho vermelho no monte das espigas a desfolhar na eira e quem tivesse a sorte de encontrar uma dessas espigas gritava “milho-rei” e tinha direito a dar abraços e beijinhos a todo o grupo que participava no convívio que era a desfolhada tradicional.
Dentro de cada um destes tipos de milho há imensas variedades que os nossos antepassados foram escolhendo e apurando, nomeadamente as variedades de "milho branco" usadas para fazer pão. Nas últimas dezenas de anos esse trabalho de selecção passou a ser feito por empresas que vão cruzando, experimentando e desenvolvendo. Depois, para fazer publicidade, colocam placas com o nome da empresa e da variedade de milho nos campos que estejam localizados próximo de estradas. São essas placas com nomes ou códigos que podem ver ainda nos campos de milho já colhido. Não se trata de qualquer aviso obrigatório sobre tratamentos com pesticidas ou algo equivalente, é apenas publicidade.
#carlosnevesagricultor

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publicado às 11:00

Desenrascado

por Carlos Neves, em 05.10.21

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Era manhã de dia feriado mas os animais precisavam de comer. Carreguei a mistura com silagem de erva para as novilhas, depois seguiu-se a silagem de milho para as vacas. Faltavam apenas 500 kgs para ter a carga completa quando ouvi “pfffffff…”, o que me alertou para qualquer coisa estranha. Sem que nada fizesse prever, tinha furado um dos tubos do óleo que faz funcionar o motor da “fresa” que carrega o milho. Por sorte, a avaria não afetava a mistura e distribuição da comida e assim pude completar a carga recorrendo ao trator com pá carregadora, enquanto pensava como resolver esta avaria num feriado. Por sorte e boa vontade de quem lá manda e trabalha, a oficina estava aberta. “Só estamos aqui meia dúzia, mas aparece que dá para desenrascar isso”, disse-me o patrão. Não era só meia dúzia. Quando cheguei, também encontrei meia dúzia de colegas agricultores, uns a chegar, outros a sair, outros à espera da reparação de dois reboques para transporte de silagem e uma retrofesa com semeador de erva.

A agricultura não pára porque não pode parar. Os animais têm de ser alimentados, cuidados e ordenhados. As sementeiras e colheitas tem que ser feitas nos dias e horas que sobram com bom tempo na janela temporal apropriada. A agricultura não pára porque os agricultores não páram e tem uma enorme equipa por trás que os apoia e acompanha.
Os agricultores são cada vez menos e para cultivar a terra precisam de máquinas e equipamentos cada vez maiores. Já não são apenas os veterinários que têm de estar de plantão para um parto difícil ou outra doença urgente. A máquina ou robô de ordenha, o tanque de refrigerar o leite, as máquinas de colher o milho, as uvas ou a fruta não podem parar muito tempo.
Ontem levei um trator à oficina para trocar uns parafusos mas a maior parte dos mecânicos andavam fora, nos campos, a dar assistência às máquinas. Ao fim da tarde, o eletricista veio resolver um problema com uma câmara de vídeo. Um colega agricultor e prestador de serviços dizia-me na semana passada: Na hora de comprar, eu não escolho apenas um trator, em primeiro lugar preciso de um serviço de assistência que funcione.
Com as silagens e vindimas na reta final e com outras colheitas ainda a decorrer, fica aqui a minha homenagem e agradecimento a todos os que fazem horas extra para nos “desenrascar”.
#carlosnevesagricultor

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publicado às 21:36

O que é que este gado vai comer hoje?

por Carlos Neves, em 22.09.21

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Na segunda-feira, estando vazio o corredor de alimentação das novilhas, o Hugo perguntou-me o que ia ser “a comida daquele gado”. Elas não estavam de estômago vazio, pois já tinham tomado os seus “cereais de pequeno almoço” (ração), mas faltava dar a forragem que enche a pança. No domingo à noite, tinha-lhes colocado na manjedoura a última parte do rolo de feno que comeram durante o fim de semana. Respondi que íamos buscar luzerna, porque tinha uma pequena parcela com essa erva já crescida e pronta a cortar, mas depois mudei de ideias. Entre os tratores que costumamos usar para cortar erva, um estava engatado à cisterna e o outro à grade de discos para fazer a incorporação imediata do chorume. Teria de desengatar o trator da grade, engatar a gadanheira, cortar a erva, depois ir buscar com outro trator, descarregar no corredor e depois dar a erva manualmente, com o gancho ou a forquilha, como habitualmente fazemos e tudo isso ia demorar tempo e no fim voltar a desengatar a gadanheira e engatar a grade de discos para colocar o chorume previsto em dois terrenos. Então mudei de ideias, dei silagem de erva às novilhas, muito mais rapidamente, fizemos o espalhamento e incorporação do chorume e deixei para hoje o trabalho com a erva verde.

Tudo isto fez-me lembrar uma conversa que tive há cerca de 25 anos com a Engª Ana Gomes, nutricionista da minha cooperativa, quando me instalei como jovem agricultor e comecei a tomar as rédeas do negócio agropecuário. Perguntei se devia dar erva verde às vacas leiteiras, como era tradicional, ou dar apenas a mistura de palha, silagem de milho, às vezes silagem de erva e ração, tudo misturado no unifeed, como faziam algumas vacarias, em geral as maiores e mais modernas. A resposta foi muito prática: “os seus colegas que não dão erva verde têm maior produção por vaca”. Segui esse conselho, mas isso causou muitas discussões com o meu pai, que queria continuar a dar erva fresca aos animais. Então, para fazer a vontade ao meu pai sem afetar a produção das vacas, passei a dar apenas erva às novilhas que ainda estão em crescimento, e que precisam de uma alimentação com mais proteína e menos energia.
Mas então a erva verde não é um bom alimento para as vacas? Sim, é excelente, mas tem dois defeitos: como expliquei, exige mais mão de obra e nem sempre temos erva disponível. No verão há pouca, em dias de chuva não podemos ir ao campo buscar e noutras ocasiões temos demais. No outono-inverno, quando as primeiras aveias cresciam, havia o risco da erva “melar” (acamar) e andávamos aflitos a cortar erva e dar como alimento em quantidades exageradas. Ora as vacas dão mais leite e com mais qualidade se tiverem uma alimentação regular, porque de cada vez que mudamos a alimentação alteramos a flora ruminal (as bactérias que a vaca tem no primeiro estômago e que são fundamentais para a digestão dos alimentos fibrosos).
Ainda há quem dê erva fresca às vacas leiteiras, mas em geral as vacarias que cresceram e ganharam dimensão para serem competitivas e resistir foram as que simplificaram a alimentação dos animais. A mão de obra é cara, escassa e temos de ser mais eficientes, fazer mais trabalho no mesmo tempo, ganhar dimensão e conseguir economia de escala. Iremos continuar nessa tendência ou voltaremos à erva diária para as vacas? Não sei. Vou manter a erva fresca para as novilhas alguns dias por semana? No imediato sim, mas vou reavaliar, ver outras experiências e repensar o assunto. E se algum colega quiser comentar, partilhar a sua experiência e dar a sua opinião, faça favor!
#carlosnevesagricultor

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publicado às 13:34


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